Qual é o solo que queremos?

Um bate-papo sobre os desafios e oportunidades da história recente da busca por conhecimento sobre solos no país.

Com 8.516.000 km², o Brasil – maior país da América do Sul – não conhece o suficiente sobre seus solos, um dos recursos naturais mais importantes para o desenvolvimento da agricultura. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), atualmente existem apenas levantamentos de solo de caráter geral e mapas de pequena escala. O órgão também aponta que menos de 5% do território nacional conta com mapas de solos em escala de 1:100.000, enquanto os Estados Unidos – um dos principais concorrentes do Brasil na produção de commodities – possui mapas de solo em escalas entre 1:20.000 e 1:40.000 que cobrem o país quase que integralmente.

Para conhecer as perspectivas e possibilidades dos solos brasileiros no futuro, o YouAgro conversou com dois especialistas em ciências do solo aplicadas na agricultura e em inovação e transformação digital.  

O que sabemos do nosso solo?

Hoje o agronegócio ocupa os solos brasileiros de duas formas: por meio da pecuária, que demanda atualmente cerca de 20% da extensão territorial do Brasil, e da agricultura, que explora 8% da área total do país. Segundo Rafael Parras, Engenheiro Agrônomo que atualmente é gestor de novos modelos de negócio na InovaJab (Incubadora de empresas/UNESP) e doutorando em ciências do solo, de 70% a 80% das áreas de pastagem da agropecuária apresentam algum estágio de degradação. “Mas o Brasil é tão grande que não sabemos onde estão essas áreas”, comenta Parras.

Para o gestor, a carência de informações sobre o solo afeta a agricultura e a sociedade como um todo.

“Não conseguimos aplicar uma agricultura de precisão eficiente, não conseguimos criar programas de políticas públicas mais específicos para uso do solo. Nada disso é possível sem a informação pontual que o mapeamento pode nos trazer”, aponta.

De acordo com o doutorando, já existem processos “analógicos” para saber o que acontece com nosso solo nas regiões produtoras, mas são formas incipientes de coleta de dados mobilizadas pela iniciativa pública.

“Se eu tiver uma base de informações sobre os solos, saberei qual foi o manejo utilizado por aquele agricultor, se foi feita a adubação correta ou não. No modelo que está sendo utilizado, dependemos da palavra da pessoa, simplesmente temos que acreditar no que o agricultor diz”.

O Engenheiro Agrônomo Diego Silva Siqueira, com Pós-Doutorado em técnicas de mapeamento e especialista em magnetismo do solo aplicado na gestão agrícola, reforça que, além dos desafios para a tomada de decisão mais sustentável quanto ao uso de solos no Brasil, a falta de conhecimento sobre esse recurso natural resulta muitas vezes em descaso e mau uso. “Quando o ser humano não conhece, ele não respeita. Dá tudo errado”, comenta. Siqueira aponta ainda que, mais que a falta do mapeamento adequado, “a divulgação dos conhecimentos sobre solo que já foram gerados também precisa melhorar”.

“Jeitinho brasileiro”

No bom sentindo, o jeitinho brasileiro vem fazendo a diferença na relação entre o agronegócio e o uso correto dos solos. Sem esperar da iniciativa pública, o setor não ficou de braços cruzados, e tecnologias para mapeamento de solo já circulam nas lavouras e ajudam o agricultor a conhecer melhor seus talhões.

De acordo com Rafael Parras, “ao invés do agricultor portar um sensor que só observa a planta, ele carrega algo que mapeia também o solo”, explica. Esses sensores muitas vezes já estão embarcados no maquinário, e a princípio não eram utilizados para compilar dados sobre o solo pelo advento da falta de softwares que pudessem processar toda a informação.

Agora, o produtor interessado em analisar o potencial agrícola do solo também pode utilizar diferentes sensores, estejam eles em drones, quadricículos, tratores, colhedoras, implementos ou no próprio celular. Esses dispositivos permitem o processamento de dados de forma remota e analisam exclusivamente as informações necessárias. Mas até chegar a esse nível, teve gente que comeu muita poeira.

“Por um bom tempo o agro ficou distante da Tecnologia da Informação”

lembra Parras, que teve experiência com desenvolvimento de plataformas voltadas para análise de solos. De acordo com o agrônomo, isso explica o fato de que ainda hoje sensores que foram desenvolvidos para outras finalidades sejam aproveitados no campo.

Durante sua carreira, o recurso humano foi um dos maiores gaps do gestor para conseguir criar ferramentas que atendessem estritamente essa área de conhecimento. “No início dos projetos a ideia era unir o conhecimento de cientistas do solo com os de inovação e TI, e havia uma distância muito grande entre o que cada um entendia sobre o objetivo da ferramenta e o setor. As coisas ficaram mais fáceis quando passaram a surgir pessoas qualificadas em Big Data e ciências aplicadas na agricultura, por exemplo”, esclarece.

Visão de valor

Siqueira aponta que enquanto o agricultor – principal demandante de novas tecnologias – não enxergar valor no uso correto do solo, nas técnicas de manejo e no próprio solo enquanto recurso natural finito, não haverá incentivo suficiente para que sejam desenvolvidas soluções que atendam essa pauta por completo. “Quando observamos que apenas 5% dos agricultores se preocupam em analisar o solo de suas lavouras, temos um indicador claro de que é difícil investir em um segmento que vai vender algo para ajudar o cliente final a superar desafios que ele ainda nem conhece”, comenta.

Isso se justifica no levantamento Brazil AgTech Market Map. “Existem mais de 350 Startups AgTech no Brasil. Entre as que foram mapeadas em 2018, menos de 5% apresentam o solo como foco central de negócio”, explica Diego Siqueira. Para o especialista, o recurso natural solo representa um “Oceano Azul” a ser explorado de forma sustentável e integrada.

Parras lembra que quem produz ciência se distanciou do fator financeiro. “Se nós não nos preparamos para falar nessa linguagem, convertendo inovação em produtividade, o cliente não vai entender”. Para o doutorando, o agricultor vai passar a ver mais valor no solo e nas tecnologias quando as próprias ferramentas apontarem o quanto ele está perdendo por não analisar suas lavouras.

Ainda segundo Parras, o desafio atual dos desenvolvedores e pesquisadores é concluir quais são os dados que realmente precisam ser analisados para auxiliar na tomada de decisão, e ao mesmo tempo mostrar o valor da tecnologia. “Hoje não sabemos o que avaliar. O mais tangível é o que é fácil de demonstrar em valores de capital. Se o agricultor não considera a erosão e meu sensor mostrar que ele perde dinheiro com isso, a adoção dessa ferramenta será mais fácil”, explica.

Futuro próximo positivo

“A tecnologia vai chegar de algum jeito ou deixamos de ser competitivos. Se você não se adequar, terá que abandonar o negócio. A inovação chega a ser mandatória no agro”, comenta Rafael Parras sobre as inovações tecnológicas e a agricultura 4.0 que já começam a bater na porta dos produtores. E não é para menos, com o objetivo de produzir 40% dos alimentos consumidos no planeta em 2050, muito investimento deverá ser feito em todas as áreas de conhecimento aplicadas na agricultura brasileira.

Seguindo essa tendência, em junho de 2018 a EMBRAPA lançou o PRONASOLOS (Programa Nacional de Solos do Brasil). Com duração de 30 anos, o objetivo do projeto é mapear os solos de 1,3 milhões de km² do país nos primeiros dez anos, e mais 6,9 milhões de km² até 2048, em escalas que vão de 1:25.000 a 1:100.000. O programa contará com investimento estimado em R$ 4 bilhões para integrar instituições dedicadas à investigação, documentação, inventário e interpretação dos dados de solos brasileiros, e implantar uma estrutura organizacional com corpo técnico exclusivo.

De acordo com Diego Siqueira, o desenvolvimento aprofundado do seguimento trará uma série de pontos positivos para o agronegócio. “Facilitaremos o uso de técnicas de análises disruptivas, o que ajudaria a calibrar o método correto para analisar solos brasileiros. Também entenderemos a real condição do nosso solo, promovendo manejo mais adequado e eficiente e uma agricultura de precisão que vai conseguir otimizar ainda mais recursos”, aponta.

Outra questão que ganhará força é o estabelecimento da Governança de Solos. “Isso representa uma visão mais ampla, democrática e sustentável da conservação do solo”, esclarece Siqueira. Com a padronização de práticas corretas de manejo e prevenção de erosão, análise de solo e amostragem de forma direcionada – ações que ainda não foram amplamente difundidas para os agricultores – todo conhecimento será convertido em rentabilidade.

Fica agora a missão para alavancar todo esse desenvolvimento.

“Precisamos conectar as pessoas, alinhar o discurso. A mensagem precisa ser mais atrativa e focada nos reais desafios quando falamos sobre solos brasileiros ou tropicais como um todo. Se nos comunicarmos melhor com o agricultor, toda a cadeia conseguirá se desenvolver e diferentes gerações poderão usufruir desse recurso, garantindo a segurança alimentar ”, conclui Diego Siqueira.

Lucas Jacinto, integrante da nova escola do Jornalismo Agro. Diretor de Comunicação e Consultor de Marketing de Conteúdo da Ag.In.


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