O que você precisa saber sobre o atual cenário de grãos

Desde o início do ano, a dinâmica do mercado de grãos apresentou mudanças de cenário no que diz respeito a comercialização da produção Brasileira. Em março, falávamos sobre os impactos do compromisso chinês de compra de commodities americanas – o que naquele momento, representava uma alteração onde a maior parte do volume da soja adquirida pela China aqui no Brasil em 2018, seria comprada dos Estados Unidos em 2019. No entanto, por uma série de fatores, incluindo adventos climáticos, esse enredo pode tomar um rumo diferente – dessa vez, mais positivo para o Brasil.

Para entender melhor essa situação, o YouAgro conversou com Tarso Veloso, Analista da ARC Mercosul, empresa de pesquisa de mercado de Chicago (EUA).

BRASIL X CHINA X EUA

“A china é o maior importador de soja do planeta, com expectativa de importação de 86 milhões de toneladas neste ano, segundo o USDA”, afirma Tarso Veloso. Em maio de 2018, as duas maiores economias do planeta, China e EUA, iniciaram uma guerra tarifária que acabou respingando nas commodities.

“Os americanos acusaram os asiáticos de práticas comerciais ilegais e anunciaram tarifas sobre importação de produtos fabricados na China. Em contrapartida, os chineses taxaram produtos agrícolas americanos, que são base importante de apoio político ao presidente Trump, e desde então os chineses passaram a importar quase toda a sua totalidade de soja do Brasil”, explica Veloso. Com isso, o Brasil, que desde 2014 exportava os mesmos 50 milhões de toneladas de soja por ano, passou a exportar 80 milhões de toneladas no ano passado, enquanto os americanos exportaram apenas 48 milhões de toneladas.

Em um conflito que não ficou apenas na seara das commodities, o governo americano chegou a anunciar tarifas de 10% sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses, ameaçando, inclusive, ampliar essa taxa para 25%. Nesse “toma lá, dá cá”, prevaleceu a vontade dos Estados Unidos em tentar consolidar um novo acordo comercial EUA x China, que resultaria – pelo menos em um primeiro momento – na troca da soja brasileira pela americana.

Lavouras americanas

“A situação climática nos EUA começa a se tornar um desastre”, comenta o analista. “O produtor americano não está muito otimista para o plantio devido às chuvas e por conta dos preços baixos”, esclarece. Segundo a ARC Mercosul, existe uma tendência em que produtores que puderem optar pelo Seguro de Prevenção ao plantio, o farão. “Nesta modalidade de seguro, o produtor rural que não conseguir plantar sua safra até o fim da janela de plantio por conta de problemas climáticos recebe um valor específico pelo bushel de soja e milho. O valor depende da área plantada no ano passado e da expectativa de plantio neste ano”, explica.

Previsão de precipitações até 1 de junho nos Estados Unidos.

A janela de plantio do milho em quase todo o Cinturão Agrícola se encerra no dia 1 de junho. Após esta data, as produtividades das lavouras de milho começam a cair cerca de 15% e as perdas aumentam quase diariamente. “De acordo com análise da ARC Mercosul, o preço do bushel de milho na CBOT teria que subir para cerca de $ 4,60 (base dezembro) para que o risco de plantio valha a pena. Caso contrário, o seguro será mais rentável”, afirma Veloso.

O analista explica que, se o ritmo do plantio de milho alcançar 50% e a soja 21% – como esperado pelo mercado -, ainda faltará um recorde de 46 milhões de hectares que precisam ser plantados em apenas 10 ou 14 dias. “O problema é que os mapas climáticos continuam mostrando fortes chuvas justamente para os próximos 7-10 dias. Caso a cobertura das chuvas se estendam até o início de junho, boa parte desta área poderá não ser semeada”, aponta.

De acordo com o analista, se não ocorrer uma rápida mudança climática, esse pode ser apenas o começo da alta das cotações futuras do milho, o que pode impactar também na soja se as chuvas continuarem entre os dias 7 e 10 de junho. “Neste contexto climático, estimamos que o milho ainda pode subir de 20 a 30 centavos e a soja de 40 a 50, caso o clima continue atrasando o plantio. Acreditamos que o pico de preço devido aos problemas climáticos ocorrerá no fim de junho e no início de julho”, comenta Veloso


Perdendo dinheiro

De acordo com o analista, no ano passado o governo americano pagou $ 12 bilhões de dólares (R$ 48 bilhões de reais) para produtores de soja nos EUA. “Hoje, sabemos que a maioria do dinheiro foi para apenas algumas propriedades e empresas. A ajuda não foi suficiente para a elevar a rentabilidade do produtor. Estima-se que o número de inadimplência em crédito rural pode dobrar se comparado com os níveis de 2017. O produto americano continua com custo elevado de produção e preços baixos”, completa Veloso.

Na semana passada, a ARC Mercosul telefonou para mais de 10 clientes americanos nos estados de Indiana, Ohio, Minnesota, Iowa e Illinois e descobriu que, além de os trabalhos de plantio estarem praticamente parados, a safra que já foi plantada até agora está em péssimas condições. “Produtores que começaram o plantio no meio de abril já estão sem plantar há quase três semanas por conta da chuva, e as sementes que foram plantadas não estão germinando, o que vai exigir o replantio”, revela Veloso.

Como o agricultor brasileiro pode aproveitar esse momento?

Apesar de a safra de soja brasileira ter sido ligeiramente menor do que o estimado pela CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento), o resultado ainda foi muito positivo para o Brasil. “Com exceção de perdas pontuais, a safra foi cheia. Isso significa que, com o real desvalorizado e prêmios em alta devido à continuidade da Guerra Comercial, haverá bastante soja para ser vendida a preços bons”, comenta Tarso Veloso.

Tarso Veloso, Analista da ARC Mercosul.

Caso um acordo seja feito entre EUA e China, a tendência é que os chineses realmente priorizem compras nos EUA, o que pode reduzir embarques do Brasil e elevar os estoques internos, afetando os preços. “Por outro lado, a possibilidade de um acordo se demonstra em stand by com os dois países se afastando da mesa de negociações e ampliando o volume de tarifas de produtos que serão tributados”, comenta o analista.

Outro ponto importante está relacionado com o governo brasileiro. Com os problemas políticos do país, os investidores estrangeiros têm retirado dinheiro do Brasil. “Consequentemente isso vem ajudando o preço das commodities no mercado interno. Atualmente o mercado está muito aquecido e com ofertas de preços em franca ascensão no Brasil. O produtor deve acompanhar o preço na sua região e conversar com seu consultor para definir o melhor momento de trava baseado em armazenagem, despesas vencendo entre outros pontos”, recomenda Veloso.

Para o analista, no curto prazo, o principal impacto no Brasil será concentrado no mercado de milho. “As cotações já começaram a subir fortemente na B3 e o ritmo de exportações de milho neste ano é 485% maior do que no mesmo período do ano passado. Mesmo com uma safrinha recorde, a alta demanda para o grão brasileiro vai manter o mercado sustentado. Na soja, a desvalorização do real somada à alta dos prêmios vai continuar valorizando a oleaginosa”, conclui Tarso Veloso.


Análise de Dan Basse, Presidente do Grupo AgResource (ARC).

O plantio americano

MILHO – 49% plantado.
SOJA – 19% plantado.
Emergência do milho – 19% (contra 47% do ano passado e 49% na média de 5 anos).

Expectativa da marcha de plantio para o dia 28 de maio:
59% no milho e 32% na soja.

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Lucas Jacinto – Jornalista, Diretor de Comunicação da Ag.In e Consultor de Marketing de Conteúdo.  

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