Deu “bug”: um pequeno recorte dos desafios da agricultura 4.0 no Brasil

De acordo com o 2º Censo Agtech Startups Brasil, realizado em 2018 pela AgTechGarage, existem hoje 184 empresas com foco total em soluções tecnológicas inovadoras no agronegócio. Dessas, quase 50% estão localizadas no estado de São Paulo. Mesmo distante das principais regiões produtoras de grãos do país, os negócios não param de crescer. Nos últimos dois anos, além do aumento no número de startups do segmento, a escalabilidade e o investimento em melhorias se intensificaram.

Ainda segundo o documento, apesar de 49% das AgTechs estarem atualmente em fase de validação, ao menos 18% cresceram 100% no último ano. O levantamento também aponta que 14% dessas empresas passaram por processos de aceleração e 16% receberam investimento anjo. 

Para suportar o produtor rural, cliente final de quase 70% dessas empresas, a visão disruptiva se demonstra uma característica importante – 46% das AgTechs consideram que suas soluções são de altíssimo nível disruptivo. A maioria dessas inovações estão focadas em quatro demandas do setor: o suporte para decisão, IoT & hardware, gestão agrícola e agricultura de precisão

O Censo da AgTechGarage revela que das 184 novas tecnologias apresentadas ao mercado, a maioria (42%) é considerada de receptividade intermediária por parte dos agricultores. Isso pode ser um reflexo da relação entre o uso dessas ferramentas e a disponibilidade de conectividade nas fazendas brasileiras – 54% delas precisam de internet para funcionar. Por esse motivo, 32% das startups alegam que depender de boa conexão nas lavouras impede o crescimento de seus negócios. 

Caso a caso 

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Buscando entender qual é a aderência dessas tecnologias e como o produtor rural está se adaptando a essa tsunami de inovação, o YouAgro ouviu pessoas que estão participando da transformação digital na agricultura brasileira. Agricultores, pecuaristas e técnicos que utilizam diferentes ferramentas digitais contaram sobre as dificuldades para obter resultado com algumas tecnologias.

Ainda não somos 4.0

Maurício Tayacol, engenheiro agrônomo pós-graduado em manejo de solo, teve seu primeiro contato com agricultura digital em 2005. Hoje ele trabalha com agricultura de precisão atendendo 60.000 ha no sudoeste de Goiás. Para Taycol, os processos digitais estão se tornando cada vez mais populares no agro mesmo enfrentando algumas barreiras. 

O técnico afirma que o maior valor que os agricultores enxergam em novas ferramentas é a geração de dados para tomada de decisão.

“O agricultor inovador, dinâmico, nos procura para atender a falta de informação. Isso acontece porque ele visualizou manchas em seus talhões, comprou máquinas pré-dispostas com taxa variável e quer aproveita-las da melhor maneira possível ou até mesmo porque seu vizinho recomendou”, conta. 

Mas para que tudo possa ser realmente utilizado de forma eficiente, Taycol aponta um desafio.

“O Brasil não vive uma agricultura 4.0 pois a maioria das propriedades rurais não possui internet. Quando há conexão, a velocidade é baixa, dificultando o processo”, aponta o agrônomo. 

Mesmo com todos os benefícios que as inovações trazem, na visão do profissional,

“hoje é impossível se aplicar todas as tecnologias digitais disponíveis, pois cada agricultor tem um perfil e necessidades diferentes. A introdução de tecnologias tem que ser gradativa”, conclui.

Mais rápido do que o conhecimento 

O engenheiro agrônomo Gustavo Mansur é produtor de milho, soja, algodão, trigo e feijão na região de Uberaba (MG). O agricultor acredita que conhecimento e vivência pesam muito.

“Acho que nada substitui a vivência na agricultura. Cada ano é diferente, temos interferência do clima constantemente”, comenta. 

Por valorizar o conhecimento, Mansur aponta que a chegada de novas tecnologias no campo deveria ser acompanhada de uma extensão melhor. “Isso impacta na falta de mão de obra qualificada”, ressalta. 

Mansur se recorda de uma situação que viveu há três anos, quando adquiriu um pulverizador com tecnologia digital embarcada e não conseguiu operar.

“A máquina não pulverizava. Vieram os técnicos da fábrica, da revenda. Mandaram mecânicos e nada. Demorou 30 dias para resolver o problema”.

O conhecimento sobre a máquina, que na época completava dois anos de inserção no mercado, ainda não havia sido assimilado. “Por isso acredito que a tecnologia está andando mais rápido do que os extensionistas”, reforça.

Mesmo com algumas experiências ruins, Mansur não desanimou. “Nós monitoramos o plantio por GPS e contagem de sementes. Na aplicação de defensivo, utilizamos piloto automático e controle de vazão, o que gera economia. Durante a colheita temos sensores de perdas de grãos que nos auxiliam no controle da velocidade da colheita, ajudando a deixar tudo regulado para evitar perdas”, conta o agricultor.

Na opinião do produtor, nos últimos anos a agricultura digital já melhorou muito. “Sempre tem o que melhorar, mas agora os operadores já estão com maior facilidade. Quando chega algo novo não é mais tanta novidade. Ninguém vê como ‘bicho-papão’”, encerra.

Precisamos integrar

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No último dia 3, Délio Heydt, produtor rural que já atuou com produção de grãos, gado de corte e gado leiteiro, fez uma publicação que chamou atenção no linekdin. O post “Startup pelo olhar do produtor rural” diz o seguinte:

“Muitos produtores rurais utilizam lápis e papel ou planilha de Excel para suprir suas necessidades, principalmente por dois motivos – suas necessidades (…) não são supridas pelos softwares, e o modelo de venda e disseminação das ‘Agro Tech’ não atingem massivamente os produtores rurais”. 

Em entrevista, Heydt comenta que a indústria tem uma rede de atendimento bem definida, com um quadro de técnicos nos diversos segmentos agropecuários. “Eles visitam os produtores rurais para troca de informações e experiência, na busca contínua da qualidade e produtividade. Este modelo gera sucesso”, explica.

O pecuarista considera que o motivo para muitas fazendas deixarem de lado os softwares é a distância entre startups e as dificuldades do produtor. “Não atenderam uma gestão integrada. Dessa forma, precisamos repetir lançamentos e não temos informações compiladas. É difícil analisar relatórios incompletos”, comenta o produtor rural.

Na prática, para Délio Heydt o Excel acaba retornando como uma ferramenta útil, porque ali ele “consegue lançar todas as informações e criar a interação de fatores”. “Um exemplo é a ordenha digital. Os dados vão para um software específico, mas não interage com ferramentas gerenciais. Em casos de drone para mapeamentos encontramos o mesmo problema – as informações vão para sistemas dos tratores e os mesmos realizam operações conforme a necessidade e novamente as informações não interagem com sistema gerencial”, relata.

Ainda sobre os softwares e suas funções, Heydt ressalta que as ferramentas precisam seguir a dinâmica do produtor rural, que realiza muitas tarefas ao mesmo tempo. “Por menor que seja a propriedade, ela é muito plural”, conclui.

Lucas Jacinto, integrante da nova escola do Jornalismo Agro. Diretor de Comunicação e Consultor de Marketing de Conteúdo da Ag.In. 

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