Deu bug: transparência é o futuro da sustentabilidade no agro 4.0?

As inovações são parte marcante da agricultura brasileira. Hoje vivemos mais um momento de transição nesse mercado, não só pelas novas gerações inseridas diretamente nas tomadas de decisão no setor, mas pela nova leva tecnológica que vem sendo desenvolvida e aplicada no campo.

O Agro 4.0 é em parte resultado das novas possibilidades apresentadas pelas agtechs, startups que desenvolvem soluções votadas para o agronegócio. Além da otimização de recursos, precisão nas operações e mobilidade no acesso e gerenciamento de grande volume de dados no campo, podemos vislumbrar que, em breve, a sustentabilidade do setor também será impactada positivamente.

Para entender melhor sobre o assunto, o YouAgro conversou com Guilherme Raucci, Head de Novos Negócios e Sustentabilidade da Agrosmart, agtech que vem se destacando nos últimos anos por meio de seus serviços e modelo de negócio e que hoje integra grupos como o Technology Pioneers do Fórum Econômico Mundial, além de estar posicionada entre as 100 Startups to Watch.

Raucci é engenheiro agrônomo pela ESALQ/USP e Mestre em Ciências pelo CENA/USP. Também é professor convidado de Inovação e Empreendedorismo na FGV (Fundação Getúlio Vargas).

De acordo com Raucci, tão importante quanto ser sustentável, a possibilidade de o setor mostrar isso para a sociedade e mercado internacional por meio de dados concretos também é fruto dessas novas ferramentas. “Acho que a palavra certa para isso é transparência. Poderemos mostrar como é nossa realidade produtiva, quais sãos as diferenças entre os sistemas produtivos e os produtores. Poderemos, inclusive, direcionar políticas públicas para cada um desses segmentos”, explica o especialista.

Raucci comenta que hoje podemos olhar tudo no detalhe quando falamos em agricultura. “Temos nas mãos as ferramentas, as bases de dados, IOT (internet of things), e a gente tem que começar a criar iniciativas em cima disso para valorizar nossos produtos. Os sensores que coletam e mapeiam o que acontece na lavoura prestando serviço ao agricultor e o blockchain para garantir a rastreabilidade, nos permitem isso”, ressalta.  

Confiram a entrevista com Guilherme Raucci.

Como o Brasil enxerga a sustentabilidade hoje?

Muitas vezes falamos da sustentabilidade do agronegócio como uma coisa isolada – como se cada setor tivesse a sua própria maneira de ser sustentável, quando na realidade, a sustentabilidade de várias cadeias começa no agro. A prova disso é a tendência do mercado em falar sobre origem de produto, algo que se conecta muito com a possibilidade de rastreabilidade, com o interesse de mostrar de onde veio aquele produto.

Isso está na agenda de empresas do setor alimentício, de bebidas, da indústria têxtil – indústria da moda, combustíveis, e setor sucroenergético. E o começo dessa trilha de origem é quase sempre a agricultura. Por isso, a sustentabilidade do agro representa a sustentabilidade de outros setores de forma direta.

Com as novas tecnologias, essa visão pode mudar?

O desafio do agronegócio é que simplesmente mostrar a origem geográfica do produto não é o único ponto importante agora – ou não é mais suficiente. Hoje o consumidor quer saber como aquele alimento foi produzido, quais foram as práticas utilizadas. Se aquela fazenda, em comparação com outras fazendas, está fazendo o melhor trabalho possível dentro daquele contexto ambiental, econômico e social.

De certa forma, o termo sustentabilidade vem se deteriorando. Se tornou parte de um discurso saturado. Nesse sentido podemos imaginar que o futuro desse conceito, pelo menos na agricultura, será substituído pela transparência, muito por conta das infinitas possibilidades de coleta de dados. Com as novas ferramentas eu posso olhar a sustentabilidade em suas diferentes perspectivas e compará-las, para entender se há realmente o equilíbrio entre as características atribuídas ao conceito.

Hoje, do ponto de vista ambiental, conseguimos avaliar como está a preservação do meio ambiente, o uso da terra. Quanto é desmatado para produzir. Como é a utilização de químicos ou de fertilizantes naquela propriedade. Do ponto de vista social, posso me voltar a questão dos trabalhadores, da comunidade, e focar na qualidade de vida. E claro, no ponto de vista econômico é possível avaliar se a atividade desenvolvida é rentável por si só, afinal, dizem que ninguém é verde quando se está no vermelho.  

Padrões de avaliação já são uma realidade por meio dos selos e certificações de sustentabilidade e origem, como Rainforest Alliance, Fairtrade, Bonsucro, RTRS, e inclusive iniciativas como o Programa 3S da Cargill. Mas por conta de indicadores que nem sempre estão ligados a dados ou a monitoramentos imparciais, existe uma margem para divergências subjetivas e casos onde práticas de um determinado selo entram em conflito com as de outro.

O ideal seria ter uma base de dados única, onde o agricultor pudesse compartilhar apenas as informações que cada comprador necessita, seguindo um melhor alinhamento entre os critérios que precisam ser atendidos. Por isso, a sustentabilidade como transparência parece ser o melhor caminho.

Como conceber essa transparência a partir de dados?

Quanto mais transparência tivermos do modelo produtivo do agricultor, melhor é para a sociedade. Mas para isso, é preciso que essa transparência seja acompanhada de um contexto. É preciso entender a região onde está o agricultor, a cultura, a produtividade, e como todos os demais produtores daquele quadrante se desenvolvem. Aí podemos obter uma média que deve ser atingida. Assim fica mais fácil enxergar os dados e mais justo para o produtor. Eu não posso comparar café com soja, ou comparar soja do Mato Grosso com soja do Paraná.

O foco dessa transparência deve ser os detalhes de cada propriedade avaliados a partir de uma régua, uma média e o conhecimento sobre as características regionais de onde o alimento é produzido. Essa visão diferente de sustentabilidade vai impactar o consumidor, mas de forma ainda mais construtiva, vai ajudar o setor. Será possível separar agricultores em diferentes níveis – dos mais tecnificados aos menos conectados à inovações tecnológicas por exemplo. Esse conceito pode, inclusive, indicar agricultores que precisam de assistência técnica ou extensão para acompanhar o nível produtivo de sua região.

Como isso pode ajudar o agricultor?

Ferramentas como seguro rural ou acesso ao crédito podem ser facilitadas e otimizadas a partir dessa transparência. Com indicadores tão claros e objetivos, quem estiver na zona de ineficiência em suas atividades terá que melhorar ou acabará sendo excluído dos processos. E é por isso que eu acredito que a utilização de tecnologia deveria ser reconhecida como um diferencial.

Um produtor que investe em tecnologia deveria ter acesso a melhores condições de crédito, a um seguro melhor. É claro que, frente a adversidades climáticas, mesmo adotando tecnologias inovadoras, o agricultor não pode realizar grandes façanhas – não é isso que vai impedir um evento extremo. Mas com essa ferramenta ele poderá se planejar melhor. O uso de tecnologia seria posicionado como uma prática que garante produtividade com minimização de perdas e riscos. Essa discussão é tão relevante que já tem ganhado espaço no congresso.

E como o agricultor pode usar essa transparência dentro da fazenda?

Precisamos ensinar o agricultor a utilizar melhor, tanto os dados que ele gera e as análises que ele recebe dos aplicativos e prestadores de serviço, quanto o conceito de #agromaiscolaborativo. A ideia de uma transparência que vai expor suas fraquezas precisa ser vista como algo que também vai indicar suas fortalezas e sua similaridade com outros agricultores. Mas para isso é preciso compartilhar informação.

Claro que ainda existe esse medo na agricultura em relação ao compartilhamento de dados. Mas as pessoas de todas as esferas da sociedade precisam entender que nossos dados já não são mais nossos. Na agricultura, a única concepção que precisa ser ajustada é que a ideia de compartilhar dados não vai transferir a propriedade intelectual sobre aquele conhecimento gerado dentro de uma fazenda. Até porque, cada propriedade expressa características muito específicas. Cada uma tem seu tipo de solo, seu modelo produtivo e o avanço das tecnologias e técnicas de precisão vão customizar ainda mais a forma com que os recursos são utilizados em cada propriedade.

Nesse cenário, o dado gerado dentro daquele perímetro, na produção daquela cultura, pode beneficiar tanto o detentor do dado, quanto quem está no entorno, o que ajudaria a melhorar sistemas produtivos semelhantes de forma mútua.


O que é preciso para isso acontecer?

Durante a Agrishow 2019, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) lançou o AGRO API.

“A plataforma AgroAPI oferece informações e modelos agropecuários gerados pela Embrapa que podem ser utilizados por empresas, instituições públicas e privadas e startups para a criação de softwares, sistemas web e aplicativos móveis para o setor agropecuário, com redução de custo e de tempo. O acesso aos dados e modelos é realizado de forma virtual por meio de APIs (Interface de Programação de Aplicativos, na tradução do inglês) – um conjunto de padrões e linguagens de programação que permite, de maneira automatizada, a comunicação entre sistemas diferentes de forma ágil e segura”.

A Embrapa tem um repositório gigante de dados de mapa de solo, clima, cultivares desenvolvidas internamente. Todas essas informações estão agora a disposição de quem quiser usar. Eu, como Agrosmart, posso obter um mapa de solo mais detalhado. Posso simplesmente acessar, baixar esse mapa para o meu software e trabalhar com meus algoritmos. Então acho que o primeiro caminho é popularizar as bases de dados já disponíveis.

Temos vários órgãos do governo que coletam informações, mas a maioria delas não estão acessíveis. Se mudarmos o mindset, e passarmos a pensar que a informação que é coletada se torna mais rica quando é compartilhada, aceleraríamos o processo de transparência. E as startups agregariam justamente na parte de análise e no modelo de negócio, viabilizando a chegada dessas informações para o agricultor em forma de serviço.

Os próximos saltos virão a partir do entendimento de que uma ou outra tecnologia não conseguirá atender sozinha a necessidade do agricultor, e muito menos será detentora de todos os dados necessários para isso. O futuro dessa sustentabilidade e transparência estão nas integrações de ferramentas, nas parcerias e numa visão mais ampla das demandas do agricultor, possibilitando inclusive a conexão de uma agtech a um serviço tradicional no mercado, como a extensão rural.

Como uma agtech pode ajudar nesse processo?

Na minha opinião, a startup deve estar aberta a entender que ela está inserida em um ecossistema onde outros players oferecem serviços que ela não oferece. Também é necessário que essa agtech esteja disposta a fazer parcerias, seja com outras startups, ou outras empresas e instituições.

No ponto de vista tecnológico, essas empresas precisam construir sua solução visando o software em formatos que permitam comunicação com outras plataformas. Ou seja, é preciso que os dados coletados e analisados por uma tecnologia se integre facilmente a outras plataformas.

Isso é importante para que o agricultor escolha com qual plataforma ele quer trabalhar. Onde ele quer ver a informação final talvez não seja tão importante, mas a possibilidade dele poder cruzar os dados coletados com outros serviços para obter um insight mais eficiente é o mais importante.

Como Agrosmart, atendemos o principal problema da agricultura 4.0, que era a dificuldade ao coletar dados em tempo real, principalmente por falta de conectividade.

Fomos responsáveis por quebrar a barreira de conectividade, permitindo a coleta de dados sem internet. Mas desde o começo entendemos que a simples coleta de dados, a telemetria por si só, acarretaria em um bombardeio de informações e gráficos que não ajudariam o produtor em nada.

Por isso, criamos um primeiro “insight” que ajudava na irrigação inteligente. A ferramenta indica exatamente quanto de água cada talhão precisa e se precisa. Depois entendemos que com os dados que estávamos coletando, poderíamos gerar outros

insights e produtos, como a previsão do tempo, mapas de distribuição de chuva e o modelo de previsão de doenças.

Nossa visão é de que a coleta de dados no campo vai ficar cada vez mais fácil, seja pela disponibilidade de sensores no campo, ou também pela melhoria na conectividade. Por isso estamos nos especializando em extrair valor de todos esses dados gerados com o uso de ferramentas de inteligência artificial para que a nossa solução ajude o agricultor durante toda a safra. A cada nova solução que trazemos, modelamos para que ela seja de fácil interpretação por parte do produtor e para que realmente cause um impacto na rotina dele, gerando benefícios ambientais, econômicos e sociais.

Para conseguir caminhar nesse sentido, estamos atuando de forma totalmente colaborativa. Hoje nossa ferramenta é aberta para integrações com outras fontes de dados. Assim eu recebo informações de outras fontes também, e posso gerar meus modelos. Nesse contexto, eu também já posso ceder meu dado para que o produtor trabalhe com a solução que ele prefira.

Além disso, estamos sempre entendendo o mercado como algo que engloba o próprio governo. É preciso estar sempre interagindo de alguma forma com a agência de exportação ou ministério da agricultura. Os diálogos são essenciais quando participamos de eventos para falar sobre isso com as empresas – não só com as quais desenvolvemos negócios, mas com todas as demais, para entender a necessidade de cada uma e como colaborar.

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