A estiagem no início de 2019 pode impactar a produtividade de cana-de-açúcar?

Conversamos com especialistas do setor para entender melhor

De acordo com Fabio Ricardo Marin, meteorologista agrícola e docente da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP), o estado de São Paulo passou por uma seca expressiva em janeiro de 2019. “Na média histórica, choveu metade do esperado”, explica o docente. “Logo após uma primavera com boas condições, em dezembro a chuva foi reduzida. Mas janeiro realmente foi ‘zero chuva’ em algumas regiões”, comenta.  

As análises meteorológicas de Marin apontam que a variação da falta de chuvas foi drástica. No mesmo período, enquanto alguns munícipios registraram chuvas na faixa dos 150mm, em outras localidades o volume foi de 12mm. “O volume de chuvas na faixa de 100mm a 150mm é considerado ótimo, enquanto 12mm é muito pouco e indica problemas para o agricultor. O importante é que os impactos recentes não são irreversíveis, e ao longo do ciclo a cultura pode se recuperar”, conclui.

Os impactos

Edgar Beauclair, docente da ESALQ/USP e especialista na cultura da cana-de-açúcar, aponta que, como efeito da seca, “as canas estão começando a reduzir o comprimento”. De acordo com Beauclair, com maior número de internódios de comprimento mais curto, ocorre a diminuição da produtividade. “Isso impacta na capacidade do colmo em armazenar açúcar”, esclarece o especialista.

O 3º levantamento da safra 2018/19 da cana-de-açúcar, divulgado pela CONAB em dezembro de 2018, acompanha a posição do docente. Segundo o documento, a produtividade média estimada para a temporada 2018/19 é de 71.326 kg/ha, valor 1,7% menor do que os 72.543 kg/ha obtidos na safra 2017/18. De acordo com órgão, estão entre as justificativas para essa redução na produtividade, a estiagem e as altas temperaturas nos estados do Centro-Sul – que aceleraram a maturação da cultura, acarretando em baixo crescimento e falta de peso de colmos.

Perspectiva do campo

Na opinião de Michel da Silva Fernandes, consultor de produção agrícola em cana-de-açúcar que atua nas regiões de Ribeirão Preto, Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso do Sul, o estresse hídrico não foi tão severo para o desenvolvimento da cultura.  “Por conta das chuvas de setembro e outubro de 2018, o solo das regiões produtoras estava abastecido”, diz o consultor.

Fernandes aponta que, na realidade, a alta temperatura foi o maior problema nesse período de poucas chuvas. “As temperaturas registradas durante a estiagem atingiram a média de 3,1º a mais do que a média das temperaturas mais altas registradas no ano passado. Nessas condições, a cana para de desenvolver suas funções fisiológicas e passa a trabalhar para não perder água”, explica.

Segundo o engenheiro agrônomo, o impacto da temperatura fica evidente quando avaliamos áreas de diferentes altitudes.

“O efeito da estiagem foi minimizado em lavouras localizadas em altitudes de 800m a 1000m. Isso ocorreu porque a evapotranspiração da cultura da cana em regiões mais altas pode causar perda de 4ml de água por dia, enquanto em regiões mais baixas essa perda é maior – de 6 a 7ml” comenta. Em uma situação com poucas chuvas e calor elevado, “toda perda representa impactos na produtividade”, afirma o consultor.

Produtividade

Acompanhando as precipitações e as previsões para os próximos meses, Fernandes nos traz um panorama da expectativa no campo para áreas que já estão bem desenvolvidas ou que ainda têm tempo para se recuperar. “As canas de primeiro corte, colhidas até abril, e as de final de safra, terão boa produtividade. As canas de agosto, setembro e outubro também”, indica.

Para o consultor, agricultores que adotaram práticas que promovem melhor absorção de nutrientes por parte do solo e melhor desenvolvimento radicular das plantas, vão conseguir atravessar a safra mitigando riscos. “Quando fecharmos o balanço, teremos mais meses positivos do que negativos em relação ao ano passado”, conclui.

Lucas Jacinto, integrante da nova escola do Jornalismo Agro. Diretor de Comunicação e Consultor de Marketing de Conteúdo da Ag.In.

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