O que é a agricultura

Não tenhamos medo, mas estejamos certos de que teremos que nos esforçar mais. Apesar das dificuldades e inseguranças, temos totais condições de produzir alimentos saudáveis de forma mais sustentável para toda a humanidade. No entanto, nós, consumidores de alimentos, teremos que nos dedicar mais para entender melhor os sistemas de produção de alimentos e o que são estes alimentos. Precisamos diferenciar o que é verdade e o que é mentira, distinguir fatos de mitos sobre os alimentos que consumimos diariamente. Este esforço por um melhor entendimento da agricultura em geral é a nossa parte para garantir uma agricultura mais sustentável.

Com as informações corretas, poderemos exigir dos agricultores e de toda a cadeia de produção de alimentos que façam mais para tornar a agricultura mais sustentável e os alimentos mais saudáveis. Como os clientes têm o poder de escolha, os consumidores, munidos de conhecimento, têm o poder de direcionar a forma de produção e o tipo de alimentos que queiram. E a cadeia de produção, como fornecedora, precisa se ajustar a estas demandas para sobreviver.

Na verdade, o consumidor e o produtor ou fornecedor de alimentos já foram a mesma pessoa há mais de 10 mil anos. Com o surgimento da agricultura, a produção de alimentos tem sido transferida do consumidor para o agricultor e, cada vez mais, as pessoas têm confiado sua alimentação nas mãos do profissional do campo.

Este processo vem ocorrendo por milênios e se acelera com cada nova revolução na agricultura, a qual viabiliza um aumento de produtividade ou maior eficiência na produção de alimentos, oferece condições para que mais pessoas deixem de produzir seu próprio alimento e mudem para as cidades ou encontrem outra profissão. Esta tendência irá continuar e, cada vez mais, a humanidade irá depender de um número menor de pessoas para produzir os alimentos.

O consumidor distante da produção de alimentos

Por outro lado, este distanciamento cada vez maior entre o consumidor e a produção de alimentos tem feito com que as pessoas percam o conhecimento de como os alimentos são produzidos. Neste sentido, os consumidores se tornaram alheios aos desafios e ameaças que os produtores precisam enfrentar diariamente para levar comida ao prato de todos. Com isto, mitos e falsidades sobre a produção ou características dos alimentos são propagados facilmente através de redes ou mídias sociais e, além disso, poucas pessoas têm acesso à informação correta.

No entanto, tanto a produção de alimentos continuará sendo um grande desafio e precisará transformar-se em algo mais sustentável, como os consumidores precisarão conhecer melhor como a agricultura funciona. Primeiro, consumidores precisam entender como foi a evolução da agricultura desde seu início, passando pelos desafios de alimentar uma humanidade sempre crescente e com menos pessoas dedicadas à produção de alimentos. Segundo, eles também precisam saber que o futuro da alimentação humana deve ser baseado na sustentabilidade econômica, social e ambiental ou não teremos alimentos para todos e nem o próprio planeta como o conhecemos. Essa é a parte da sustentabilidade.

Tenho certeza de que a cadeia de produção de alimentos – dos agricultores até as empresas fornecedoras de insumos e máquinas, passando por cooperativas e tradings – estará disposta a atender a esta demanda da melhor forma possível.

Assim, vamos iniciar com a agricultura, ou seja, com o processo de produção de alimentos que vem ocorrendo nos últimos 10 mil anos e que, cada vez mais, é essencial para a existência da humanidade. Aliás, aqui, uso a palavra agricultura para designar a produção de alimentos em geral, incluindo a pecuária e a agropecuária. A agricultura surgiu como uma alternativa mais fácil e eficiente para o fornecimento de alimentos do que o sistema de caça-pesca-coleta vigente até então. No entanto, a agricultura não é um processo sem desafios ou problemas.

O mundo VUCA

À medida que mais e mais pessoas dependem dela para a alimentação e que a humanidade continua crescendo, a agricultura enfrenta desafios ainda maiores e mais complexos. E este mundo do processo de produção de alimentos tornou-se um mundo VUCA, (abreviação do inglês, Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity) com a volatilidade dos mercados, incertezas do clima, complexidade das leis e ambiguidade das informações. Como estes e outros fatores que impactam o dia a dia na agricultura não são controláveis ou até mesmo passíveis de serem previstos, o agricultor precisa se proteger ao máximo dos seus efeitos. Entre os mecanismos utilizados para diminuir os impactos do mundo VUCA estão o capital e a tecnologia.

O capital é a principal preocupação da maioria dos produtores rurais, incluindo desde opções e disponibilidade de financiamento, até as decisões de investimento e a capacidade de pagamento do financiamento ou retorno do investimento para a sustentabilidade da propriedade. O termo “capital” refere-se à capacidade de o agricultor direta ou indiretamente acessar recursos financeiros para financiar suas atividades agrícolas. Ou seja, refere-se a recursos financeiros para custear as máquinas e equipamentos, adubação, correção e manejo do solo, insumos como sementes e defensivos agrícolas, armazenamento e logística.

Capital e tecnologias

Tudo isto assumindo que as terras que o agricultor está utilizando são próprias. Caso contrário, o produtor de alimentos precisa de recursos para arrendar as terras também. Além disso, existe o custo da mão de obra, assistência técnica e o custo de oportunidade do próprio agricultor e de sua família. Isto porque, em alguns casos, o agricultor não possui um fluxo de caixa mensal devido à característica de sua atividade.

Além do capital, o agricultor utiliza tecnologias para minimizar ou manejar melhor os impactos do mundo VUCA em sua propriedade. As inovações tecnológicas incluem máquinas impulsionadas pelo motor de combustão, o melhoramento vegetal e animal, irrigação, fertilizantes e defensivos agrícolas, biotecnologia e agricultura de precisão, entre outras tecnologias. No entanto, à medida que a agricultura se torna mais moderna e melhora a eficiência na produção de alimentos, ela também causa impactos negativos na sustentabilidade econômica, social e ambiental. Ainda que a agricultura tenha produzido alimentos o suficiente para alimentar toda a humanidade, alguns dos impactos desta produção podem colocar o futuro da humanidade e do planeta em risco.

Desta forma, dizemos que a quantidade de alimentos produzida representa o prato meio cheio e os impactos negativos na humanidade e no planeta representam o prato meio vazio. Para alimentar mais pessoas ainda nas próximas décadas, teremos que preencher este prato meio vazio com uma alimentação mais saudável e uma agricultura mais sustentável. Caso contrário, o prato meio vazio irá se tornar um prato completamente vazio.

Por fim, para reorientar a cadeia de produção de alimentos para uma agricultura mais sustentável, o consumidor precisa assumir a responsabilidade de conhecer e decidir quais sistemas, tecnologias e alimentos ele e ela querem ou aceitam para alimentar a humanidade. Neste sentido, pelas conquistas (prato meio cheio) e pelos desafios (prato meio vazio), a cadeia de produção de alimentos precisa de novas alternativas desenvolvidas a partir das tecnologias e sistemas que temos criado até agora.

Precisamos mudar o sistema de produção de alimentos, mas o consumidor não pode se enganar, pois não existe apenas uma solução. As alternativas devem incluir as conquistas que tivemos até aqui, mas aperfeiçoá-las para que tenham menos impactos negativos na propriedade rural, nas comunidades e no planeta

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.