Você realmente quer tornar a produção de alimentos mais sustentável?

Precisamos lembrar que a maior parte da população mundial tem como objetivo diário simplesmente saciar a fome.  Apesar disso, quatro em cada 10 indivíduos deste planeta não se alimentam direito. Ou passam fome ou sofrem de algum tipo de deficiência nutricional ou não se alimentam direito resultando em nanismo ou obesidade, por exemplo.

Assim, a cadeia de produção de alimentos tem o nobre objetivo de alimentar a humanidade. Em termos mais práticos, agricultura e pecuária devem produzir alimentos para 7.7 bilhões de pessoas. No entanto, o desafio não para na quantidade de alimentos. Cada vez mais os consumidores querem alimentos de melhor qualidade.

Como a população não para de crescer e as exigências por alimentos de melhor qualidade não param de aumentar, a cadeia de produção precisa continuar inovando sempre. Para isto, agricultores, cientistas, agrônomos e empresas desenvolvem continuamente novas tecnologias e formas de produção de alimentos.

A oferta não atende à demanda em quantidade e qualidade

A agricultura e pecuária ocorre em diversas condições. As vezes o produtor rural tem acesso ao capital, ou seja, recursos financeiros, tecnologias e informações e consegue otimizar a utilização de seus recursos e dos recursos da natureza como água, luz e solos. Por outro lado, a grande maioria dos produtores rurais não possuem acesso ao capital e, assim, raramente conseguem adquirir tecnologias e informações. Essas propriedades rurais com pouca utilização de tecnologias e informações são as menos eficientes. Ou produzem pouco com relação ao tamanho da terra ou produzem de forma inapropriada.

Em resumo, temos um cenário de desequilíbrio entre oferta e demanda de alimentos. Em um lado da mesa, existe uma alta e contínua demanda por mais alimentos e com melhor qualidade. Do outro lado, a maior parte das propriedades rurais não tem condições de produzir alimentos da melhor forma possível. Isto quer dizer, utilizando as tecnologias e sistemas de produção mais avançados e mais eficientes. Assim, os agricultores não conseguem cultivar a terra e fazer o manejo das culturas de uma forma mais sustentável.

A contribuição do consumidor de alimentos

A alternativa para melhorar o acesso dessas propriedades rurais á tecnologias e informações é o aumento de renda do agricultor. E para isto, os consumidores deveriam pagar mais pelos alimentos. Além disso, os agricultores, principalmente com pequenas e médias propriedades, precisam se organizar em associações ou cooperativas para poder melhorar as opções de compra de insumos e venda de produtos agrícolas. Com essas associações e cooperativas, os produtores rurais têm mais acesso ao mercado consumidor final e, assim, conseguem obter melhores lucros em suas vendas.

Neste sentido, os consumidores devem estar dispostos a pagar um preço mais caro pelos alimentos provenientes destes pequenos e médios agricultores. Os consumidores também precisam aceitar os produtos agrícolas provenientes de propriedades rurais, associações e cooperativas que não possuem certificações caras e complexas.

A situação financeira de uma propriedade rural é tão importante para tornar a agricultura mais sustentável como a situação ambiental ou social. Isto porque a transformação da agricultura depende de três pilares da sustentabilidade:

  • A sustentabilidade econômica de uma propriedade rural
  • A sustentabilidade social de uma comunidade rural
  • A sustentabilidade ambiental do planeta

Em outra oportunidade vamos falar com mais detalhes sobre a sustentabilidade social e ambiental. Hoje, vamos focar no primeiro pilar do tripe da sustentabilidade, o econômico.

A sustentabilidade econômica de uma propriedade é o primeiro pilar porque sem uma renda financeira, as famílias não conseguem sobreviver somente da agricultura e pecuária. Se o produtor rural não tem condições de manter a propriedade rural, essa será adquirida por outro proprietário com mais recursos. Portanto, sem renda financeira suficiente, não tem como falar de sustentabilidade com um produtor rural.

A sustentabilidade econômica de uma propriedade rural

A sustentabilidade econômica de uma propriedade é crítica para que os filhos dos agricultores atuais tenham a oportunidade de viver plenamente na mesma propriedade, podendo criar seus filhos e outros membros das futuras gerações, se assim desejarem. Isso significa que a propriedade deve oferecer as condições básicas para que os proprietários atuais e seus filhos possam satisfazer suas necessidades como alimentos, água, abrigo e segurança.

Além disso, a propriedade deve gerar renda financeira o suficiente para fornecer acesso a educação, saúde e a condições de satisfação pessoal, como convívio social, desenvolvimento pessoal e profissional. Dependendo do tamanho operacional da propriedade, ela precisa satisfazer as necessidades acima citadas dos funcionários que nela vivem e/ou trabalham também.

Desta forma, seja a propriedade pequena, média ou grande, ela precisa crescer, otimizar seus recursos e melhorar a eficiência, independentemente da corrente ideológica que o próprio agricultor defenda. A falta de entendimento deste fato faz com que milhares de produtores rurais percam suas propriedades anualmente no mundo. Assim, a busca pela sustentabilidade econômica de uma propriedade é a base para uma agricultura sustentável, sem vieses ideológicos.

No entanto, a agricultura moderna baseada no capital e tecnologias tem causado vários impactos na sustentabilidade econômica de uma propriedade rural, podendo incluir aumento da produtividade e produção, aumento do tamanho da propriedade, intensificação do uso de tecnologias, redução e especialização da mão de obra, redução no preço das commodities pagos aos produtores rurais e, por fim, aumento da concentração de renda no campo.  Acredito que estes três tópicos, aumento da produtividade e produção, redução de preços e concentração de renda no campo, estão entre os impactos mais marcantes da agricultura moderna na sobrevivência de uma propriedade rural.

Existem várias opções para aumentar a renda de uma propriedade rural além do aumento dos preços pagos pelas comodities produzidas pelo agricultor. Entre essas opções estão mudanças nas áreas tributárias, diferenciando alimentos produzidos de forma mais sustentável dos alimentos produzidos sem cuidados com o meio ambiente, por exemplo. Empresas ou agricultores poderiam receber incentivos para pesquisar e desenvolver outras formas de produção de alimentos. Enfim, podemos listar várias opções aqui, mas vamos deixar isto para um outro post.

A mensagem principal para hoje é que os consumidores devem aceitar uma parcela de responsabilidade para tornar maior a renda rural e, assim, fazer com que propriedades rurais pequenas e médias continuem a existir para as próximas gerações. Ou seja, os consumidores possuem um papel crítico para tornar essas propriedades rurais mais sustentáveis.

As empresas que atuam no mercado comprando e vendendo produtos agrícolas não tem interesse de pagar um valor maios por esses produtos sem que os mesmos tenham um diferencial verificado por certificadoras. Assim, somente com os consumidores conscientes e dispostos a pagar mais, que empresas, agricultores ou cooperativas de agricultores podem cobrar a mais.

Mais informações sobre os impactos do acesso aos meios de produção na sustentabilidade econômica de propriedades rurais podem ser encontrados no livro já citado neste texto e sites da Embrapa, FAO, The Nature Conservancy, OECD e diversas fontes de fundações, instituições e ONGs que buscam melhorar a renda dos produtores rurais.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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