Soluções para aumentar a produção de alimentos com menos água, o sangue do planeta

O sangue é responsável por levar oxigênio e nutrientes, entre outros componentes, para todas as células dos seres vivos superiores. A manutenção da qualidade e fluidez do sangue garante recursos essenciais para todos os órgãos e partes do corpo de um ser humano, por exemplo.

A água tem a mesma responsabilidade para a vida no planeta Terra. Ela distribui recursos preciosos para todos os seres vivos direta e indiretamente. Transporta nutrientes por rios e alimenta os solos para a agricultura e pecuária. Por sua vez, rios, lagos e oceanos são a casa para grande parte da vida na Terra. Além disso, eles também asseguram o ciclo da água que faz chover e que torna a produção de alimentos possível. Assim, a manutenção da qualidade e fluidez da água garante a nossa própria existência.

Historicamente, a produção de alimentos seguiu as estações das chuvas. Em torno de 10 mil anos atras, a humanidade desenvolveu a agricultura com o entendimento de como as plantas se reproduziam e como as sementes eram a chave para a multiplicação dos alimentos. No entanto, esta descoberta não teria mudado o curso da história se o plantio das sementes e o crescimento das plantas não fossem acompanhados das chuvas. Assim, a agricultura foi altamente dependente de chuvas e isto limitou a expansão da produção de alimentos e o crescimento e desenvolvimento da humanidade.

O aumento da produção de alimentos depende da disponibilidade de água

Com a necessidade de aumentar a produção de alimentos, agricultores, agrônomos, técnicos e cientistas desenvolveram novos sistemas e equipamentos para “criar” chuvas. Sistemas de irrigação surgiram com os sistemas hidráulicos de transporte de água de rios, lagos, fontes, montanhas e poços para áreas de cultivos. Isso ocorreu há três mil anos, incialmente nas Américas e Egito e, depois, no Sudeste Asiático e Europa.

Estes sistemas primários de irrigação evoluíram com o desenvolvimento de equipamentos mais sofisticados e a incorporação da energia elétrica aos sistemas de produção de alimentos. A combinação de inovação tecnológica e necessidade de aumento de produção de alimentos resultou em um alto consumo de água pela agropecuária, em torno de 70% da água utilizada em atividades humanas.

No mundo, segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), mais de 1,5 bilhão de hectares são utilizados para agricultura, dos quais 300 milhões de hectares são irrigados. No entanto, estes 20% de terras irrigadas são responsáveis por em torno de 40% da produção global de alimentos. Ou seja, a irrigação dobra a produtividade de alimentos resultando em uma menor necessidade de desmatamento de novas áreas para alimentar a humanidade. O Brasil é uma exceção entre os grandes produtores mundiais de alimentos já que produz apenas 4% dos alimentos com o uso de irrigação. Isto deve-se a excelente disponibilidade de água das chuvas e a opção de produzir duas ou três safras em muitas regiões brasileiras.

No entanto, as técnicas e sistemas de irrigação possuem três grandes desafios. O primeiro é que a maior parte destes sistemas de irrigação não são eficientes, fazendo com que a maior parte da água seja desperdiçada. O segundo é o volume de uso de água destinado a agricultura que pode começar a comprometer a disponibilidade de água para uso humano e irrigação em diversos lugares. E o terceiro problema é o nível de investimento inicial e manutenção que compromete a expansão deste sistema especialmente entre pequenos ou médios agricultores.

A inovação tecnológica ajuda a alimentar a humanidade de forma mais sustentável

Por isso, nas últimas décadas, a cadeia de produção de alimentos tem buscado e desenvolvido alternativas para aumentar a eficiência no uso da água. Entre os principais avanços tecnológicos estão a automação e o uso inteligente dos sistemas de irrigação tradicionais como por gotejamento e aspersão. O sistema de gotejamento libera água diretamente na planta e o de aspersão funciona como uma chuva.

A novidade neste caso é justamente tornar esses sistemas mais inteligentes através do uso de sensores remotos, internet das coisas, modelos matemáticos, ciências dos dados, imagens de drones e satélites, entre outros.

  • Sensores em raízes das plantas para determinar a necessidade de irrigação. Os sensores imitam os processos fisiológicos das plantas e estão conectados aos sistemas de irrigação.
  • Satélites para monitorar as condições de umidade do solo, da atmosfera e das plantas indicam a necessidade e a quantidade de irrigação necessária para as culturas. Estes sistemas utilizam imagens de satélites ou drones, dados meteorológicos e dados de produtividade.  
  • Prescrições com taxa variável de irrigação de acordo com temperatura, luz solar e humidade do solo e do ar liberam água na medida exata. Quanto maior a disponibilidade de informações e mais sofisticado os modelos matemáticos, melhor a precisão na liberação de água e menor o desperdício.

Além do avanço em inovações tecnológicas como as citadas acima, também temos visto uma grande evolução nos sistemas de produção para conservação de água. Entre esses estão o plantio direto, sistema de integração lavoura, pecuária e floresta e o de rotação de culturas. Eventualmente faremos um post exclusivo para esses sistemas.

O papel dos consumidores no uso mais eficiente da água

Quanto a nós, consumidores em geral, precisamos incentivar os produtores e empresas que comercializam ou desenvolvem produtos e serviços a aumentar a eficiência no uso da água na agricultura. Isso pode ocorrer tanto em investimentos nestas iniciativas ou startups como na preferência por produtos oriundos de produção com um “selo de conservação” de água. Da mesma forma, podemos restringir ou limitar o consumo de produtos oriundos de sistemas de produção que não possuem iniciativa alguma de conservação de água na agricultura. Enfim, apesar de nós, a maioria dos consumidores, não sermos produtores de nossos próprios alimentos, podemos influenciar e muito a cadeia de produção de alimentos no sentido de agir mais conscientemente com relação ao uso de água.

Mais informações sobre tecnologias para aumentar a eficiência no uso da água em irrigação podem ser encontrados nos sites da Embrapa, USDA, ONU e diversas fontes de Israel, que hoje é um dos líderes mundiais em inovação tecnológica para irrigação.

Caso tenha mais exemplos de como tecnologias, sistemas e equipamentos podem tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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