Mesmo com o desenvolvimento de técnicas e ferramentas para um uso mais racional dos insumos agrícolas, muitos consumidores e agricultores procuram por mudanças mais radicais no sistema de produção de alimentos.

Desta forma, os adeptos de novos sistemas de produção de alimentos, conhecidos como sistemas alternativos ao sistema convencional, acreditam que a melhor forma de produção de alimentos é por meio de um sistema que modifique ou cause o mínimo de impacto possível no meio ambiente. Esses agricultores são influenciados também pelos desafios de adotar os pilares das práticas mais sustentáveis, que exigem que estes conheçam muito bem as pragas, os produtos e a interação destes com o meio ambiente. Devido a esta complexidade, o agricultor, muitas vezes, prefere ou é obrigado a simplesmente calendarizar as aplicações de defensivos agrícolas.

Estes desafios fazem com que, muitas vezes, os alimentos continuem chegando contaminados para o consumidor final, o meio ambiente continue sofrendo consequências de uso inadequado e os trabalhadores rurais se contaminem ao manusear os defensivos químicos em excesso. Assim, surgem sistemas como a agricultura orgânica, agricultura ecológica, agricultura natural, agricultura biodinâmica e permacultura. Além destes sistemas, surgiu também   o sistema agrossilvipastoril que possui grande potencial de produção mais sustentável de alimentos.

Agricultura orgânica

A agricultura orgânica é orientada por princípios gerais como maior integração entre os sistemas de produção de alimentos e os sistemas naturais ou transformar a cadeia de produção mais socialmente justa e ecologicamente responsável. No entanto, na prática, uma propriedade orgânica é assim definida quando a mesma recebe um certificado de produção orgânica dado por uma certificadora ou instituição responsável por definir as regras e fiscalizar o sistema de produção. Estas regras podem mudar em detalhes de uma instituição para outra, mas elas limitam em geral o uso de insumos externos, principalmente fertilizantes e defensivos químicos, organismos geneticamente modificados e antibióticos e hormônios.

A produção orgânica ocupa apenas 1% da área total destinada à produção de alimentos no mundo. Por sua popularidade e proposta de valor bem- definida, a agricultura orgânica se apresenta como possibilidade de uma agricultura mais sustentável em geral. Os processos de produção adotados neste tipo de agricultura são acessíveis a pequenos e médios produtores, mas têm sido muito utilizados e explorados comercialmente por grandes agricultores e grupos empresariais em vários elos da cadeia de produção de alimentos.

A busca pelo aumento da produção orgânica deve-se em parte à sua contribuição para a sustentabilidade ambiental. Por exemplo, no caso de emissões de gases efeito estufa, a agricultura orgânica pode contribuir para a redução por diminuir o revolvimento do solo. No entanto, grande parte da produção de soja e milho no Brasil, por exemplo, é feita no plantio direto, independentemente de ser convencional ou orgânica. Neste sentido, a diferença entre ambos os sistemas é menor.

Agricultura ecológica

A agricultura ecológica tem como objetivo a produção de alimentos com o mínimo impacto possível no meio ambiente. Na agricultura ecológica, o produtor rural busca minimizar o uso de insumos externos como fertilizantes e não eliminar seu uso, como é o objetivo da agricultura orgânica. Já a agricultura natural é mais “radical” ainda do que a agricultura orgânica, por buscar a produção de alimentos dentro da própria natureza. Neste caso, o agricultor não só elimina o uso dos insumos químicos como fertilizantes e defensivos, mas também a compostagem orgânica e algumas práticas mecânicas como revolvimento do solo e remoção da vegetação natural.

Agricultura biodinâmica

No caso da agricultura biodinâmica, o produtor rural busca a aproximação com as condições mais favoráveis do meio ambiente, extraindo ferramentas para a produção de alimentos daquilo que a natureza oferece. Por exemplo, o agricultor busca nos extratos vegetais que a vegetação nativa oferece, como inseticidas naturais para o controle de pragas, ou busca plantas com potencial de inibir o crescimento de plantas daninhas na sua lavoura ou repelir as populações de insetos- pragas. Por fim, a permacultura busca a produção de alimentos, combinando a produção de plantas perenes com plantas anuais e animais.

Agrossilvipastoril

Já o sistema agrossilvipastoril abrange características ainda mais complexas, pois procura integrar todas as formas de produção agrícolas em um mesmo sistema. Desta forma, com o objetivo de integrar a maioria destas técnicas e mecanismos, a Embrapa tem desenvolvido e aprimorado vários sistemas de integração lavoura, pecuária e florestas (ILPF) ou sistemas variantes, por exemplo, integrando somente lavoura e pecuária (ILP).

Nestes sistemas, os produtores rurais buscam na mesma área realizar cultivos consorciados, rotação de culturas ou sequência, para alcançar sinergias entre os sistemas. Assim como o plantio direto, os sistemas ILPF trazem inúmeros benefícios para a propriedade, a comunidade e o meio ambiente em geral. Entre estes benefícios estão o aumento da conservação de solo e água, refúgio para polinizadores e inimigos naturais, reciclagem de nutrientes, redução de emissão de gases de efeito estufa, entre outros. Os benefícios econômicos podem ser diretos, com a diversificação de produtos da propriedade, ou indiretos, com a economia do carbono.

Os sistemas de integração lavoura, pecuária e floresta já atingiram 11,5 milhões de hectares em 2016 e a expectativa é de contínuo aumento para as próximas décadas. Isso pensando não somente no aumento da produção sustentável de alimentos, mas também na recuperação de áreas degradadas. O Brasil possui em torno de 180 milhões de hectares de pastagens, sendo que a metade desta área está com algum nível de degradação do solo. Ou seja, entre 80 e 100 milhões de hectares de terras poderiam ser incorporados à agricultura sem que houvesse a necessidade de desmatar florestas.

Foto: Rafael Rocha

Essas áreas são hoje subutilizadas ou não utilizadas, mas sem vegetação nativa. Isto sem falar do potencial de terras de pastagens de baixa produtividade, que tendem a se tornar disponíveis para a agricultura, visto que o Brasil está em uma tendência crescente de aumento da produtividade pecuária. Neste sentido, os sistemas ILPF podem contribuir significativamente com esta recuperação.

Interessante que este sistema mais complexo do que o sistema vigente de monocultura vem apresentando altas produtividades de grãos, proteína animal e produtos florestais. No caso da pecuária, os resultados têm mostrado que estes sistemas podem produzir até o dobro dos sistemas tradicionais de pecuária somente e a madeira chega até 30% das produtivas por hectare/ano, comparado com os sistemas tradicionais de produção de florestas somente.

No entanto, os resultados mais surpreendentes se referem às melhorias ambientais do sistema de produção. Por exemplo, o sistema ILPF pode diminuir em até 4 C a temperatura do ambiente de produção, comparado com os sistemas convencionas. Esta mesma diferença, no caso da umidade, pode chegar a 50%. Outros impactos incluem a preservação do solo e a redução no uso dos fertilizantes. Assim, o sistema agrossilvipastoril e suas variantes podem contribuir imensamente com a agricultura sustentável nas próximas décadas.

Fontes de informações e dados para o artigo

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.