A busca por uma agricultura mais sustentável deve olhar por sistemas e técnicas em diversos períodos do desenvolvimento da agricultura. No entanto, essa busca não deve ocorrer sem perder o poder da inovação tecnológica que vem revolucionando a produção de alimentos desde a origem da agricultura.

Rotação de culturas

A combinação de utilização de defensivos químicos e biológicos com as práticas sustentáveis e da agricultura orgânica tem melhorado o manejo de pragas em geral, e impactado positivamente agricultores e consumidores. No entanto, a adoção de outras técnicas como a rotação de culturas também é fundamental para garantir a agricultura sustentável. A rotação de culturas é uma prática baseada na biologia e fenologia de plantas e pragas, além do comportamento destas pragas, que pode diminuir o impacto destrutivo causado por elas.

Alguns exemplos de sucesso da rotação de culturas são o manejo de pragas de milho e soja e a conservação de solos quando a rotação de cultura é feita com estas duas culturas. Na maior parte do Brasil, onde o agricultor pode plantar duas safras por ano, uma no verão e outra no inverno, a combinação do plantio de soja no verão e milho no inverno tem gerado um modelo de negócio bem lucrativo para o agricultor, ao mesmo tempo em que conserva a estrutura do solo e reduz os danos de pragas e doenças especificas a uma dessas culturas. Outra combinação bem comum também é a produção de soja ou milho no verão e um cereal de inverno como trigo ou cevada.

Enfim, a rotação de cultura contribui com o manejo de pragas e a conservação e fertilidade do solo. Além disso, a rotação de culturas pode contribuir com a sustentabilidade econômica de uma propriedade rural, por diminuir a dependência do agricultor em uma só cultura. Desta forma, a rotação de cultura diversifica o empreendimento do agricultor, assegurando-lhe condições para melhor enfrentar os momentos difíceis de sua principal cultura.

Além da rotação de culturas, outros mecanismos têm sido resgatados e aplicados novamente por serem mais sustentáveis e contribuírem na conservação da estrutura e fertilidade do solo, além da água. Entre estes estão a compostagem e o plantio direto, que podem ser utilizados em todos os tipos de propriedades, convencional ou alternativa.

A compostagem

A compostagem é o processo em que plantas ou partes delas são colocadas em ambientes fechados e micro-organismos transformam esta matéria orgânica em húmus. Este húmus é então deixado a secar e aplicado nos campos junto com esterco e outros materiais para aumentar a matéria orgânica, capacidade de retenção de água do solo e fertilidade.

A adubação verde tem um objetivo similar ao da compostagem, mas é realizada através do plantio de espécies de plantas que não serão colhidas e sim cortadas e deixadas no solo. Por fim, a cobertura morta, com o objetivo de proteger o solo contra erosão e lixiviação de nutrientes é feita com o plantio de uma cultura sobre a palhada da cultura precedente, ou o conhecido plantio direto.

Plantio direto

Já o plantio direto é um sistema no qual o agricultor minimiza os impactos no solo quando plantado, por abrir uma pequena linha na palhada somente para colocar a semente, garantindo, assim, uma condição de conservação do solo melhor do que o plantio convencional com o revolvimento do solo antes do plantio.

Os benefícios do plantio direto vão além da conservação do solo, incluindo a diminuição da emissão de carbono, aumento do teor de matéria orgânica, maior conservação de água e melhoria da eficiência de adubação e fertilidade do solo. Com tantos benefícios, hoje já existem em torno de 30 milhões de hectares sob este sistema no Brasil, com objetivos de incorporá-lo cada vez mais nos próximos anos.

O sistema de plantio direto tem sido adotado no Brasil desde o início dos anos 1980 e, em 2007, já chegava a 25 milhões de hectares. A base deste sistema é o plantio de uma nova cultura na palhada da cultura anterior. As vantagens do plantio direto incluem o controle da erosão e a conservação de água no solo, além de melhoria do teor de matéria orgânica e microfauna, impactando diretamente na disponibilidade de nutrientes para as plantas.

Além disso, o plantio direto também contribui diretamente com a sustentabilidade econômica e ambiental, por reduzir o consumo de combustível até 75% e o de água em até 30%. Caso pudéssemos produzir alimentos em 25% de terras com plantio direto no mundo, acredita-se que poderíamos zerar o excesso de carbono que temos na atmosfera hoje em dia.

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Por ser um sistema relativamente simples, o plantio direto apresenta grandes vantagens e é utilizado tanto em grandes e pequenas áreas de agricultura convencional como em propriedades orgânicas. Para o Brasil, o plantio direto tem sido um dos grandes viabilizadores da expansão agrícola nos cerrados e do aumento da produção de alimentos, principalmente pelas condições de solos pobres da maior parte do Brasil.

Código florestal

O Brasil é um país-chave na garantia de alimentação para os 9,7 bilhões de pessoas em 2050, devido às riquezas naturais como terras e recursos hídricos, além do capital humano com o conhecimento técnico-científico e do caráter empreendedor do produtor rural brasileiro. No entanto, o grande desafio é como expandir a produção de alimentos de uma forma sustentável, preservando o máximo possível toda esta riqueza ambiental. Para isso, precisamos adotar as diretrizes do Código Florestal como a proteção das áreas de preservação permanente (APP) e de reserva legal (RL) e seus mecanismos de monitoramento como o sistema do Cadastro Ambiental Rural (CAR).

As APPs protegem as margens de lagos ou rios e nascentes, as encostas e topos de morros, as restingas e manguezais, as bordas de tabuleiros ou chapadas com inclinação maior que 45º e as áreas com altitude superior a 1.800 metros, com qualquer cobertura vegetal. As APPs são importantes para a preservação da biodiversidade, garantindo fonte e qualidade de água, conservação do solo e, desta forma, a sustentabilidade da propriedade rural. Já a RL é uma área dentro da propriedade rural necessária para preservação dos recursos naturais, a conservação e reabilitação dos processos ecológicos, a conservação da biodiversidade e o abrigo e proteção da fauna e flora nativas.

 adoção de boas praticas agrícolas e da implementação das diretrizes do Código Florestal, outras iniciativas têm surgido para aumentar a produção de alimentos de forma sustentável. Uma destas é o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). O PSA é um programa utilizado por governos, ONGs e iniciativa privada para recompensar produtores rurais por suas contribuições na preservação do meio ambiente. Na teoria, seria a melhor forma possível de preservação ambiental em pequena escala, mas com grande abrangência de propriedades.

No entanto, o custo do programa ou deste formato de retribuição financeira aos produtores rurais é viável em casos específicos. Por exemplo, a Agência Nacional de Águas (ANA) tem uma iniciativa chamada de Produtor de Água, que tem tido muito sucesso.

Agricultura regenerativa

Para minimizar os impactos negativos da agricultura moderna, a agricultura regenerativa quer produzir alimentos com o mínimo de interferência na natureza. Para isso, a agricultura regenerativa prega que os solos precisam ser tratados com cuidado e atenção, sendo que produtores de alimentos devem zelar pelos solos e fomentá-los, assim como fazem com as plantas e animais que criam em suas fazendas. Além de essenciais para a agricultura, os solos saudáveis também contribuem com a absorção de carbono, proteção contra erosão e lixiviamento de nutrientes para os lagos e rios.

A agricultura regenerativa tem o objetivo de restaurar solos degradados por atividades humanas seja para a indústria, seja para a agricultura, através de técnicas para tornar o solo agrícola mais próximo possível dos solos de biomas naturais, como em florestas. Para entender como a estrutura e composição dos solos são críticos, para cada 1 % de aumento de matéria orgânica, um hectare de qualquer espécie de planta para alimentação humana aumenta sua capacidade de retenção de água em quase 190 mil litros por hectare.

Solos com maior matéria orgânica também oferecem melhor estrutura do solo, diminuindo as possibilidades de erosão. E, tudo isso junto, oferece melhores condições para as plantas crescerem. Outro impacto positivo da agricultura regenerativa e da orgânica é o sequestramento de carbono da atmosfera pela maior matéria orgânica do solo.

Na verdade, a agricultura regenerativa é a combinação de tudo o que vimos neste artigo e no artigo de boas praticas agrícolas, ou seja, integração com lavoura e pecuária, cobertura vegetal, plantio direto e rotação de cultura para mencionar apenas alguns. E apesar de pesquisas científicas mostrarem as vantagens da agricultura regenerativa, esta prática não tem expandido como deveria, muito devido à falta de informação de produtores e consumidores de alimentos sobre os impactos negativos da agricultura convencional no meio ambiente e/ou de conhecimento também de produtores e consumidores sobre as alternativas ao sistema dominante atual.

Uma das esperanças de aumentar tanto informação como conhecimento e viabilizar a implementação de técnicas de agricultura regenerativa está na revolução da tecnologia de informação e comunicação (TIC), especialmente inteligência artificial, máquinas que aprendem fazendo e ciências dos dados. Entre estas ferramentas que podem auxiliar estão o uso de imagens por drones ou satélites, amostragem automática e com informações momentâneas de solos e análises de imagens para identificação de doenças. Mesmo que a princípio a agricultura regenerativa pareça ser uma volta ao passado, na verdade, ela só é viável com a utilização de todas as tecnologias disponíveis.

Fontes de informações para o artigo

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.