As grandes, médias ou pequenas propriedades rurais? Quem causa os maiores impactos econômicos, sociais e ambientais na cadeia de produção de alimentos?

A agricultura corporativa é de grande escala e focada em altas produtividades, com grandes investimentos em tecnologia para a otimização operacional da propriedade, resultando em redução significativa dos custos e redução dos preços das commodities. Estas grandes propriedades estão normalmente localizadas em países tradicionalmente exportadores de commodities agrícolas como os EUA, Brasil, Argentina e Austrália, que oferecem condições econômicas, legais e tecnológicas para estas operações.

Proprietários de grandes propriedades rurais precisam melhorar suas operações e expandir cada vez mais para serem mais competitivos. Assim, o destino dessas grandes propriedades é o crescimento constante. Além disso, essas propriedades têm relacionamentos bem próximos com as empresas de insumos agrícolas, máquinas e equipamentos, tradings e bancos. Por fim, essas propriedades são responsáveis pela produção da maior parte das principais commodities exportadas no mundo, entre elas soja, milho, açúcar, trigo, celulose e diversos tipos de proteína animal.

Todos tem um papel em alimentar a humanidade

Já a pequena e média propriedade rural é baseada no uso intensivo da mão de obra familiar e na diversificação da produção de alimentos, tanto de plantas como de animais ou ambas as espécies. No caso de proprietários com acesso ao capital, eles também podem adicionar tecnologias tanto para a produção de alimentos em sistemas convencionais como na produção de alimentos em sistemas orgânicos ou utilizando outros métodos alternativos, mas fazem pouco uso de insumos externos.

Pequenas e médias propriedades rurais existem em todos os países, mas é nos países em desenvolvimento ou mais pobres que causam o maior impacto econômico e social, sendo responsáveis por altas taxas de geração de renda e empregos. Como vamos ver, estas propriedades são responsáveis pela maior parte da produção de alimentos para as comunidades da zona rural e, desta forma, são essenciais para a sustentabilidade social do meio rural.

Além deste importante papel econômico e social, as pequenas e médias propriedades têm dificuldades em acessar capital para financiar suas operações ou adquirir novos insumos e equipamentos. Por esse motivo, muitas não conseguem superar o limite de produção que as torna viáveis economicamente e são desativadas ou vendidas para proprietários de propriedades maiores ou com melhores condições financeiras.

Apesar das diferenças, todos os tamanhos e tipos de propriedades rurais são indispensáveis para alimentar a humanidade hoje e serão ainda mais indispensáveis para alimentar 9,7 bilhões de pessoas em 2050. Precisaremos utilizar todo o tamanho e tipo de propriedade para produzir alimentos saudáveis para todos, ao mesmo tempo em que garantimos a sustentabilidade do planeta.

As dualidades constantes de esquerda ou direita, grande ou pequeno, agronegócio ou agricultura familiar entre outras são importantes para os intelectuais, políticos, jornalistas, colunistas, pensadores, influenciadores nas mídias sociais entre outros, mas, na prática, no dia a dia, não significam nada. Quando vou ao mercado não quero saber se a batata ou a banana é de esquerda ou de direita. Quero saber se ela não está contaminada por defensivos químicos, se o processo produtivo não causou impactos ambientais, humanos ou sociais. A discussão política é cega, mas a fome não. Assim, precisamos focar no que é importante, ou seja, a segurança alimentar de bilhões de pessoas e a sustentabilidade do planeta.

A importância papel do capital em todas as propriedades

O desafio é aproveitar e viabilizar a contribuição de todas as propriedades rurais no mundo para garantir a alimentação de todos. Desde que a propriedade rural esteja contribuindo com a alimentação saudável e utilizando práticas sustentáveis, ela está fazendo sua parte no mundo e não importa se tem 1, ou 100 ou 10.000 hectares. Para viabilizar todas elas, precisamos garantir que todas tenham acesso ao capital para torná-las mais sustentáveis economicamente.

Como vimos, os recursos financeiros são escassos e, quando disponíveis, são “caros” para os proprietários, além de colocar em risco a própria existência da propriedade como um todo e o sustento da família do proprietário, assim como o de outras famílias que dependem direta ou indiretamente desta propriedade para garantir sua renda.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.