A intensificação da produção agrícola pode ser definida como a maximização da eficiência no campo, ou seja, aumentar ao máximo a produtividade de uma propriedade com o menor nível de insumos, capital e mão de obra. Por exemplo, a produção de alimentos em escala e com alta eficiência das grandes propriedades viabiliza o complexo soja-proteína animal produzido em países como os EUA, Brasil e Argentina e exportado para a China.

Esse modelo teve início na Revolução Verde da década de 1960 e continua a orientar a produção agrícola no mundo. Os defensores da agricultura de escala acreditam que a intensificação da produção aumenta a produção de alimentos, garantindo a segurança alimentar da humanidade e inibe ou torna desnecessária a destruição de ambientes naturais, possibilitando, assim, conservar a biodiversidade.

Quantas propriedades rurais existem?

Por outro lado, existem 570 milhões de propriedades rurais no mundo, das quais 475 milhões são pequenas propriedades, ou seja, menores que dois hectares, o que representa mais de oito agricultores em 10 no mundo. No entanto, estas pequenas propriedades produzem alimentos em apenas 12% da área agricultável do mundo. Apesar da pequena parcela de participação em área, as pequenas propriedades abrigam 1,5 bilhão de pessoas e produzem de 70% a 80% das calorias necessárias nas populações da Ásia e da África-subsaariana.

Além disso, a produção de alimentos pelas pequenas propriedades é feita em ambientes bem diversificados, visto que a mesma propriedade geralmente produz uma grande variedade de alimentos provenientes de folhas, raízes, frutos, peixe e ruminantes. Estas pequenas propriedades contribuem substancialmente não somente com a alimentação da humanidade, mas também com a diversidade genética, já que geralmente produzem várias espécies em suas propriedades.

Ou seja, à medida que a área da propriedade rural aumenta, diminui-se a diversidade de tipos de alimentos produzidos. Assim, a manutenção de pequenas e médias propriedades é relevante para a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

No Brasil, uma propriedade se encaixa na definição de agricultura familiar, quando apresenta estas características: possui menos de quatro módulos rurais; a mão de obra é da própria família; a maior parte da renda é proveniente da propriedade rural e mesmo a gestão da propriedade deve ser feita por integrantes da família.

A agricultura familiar é responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos no Brasil e, mais especificamente, 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 34% do arroz, 58% do leite, 59% da carne suína e 50% das aves. Por fim, vale a pena relembrar que este tipo de propriedade rural ocupa apenas 25% da área destinada à produção de alimentos no Brasil e emprega 70% dos trabalhadores rurais.

Fontes de informações para o artigo

World Food Summit 1996, Rome Declaration on World Food Security.

Lowder, S.K., Skoet, J., Raney, T. 2016. The Number, Size, and Distribution of Farms, Smallholder Farms, and Family Farms Worldwide. World Development Vol. 87, pp. 16–29, 2016

Herrero, M., Thornton, P.K., Power, B.,Bogard, J.R., Remans, R., et al. 2017. Farming and the geography of nutrient production for human use: a transdisciplinary analysis. Lancet Planet Health 2017; 1: e33–42.

Samberg, L.H., Gerber, J.S., Ramankutty, N., Herrero, M., West, P.C. 2016. Subnational distribution of average farm size and smallholder contributions to global food production. Environ Res Lett 2016; 11: 124010.

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Heberle, A.L.O. 2019. A Agricultura familiar brasileira no contexto mundial, 2014. Disponível em: < https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/1871776/artigo-a-agricultura-familiar-brasileira-no-contexto-mundial >. Acesso em: 22/09/2019.

Gross, A.S., 2019. As Brazilian agribusiness booms, family farms feed the nation.Mongabay series: Amazon Agribusiness. 17 january 2019. Https://news.mongabay.com/2019/01/as-brazilian-agribusiness-booms-family-farms-feed-the-nation/.. Acesso em 10/09/2019.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.