Precisamos olhar para baixo… os solos férteis estão diminuindo

Além de luz, água, e temperaturas ideais, as plantas precisam de nutrientes e uma boa estrutura de solos para germinar, crescer e produzir. E como estamos utilizando a fertilidade e estrutura dos solos pode limitar as oportunidades de aumento da produção de alimentos e fibras no mundo. A adoção de estratégias e táticas de manejo sustentável são criticas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta.

Eutrofização causada por excesso de nitrogênio

Após as colheitas, os agricultores precisam fornecer nutrientes novamente aos solos, já que a produção de alimentos levou parte desses nutrientes. Por seu impacto tão grande no aumento da produtividade, em muitos casos multiplicando a produção de uma mesma área por 2, 3 ou mais vezes, os fertilizantes à base de nitrogênio e fósforo são, às vezes, aplicados em excesso, resultando, assim, em uma grande sobra destes elementos na natureza. Os resultados desse excesso são a contaminação dos solos, poluição das águas, principalmente lagos, lagoas e áreas costais, poluição do ar com a liberação de gases de efeito estufa como o N2O.

Entre as consequências de lixiviação destes nutrientes nos rios e eventualmente oceanos e lagos, está a criação de “zonas mortas” nesses ambientes, devido à anoxia, ou falta de oxigênio, para os seres vivos aquáticos respirarem. Por exemplo, a lixiviação de fertilizantes aplicados nos campos do Meio-Oeste Norte Americano, que deságuam no Rio Mississipi e chegam ao Golfo do México eventualmente pelo mesmo rio, resultando em uma grande zona morta nesta região. Assim como a zona morta do Golfo do México, existem mais de 400 nos oceanos e lagos ao redor do mundo.

Foto: Csehak Szabolcs / Shutterstock.com

Além das zonas mortas em oceanos e mares, o excesso de nitrogênio também tem impactado a vida aquática em corpos de água menores como lagos, lagoas e rios através da acidificação e eutrofização. A eutrofização é muito visível, pois deixa lagos, por exemplo, com uma cor verde muito forte, devido ao crescimento e domínio de algas que se multiplicam em ambientes com excesso de nitrogênio.

As consequências de ambiente com excesso destas algas é que outras espécies de algas ou seres vivos menores não conseguem se multiplicar e acabam desaparecendo destes ambientes. Com pouca diversidade de alimentos, muitos peixes e outros animais aquáticos também desaparecem. Ou seja, com raras exceções, corpos de água verde são sinônimos de ambiente aquático com pouca biodiversidade e quase nenhuma espécie superior como peixes.

Destruição dos solos férteis e erosão

Talvez um dos maiores impactos da agricultura no meio ambiente seja a transformação de solos com vegetação nativa, rica em biodiversidade, em solos com vegetação muitas vezes exótica e com uma ou duas espécies de plantas. Esta transformação tem grandes impactos na química, biologia e, principalmente, na estrutura dos solos. À primeira vista, os solos são apenas estruturas de sustentação das plantas e animais, e todos os nutrientes de que as plantas precisam devem ser adicionados aos solos, através da adubação orgânica ou de fertilizantes químicos.

No entanto, os solos possuem vida sob a forma de microrganismos, cruciais para os processos de absorção de nutrientes pelas plantas, e matéria orgânica, que libera também nutrientes para as plantas e contribui com a conservação de água e temperatura ideais para as plantas crescerem. Além disso, os solos possuem estrutura essencial para que as raízes das plantas possam se desenvolver, água e nutrientes se movimentarem, e a fauna viver em um habitat sustentável.

Enquanto técnicas de manejo e aplicação de fertilizantes orgânicos e químicos podem melhorar a matéria orgânica e a fertilidade de um solo, a estrutura é a única característica do solo que a humanidade ainda não conseguiu remediar, uma vez que é perdida. Para atender à crescente população global, precisaremos aumentar a produção de alimentos através da expansão de áreas e do aumento da produtividade por área.

Em geral, a produtividade média global tem aumentado em 1,1% ao ano, desde os anos 1990 e a área para produção aumentou 32% entre 1963 e 2005. Assim, mesmo com expectativas do contínuo aumento da produtividade, estima-se que o mundo precisará adicionar até 230 milhões de hectares para alimentar a humanidade em 2030, isso tudo acrescentado ao já 1.5 bilhão de hectares utilizados na agricultura.

Impactos da expansão de áreas agrícolas

As principais causas da conversão de terras com vegetação nativa em terras agrícolas são deslocamentos de atividades, rebound (recuperação), efeitos cascatas e remittance effects (remessa de fundos financeiros). O deslocamento de atividades é a mudança do uso da terra em um local devido à migração humana. O cerrado brasileiro é um exemplo de área com deslocamento de atividade, da vegetação nativa para a agricultura, para alimentar a população local, do Brasil e de outros países, neste caso, especialmente da Ásia e da Europa. Países como a Suécia e a Suíça, por exemplo, precisam importar 35% e 50% dos alimentos consumidos, respectivamente.

Desta forma, o aumento da produtividade no Brasil traz um balanço positivo global das áreas de florestas e um alívio para os países que não conseguem produzir seus alimentos. Isto, por si só, já é um motivo para investirmos cada vez mais em tecnologias que aumentem a produtividade e diminuam o desperdício de alimentos.

De alguma forma, o Brasil e outros países exportadores de alimentos, como Argentina e EUA, estão contribuindo para a preservação do meio ambiente global, ainda que localmente exista um impacto ambiental negativo. A América Central, a União Europeia, a Ásia Oriental e o Norte da África consomem mais alimentos do que conseguem produzir.

Aliás, a diferença entre países produtores e consumidores tem aumentado de 1987 a 2008. Isto tem feito com que as terras agrícolas para exportação de alimentos aumentem mais do que as terras para produção doméstica de alimentos. Somente em 2008, 20% da área total destinada a agricultura no mundo foram utilizados para produzir alimentos para exportação. O comércio internacional tem contribuído na concentração da produção de alimentos em países com maior eficiência e, assim, preservado mais o meio ambiente.

A segunda causa para a conversão de terras é o rebound ou recuperação da demanda por algo, neste caso, por alimentos. Isto ocorre quando um aumento na eficiência de produção de um alimento diminui seu preço para o consumidor final e, desta forma, seu consumo aumenta, demandando mais alimentos e uma produção maior. Este aumento na eficiência ocorre principalmente pela inovação e desenvolvimento tecnológico. Então, o desenvolvimento tecnológico tem consequências negativas também, mas são bem menores do que se não tivéssemos essas inovações e tecnologias. Por exemplo, caso não tivéssemos aumentado a produtividade desde 1961, teríamos que ter dobrado a quantidade de terras que utilizávamos em 2005 para produção de alimentos. Isto teria já consumido toda a terra que temos disponível no mundo para produção agrícola e destruído boa parte do que temos em florestas.

A terceira causa de conversão de terras para áreas agrícolas ocorre através de efeito cascata. Um exemplo é o aumento da demanda por biocombustíveis, que são menos poluentes do que os combustíveis à base de petróleo. No entanto, biocombustíveis provenientes de soja, milho e cana-de-açúcar acabam competindo com a demanda destes produtos para alimentação e aumentando a conversão de terras nativas em áreas agrícolas.

Por fim, a quarta causa de conversão é a remessa de fundos financeiros por imigrantes que vivem em países mais desenvolvidos. Somente em 2009, 214 milhões de imigrantes enviaram em torno de 414 bilhões de dólares de volta a seus países de origem. Parte deste montante foi destinado a investimentos em tecnologia e expansão de áreas agrícolas nestes países.

A situação dos solos no mundo

Terra arável é um recurso cada vez mais escasso. Dos 13 bilhões de hectares no mundo que não estão cobertos por gelo, quatro bilhões seriam adequados para conversão em terras cultiváveis. No entanto, somente 11%, ou 445 milhões de hectares mais precisamente, poderiam ser cultivados sem desmatamento, sem estarem protegidos ou sem causar deslocamento de população humana. A maior parte destes 445 milhões de hectares está nos cerrados brasileiros, pampas argentinos e savanas africanas de países como Sudão, República Democrática do Congo, Moçambique, Tanzânia e Madagascar. E mesmo a conversão dessas terras teria grandes impactos ambientais e sociais nestas regiões e no planeta como um todo.

Talvez um dos símbolos mais impactantes deste problema tenha sido o Dust Bowl nos EUA dos anos 1930, quando grandes “montanhas” de poeira se formaram e varreram alguns dos estados mais agrícolas do país, prejudicando não só a produção agrícola, mas também a vida nas cidades desses estados. O Dust Bowl foi apenas um dos grandes sinais do abuso que cometemos com os solos. Essa história é bem antiga, indo até a antiga Mesopotâmia, atual Iraque, onde há alguns milênios produziam-se alimentos em abundância em seus solos férteis frequentemente banhados pelos rios Tigres e Eufrates, mas que hoje se resume a uma região desértica ou semiárida. O solo foi embora para os rios, para o golfo e depois para o oceano. O mesmo processo tem ocorrido em várias outras regiões do mundo.

Estamos perdendo em torno de 12 milhões de hectares por ano. Este é um processo lento, mas contínuo, e já existem dois bilhões de hectares de solos degradados impactando 1,5 bilhão de pessoas no mundo. A perda deste solo rico em matéria orgânica e nutrientes foi tão grande, que ele pode levar séculos para ser recomposto naturalmente. Para impedir a erosão e aumentar a recuperação dos solos degradados, os agricultores precisam adotar medidas para sua conservação e recuperação, como a adubação orgânica, principalmente pela compostagem, manutenção e cobertura do solo, rotação de culturas e consórcio de culturas ou policulturas.

Fontes de informações para este artigo

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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