Os impactos do consumo de água para irrigação na agricultura

A agropecuária é a atividade humana que mais consome água principalmente para irrigação e criação animal. Para a produção de alimentos, consumimos 70% da água utilizada em atividades humanas. A indústria consome 20% e os restantes 10% são de consumo doméstico como tomar banho, limpar a casa, lavar a louca, escovar os dentes, fazer a barba, dar descarga, entre outros. Ou seja, tudo aquilo que podemos fazer em nossas casas representa apenas 10% do impacto no consumo global anual. Mesmo assim, não devemos deixar de fazer nossa parte para a conservação da água.

No entanto, a grande oportunidade de nós consumidores impactarmos a conservação de água está na agricultura. Assim, para os agricultores, o trabalho é desenvolver ou adquirir métodos e ferramentas que auxiliem na redução do desperdício da água. Entre os três principais grupos, os métodos de irrigação por aspersão e gotejamento são os mais eficientes quando comparados com os tipos de irrigação por superfície. No entanto, a irrigação por aspersão e gotejamento é mais cara e complexa, exigindo uma capacitação maior do produtor rural e uma estrutura melhor da propriedade, condições que têm limitado consideravelmente o aumento da eficiência do uso da água no mundo.

Quanto a nós, consumidores em geral, precisamos incentivar os produtores e empresas que comercializam ou desenvolvem produtos e serviços a aumentar a eficiência no uso da água na agricultura. Isso pode ocorrer tanto em investimentos nestas iniciativas ou startups como na preferência por produtos oriundos de produção com um “selo de conservação” de água.

Da mesma forma, podemos restringir ou limitar o consumo de produtos oriundos de sistemas de produção que não possuem iniciativa alguma de conservação de água na agricultura. Enfim, apesar de nós, a maioria dos consumidores, não sermos produtores de nossos próprios alimentos, podemos influenciar e muito a cadeia de produção de alimentos no sentido de agir mais conscientemente com relação ao uso de água.

O Brasil produz mais alimentos com menos irrigação

No Brasil a situação não é muito diferente, já que em torno de 69% da água consumida no país são utilizados na irrigação. No entanto, o Brasil consome bem menos água em irrigação do que a média global que está em 20%. Aqui, produzimos apenas 4% dos alimentos com o uso de irrigação. Isso quer dizer que, apesar de tudo, os agricultores brasileiros são muito eficientes no uso da água, por conseguirem produzir mais do que a média global, dependendo da água de chuvas simplesmente. No entanto, o Brasil tem um potencial imenso em relação a projetos de irrigação, visto que o país possui 15% dos recursos hídricos do mundo.

Com relação à produção global de alimentos, de 1,5 bilhão de hectares utilizados para agricultura, 300 milhões de hectares são irrigados. Interessante notar que estes 20% de terras irrigadas são responsáveis por em torno de 40% da produção global de alimentos. Assim, a produção de alimentos é muito dependente de irrigação no mundo e vem crescendo ano a ano, enquanto a área alimentada por chuvas somente tem-se mantido praticamente estável nos últimos 50 anos, em 1,2 bilhão de hectares, mais ou menos.

A produção sob as condições de irrigação ocorre principalmente nas regiões mais ricas do mundo, que conseguem financiar os caros projetos de irrigação. Regiões em desenvolvimento não possuem estes recursos e confiam apenas nas chuvas para produzir em torno de 60% dos alimentos do mundo. A África é um exemplo de país onde não existem muitas áreas irrigadas.

A irrigação é crítica para definição de uma estratégia de como alimentar a humanidade hoje e no futuro. A irrigação é eficiente e sustentável com relação ao uso de terras, uma vez que um hectare irrigado produz entre duas a três vezes mais, em média, do que um hectare sem irrigação. No entanto, existem dois problemas graves com o uso da irrigação. O primeiro é o volume de uso de água destinado a agricultura, que pode começar a comprometer a disponibilidade de água para uso humano ou até mesmo não ter disponibilidade de água para irrigação em alguns lugares. Para este problema, a inovação tecnológica e tecnologias já existentes ajudam ou podem ajudar a minimizar os impactos ambientais da irrigação e a eficiência no uso da água.

O segundo problema é o nível de investimento inicial e manutenção do sistema, que compromete a expansão deste sistema em geral, mas especialmente entre pequenos ou médios agricultores. Desta forma, a irrigação também é um fator de concentração de renda e terras na agricultura.

O papel dos consumidores

Além da utilização de tecnologias mais inteligentes para o uso da água por parte dos agricultores, uma mudança nos hábitos alimentares por parte dos consumidores pode também contribuir com o consumo de água mais sustentável. Pesquisadores desenvolveram o conceito de “pegada hídrica” para estimar a quantidade de água necessária para produção de um quilo de qualquer alimento. Por exemplo, a produção de 1 kg de milho requer 900 litros de água, ou cinco vezes menos do que o exigido para produzir 1 kg de azeitona.

Da mesma forma, a produção de 1 kg de frango consome 3900 litros de água, o que é pouco menos dos 4800 litros necessários para produzir 1 kg de carne suína. O queijo exige 5000 litros para cada quilo de produto final, mas tudo isso é bem menor do que a produção de 1 kg de carne bovina, que necessita de 15500 litros. Isso não significa que deveríamos abolir a carne bovina do nosso cardápio, mas sugere que um balanço entre carne bovina, frango e suína na dieta semanal pode impactar muito o consumo de água do mundo, muito mais que os banhos rápidos para economizar água.

A crise de água já chegou

Enfim, precisamos aumentar nossos esforços com relação à conservação de água no planeta ou vamos colocar mais e mais pessoas em situação de risco por falta de água. Estima-se que atualmente já temos escassez em 80 países, enquanto outros nove países detêm 60% das reservas de água potável do mundo.

Problemas de seca prolongada como as da Califórnia, recentemente, que durou por sete anos ou a do Sudeste brasileiro entre 2014 e 2016, que deixou as duas maiores cidades do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro, com rodízio de água pelos bairros, serão cada vez mais comuns.

Outras regiões do mundo, no entanto, já estão vivenciando situações de escassez permanente de água. Exemplo recente está na Índia, onde a sexta cidade mais populosa, Chennai, está ficando sem água e deixando milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade. A população de Chennai está vivendo um cenário frequente sem água, que já atinge mais de dois terços da população. E para o futuro a situação é ainda mais desesperadora.

Em 2050, a expectativa é de aumento no consumo de água de 55%. Se não mudarmos a estrutura de consumo de água atual, em torno de dois terços da população mundial pode ficar sem água até lá.

Além disso, ainda existem os efeitos incertos das mudanças climáticas na produção de alimentos. Pela condição de maior vulnerabilidade financeira e situação geográfica, acredita-se que os países em desenvolvimento das regiões tropicais e subtropicais terão entre 70 e 80% dos impactos das mudanças climáticas na agricultura global. Estes impactos serão percebidos principalmente na frequência e quantidade de chuvas, aumento da temperatura com consequente aumento da fotossíntese, e redução da área para produção de alimentos devido à desertificação, salinização e inundações.

Adoção de ações imediatas

Assim, as ações devem atuar tanto na oferta como na demanda de água para as plantas e animais. Do lado da oferta, deve-se focar em minimizar a aplicação de água na irrigação ou alimentação de animais, procurando mecanismos mais eficientes, que liberem água somente quando necessário para o crescimento ou bem-estar de plantas e animais. Do lado da demanda de água pelas plantas, é necessário aumentar a pesquisa e desenvolvimento de plantas mais eficientes no uso de água e nutrientes, através das técnicas de melhoramento genético, Biotecnologia e edição de genes. Já para a pecuária, precisamos olhar com mais atenção a pesca e aquicultura, pois fornecem proteína animal de forma mais sustentável do que a criação de animais em terra.

Assim, a pesquisa e desenvolvimento precisam desenvolver técnicas e mecanismos para melhorar a eficiência de energia, água e insumos para a conversão de proteína animal. Por fim, vale a pena mencionar que a produção de proteína animal impacta financeiramente a vida de um terço da população mundial, sendo responsável por 40% do PIB agrícola global. Ou seja, a simples substituição da fonte de proteína animal por dietas alternativas ou vegetarianas não é uma solução sem graves consequências econômicas e sociais para parte considerável da humanidade.

Referencias

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Assad, E.D., Martins, S.C., Pinto, H.S., 2012. Coleção de estudos sobre diretrizes para uma economia verde no Brasil. Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável.

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Brouwer, C. Prins, K. Kay, M. Heibloem, M. 1988. Irrigation water management: irrigation methods. Training Manual 5, Food and Agriculture Organization, Rome, Italy.

Coltro L, Karaski, T.U. 2014. Interdependência: alimentos e sustentabilidade. In: Sustentabilidade e sustentação da produção de alimentos no Brasil: Consumo de alimentos: implicações para a produção agropecuária – Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, v.3.

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Rockstrom, J., Steffen, W., Noone, K., Persson, Å., Chapin, F.S. et al. 2009. A safe operating space for humanity. Nature, 461(24 September), pp.472–475.

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WWF. 2016. Brasil. Disponível em: http://www.wwf.org.br/informacoes/?45282/Mais-de-dois-teros-da-populao-sofrer-com-falta-dgua-em-2050. Yeung, J., Regan, H., Gupta, S. 2019. India’s sixth biggest city is almost entirely out of water. CNN.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

Uma resposta para “Os impactos do consumo de água para irrigação na agricultura”

  1. O dado comparativo entre produção de milho x azeitona está equivocado. A oliveira é árvore muito pouco exigente em água, é originário de terras secas e pedregosas. Creio que o dado é invertido. Milho depende de chuva ou irrigação. Oliveira não se irriga. A planta perde produtividade se estiver em solo muito úmido.

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