O trabalhador rural precisa de mais conhecimento

O trabalhador rural precisa elevar seu nível de conhecimento do mercado, do consumidor, do ambiente de produção, do manejo da cultura ou dos animais e das tecnologias, para tornar a comunidade rural mais sustentável. Em outras palavras, o trabalhador rural precisa tornar-se um “knowledge agro-worker” ou trabalhador do conhecimento da agricultura.

A agricultura atual exige que o produtor rural, principalmente da pequena propriedade, saiba aproveitar o máximo possível dos recursos locais e da forma mais eficiente. Assim, ele deve adquirir conhecimento para entender de que maneira otimizar os insumos externos, como fertilizantes e defensivos químicos, combinando-os com os recursos naturais e locais ou substituindo-os.

Apesar de a agricultura de baixa utilização de insumos externos parecer mais simples, na verdade, pode ser muito mais complexa do que os modelos de propriedades com alto uso de insumos. Isso porque o agricultor precisa de muito conhecimento para poder maximizar seus recursos escassos e combiná-los com os recursos naturais, para tornar a propriedade mais sustentável economicamente. Por exemplo, o trabalhador rural precisa entender de Biologia e Química para operar um biodigestor usando estrume de animais como fonte; precisa entender de Fisiologia e Ecologia de plantas e animais para implementar práticas de pastagens extensivas, preservando a biodiversidade, e desenvolver sistemas agroflorestais combinando lavoura, pecuária e florestas.

O conhecimento é uma ferramenta para sobrevivência

Educação e treinamentos são essenciais para a produção de alimentos sustentáveis ambiental e economicamente. Em torno de 2,5 bilhões de trabalhadores rurais, proprietários ou não, necessitarão de educação e conhecimento para serem bem-sucedidos. A qualificação destes trabalhadores rurais é um grande desafio e exigirá um esforço coordenado de vários segmentos da sociedade. A capacitação deles é crítica para o desenvolvimento sustentável das pequenas propriedades e, consequentemente, a redução da pobreza no mundo. Desta forma, esses trabalhadores rurais poderão garantir a sustentabilidade econômica de suas propriedades e a sustentabilidade social das comunidades rurais.

No caso do Brasil, a Embrapa, institutos de pesquisa como os institutos federais e universidades públicas e privadas devem focar e expandir a pesquisa básica como alicerce para o desenvolvimento agrário brasileiro. Além disso, deve-se deixar a iniciativa privada lançar produtos e serviços, mas ter uma estratégia para desenvolvimento de pesquisa para atender demandas de pequenos, médio e grandes agricultores e, consequentemente, licenciar ou fazer parcerias com empresas que atendam estas diferentes camadas sociais e profissionais de unidades rurais. Ou seja, pesquisa para pequeno agricultor ou agricultura familiar deve ser liderada por empresas locais regionais ou nacionais.

Mesmo no país símbolo do capitalismo e da livre iniciativa, os EUA, o Estado tem contribuído mais para a inovação de tecnologias em áreas como tecnologia da informação, agricultura e energia do que a iniciativa privada. As instituições de pesquisa, as universidades e as agências de fomento de pesquisa criaram a Internet, viabilizaram a Biotecnologia e a revolução energética do gás de xisto, mas deixaram, como deveriam ter feito, as empresas privadas levar estas tecnologias para o mercado e capturar seus valores.

A iniciativa privada tem contribuído para o desenvolvimento de novas tecnologias, mas é a estrutura de pesquisa e financiamento do Estado que tem promovido os grandes saltos tecnológicos, principalmente nos EUA. Assim, países como o Brasil, que possuem uma estrutura de pesquisa e educação superior proeminente na agropecuária, devem investir e focar ainda mais na geração de tecnologias e qualificação de mão de obra para este que é um dos principais pilares de crescimento econômico e social do país.

Precisamos incluir a maioria dos agricultores no mercado para, assim, poderem usufruir das benesses do capitalismo e globalização. Neste sentido, a educação e o treinamento dos agricultores é uma das principais formas de garantir a sustentabilidade econômica e social do meio rural. Neste sentido, as ferramentas e processos da revolução de tecnologia, informação e comunicação podem acelerar, facilitar e tornar mais acessível a transferência de conhecimento e capacitação dos habitantes das comunidades rurais. Os agricultores e empresas podem, inclusive, combinar o aumento do nível de conhecimento com maior transparência dos sistemas de produção de alimentos, que é uma crescente exigência por parte dos consumidores.

Para essa capacitação e expansão do uso de tecnologias no campo, as comunidades rurais também precisam atrair mais profissionais. No auge da Revolução Industrial nos EUA, em 1870, em torno de 50% da força de trabalho americana estavam na agricultura, isto é, um número bem diferente dos quase 2% atuais. Além disso, a idade média do agricultor americano é 57 anos, mostrando a dificuldade da agricultura em atrair as novas gerações para ficar no campo.

No entanto, com o contínuo aumento da população e renda mundial por um lado, e do mundo cheio de incertezas do outro, precisaremos voltar a atrair os jovens para a produção de alimentos. A resposta para atrair estes jovens talvez esteja nas próprias razões pelas quais acreditamos que eles estão se afastando. Ou seja, precisamos mostrar que garantir uma alimentação saudável e uma agricultura mais sustentável é o grande desafio da geração atual e um propósito grande o suficiente para mover os corações de milhões de jovens no mundo que acreditam na mudança para um mundo melhor.

A agricultura também emprega novas tecnologias como veículos autônomos, as fazendas verticais e a polinização com drones, além das outras tecnologias como robôs para colher morangos, por exemplo. Na parte de capacitação, várias startups estão oferecendo cursos on-line, além de muitas instituições e ONGs estarem oferecendo cursos gratuitos no modelo a distância também.

Fontes de informação para este artigo

Ciolos, D., Piebalgs, A. 2012. Uma agricultura sustentável para o futuro a que aspiramos. Comissão Europeia para o Desenvolvimento e Cooperação, Comissão Europeia para Agricultura e Desenvolvimento Rural.

Manhas, K. 2019A. Farming is the world´s most important career – that´s why is needs a new image. Ag Funder News. Publicado em 26/08/2019. https://agfundernews.com/farming-is-the-worlds-most-important-career-thats-why-it-needs-an-image-makeover.html. Acesso em 24/11/2019.

Mazzucato, M. 2015. The Entrepreneurial State: Debuking public vs. Private sector myths. Public Affairs. New York. USA.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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