A palavra sustentabilidade se tornou um lugar comum na cultura popular, corporativa e governamental. Todo mundo fala sobre algo “ser sustentável”, mas o que isso significa?

Sustentabilidade é um conceito em evolução. Provavelmente teve seu início nos anos 1960 e 1970, com um discurso focado na proteção do meio ambiente. Naquele momento, não existia um conceito de sustentabilidade como temos hoje. A questão ambiental naquela época era formada por ideias, teorias e questionamentos sobre os impactos que a atividade econômica ocasionava ao meio ambiente, à fauna e à flora.

Um dos livros que tiveram um papel fundamental na definição deste movimento ambiental foi a “Primavera Silenciosa” de Rachael Carson. O livro estimulou a sociedade a pressionar os governos, ONGs, organizações, cientistas e jornalistas a discutirem e investigarem os impactos do capitalismo no meio ambiente.

Outra obra impactante deste movimento foi “Os Limites do Crescimento” publicada por vários autores, incluindo empresários, cientistas, economistas, diplomatas, funcionários públicos de vários países. Nesta publicação, os autores advertem para os perigos do contínuo crescimento econômico e populacional que ocorre em um planeta com recursos finitos.

Da retorica a prática

Nos anos 1980, novas ideias se associam à questão ambiental para desenvolver um conceito mais pragmático. O objetivo era ir além da simples crítica ao sistema econômico de contínuo crescimento sem respeito ao meio ambiente. Este conceito mais pragmático é o Desenvolvimento Sustentável sintetizado principalmente na publicação “Our Common Future” da Comissão Internacional do Meio Ambiente e Desenvolvimento.

A obra busca sintetizar o conceito de desenvolvimento sustentável, tentando defini-lo como algo possível de ser alcançado sem necessariamente implodir com o sistema econômico dominante. No entanto, o livro coloca limites e exige a busca por alternativas no uso dos recursos naturais não renováveis. Assim, a definição de desenvolvimento sustentável é “desenvolvimento que atende as necessidades do mundo atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras de terem suas necessidades atendidas”. A publicação desse texto ressalta também a primeira prova da ação do capitalismo sem controle, o buraco na camada de ozônio causado pelos clorofluorocarbonetos ou CFC. O buraco, identificado em 1985 sobre a Antártida, culminou com a realização da ECO92, no Rio de Janeiro, Conferência Earth Summit, em 1992.

Após este evento no Rio de Janeiro, ocorre mais uma evolução nas discussões, ideias e alternativas aos impactos do desenvolvimento econômico crescente e chega-se ao conceito de sustentabilidade como conhecemos hoje. Nos anos 1990, a realidade dos impactos de atividades econômicas é comprovada por dados e estudos científicos em várias áreas. Entre esses impactos estão a contaminação dos solos, rios, lagos, oceanos, lençol freático e ar, e dos alimentos pelo excesso e mal uso de produtos químicos na cadeia de produção de alimentos.

No entanto, o conceito de sustentabilidade procura ir além e mostrar opções para um desenvolvimento mais harmonioso entre o ser humano, os outros seres vivos e o planeta que todos habitam. Assim, sustentabilidade busca assegurar que o desenvolvimento atual não impacte as opções econômicas, sociais e ambientais das gerações futuras.  Tom Burke, autor do livro “The Green Capitalists” de 1987, foi um dos expoentes desse pensamento.

Tripé da sustentabilidade: economia, sociedade e meio ambiente

Com a evolução dos conceitos e teorias, John Elkington define uma teoria de sustentabilidade baseada em três pilares, sob a perspectiva das empresas, tendo como foco analisar e sugerir ações para o mundo corporativo. Seu livro publicado primeiramente em 1997 também chamou a atenção pelo título integrante, “Cannibals with forks – the triple bottom line of 21st century business”. No Brasil, o livro foi publicado como “Sustentabilidade: Canibais com garfo e faca”.

O primeiro dos três pilares é o pilar econômico relacionado com o lucro das empresas ou indivíduos. O segundo é o pilar social relacionado com a forma como as empresas tratam questões sociais, políticas e éticas. O terceiro pilar é o ambiental e refere-se à forma com que as empresas exploram os recursos naturais e preservam o meio ambiente.

Independente das definições teóricas, eu acredito no balanço das ações humanas entre a contínua busca pelo bem-estar de todos e a conservação do meio ambiente e da biodiversidade. No entanto, existem várias correntes de pensamento sobre como o ser humano deveria viver no planeta e como deveria interagir com os outros seres vivos.

Em um extremo destas correntes, acredita-se que o ser humano deveria continuar utilizando os recursos naturais como tais para o desenvolvimento econômico. E os impactos ao meio ambiente e a biodiversidade são externalidades e seu “custo” indesejável não deveria estar incluído nos preços dos produtos e serviços. Em outro extremo, temos a corrente dos que acreditam que o desenvolvimento econômico é a causa de todos os problemas sociais, econômicos e ambientais e, portanto, não tem como ter um desenvolvimento sustentável utilizando os recursos naturais sem limites ou sem uma penalidade. Desta forma, o custo das externalidades deveria ser incluído nos preços de produtos e serviços e as empresas e os governos deveriam ter metas rígidas de substituição de energia à base de combustível fóssil, por alguma fonte renovável de energia, como solar ou eólica.

A solução está na harmonia

Acredito que jamais teremos consenso se optarmos por um extremo ou outro. Para salvarmos a humanidade e o planeta, precisamos encontrar a harmonia do uso dos recursos naturais e desenvolver formas de recompensar por indivíduos e instituições que contribuem com a preservação do planeta e punir somente os que causam danos.

A agricultura sustentável inclui programas como o manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas, plantio direto, controle biológico, compostagem, adubação verde, policultivo, pesticidas naturais, rotação de culturas, manutenção ou restituição da matéria orgânica do solo e uso de fontes alternativas de energia como solar, eólica e biocombustão. Entre os sistemas mais sustentáveis estão agricultura orgânica, agricultura alternativa, agricultura ecológica e variantes destas, mais focadas em utilizar o mínimo possível de insumos externos.

Ao mesmo tempo, dentro ou fora da propriedade rural, o agricultor e a comunidade que desejam implementar ações para tornar a agricultura mais sustentável precisam fazer o manejo correto das águas, tanto de chuvas como dos rios, lagos, fontes e aquífero, protegendo as matas ciliares através da conservação da mata nativa ou reflorestamento. A comunidade precisa proteger a biodiversidade animal e vegetal, por exemplo, com áreas de preservação permanentes. Por fim, a comunidade precisa trabalhar na educação sobre a sustentabilidade ambiental, social e econômica dos adultos, jovens e crianças.

A agricultura sustentável é VUCA

Apesar de todas essas definições do conceito de agricultura sustentável, a mesma é mais um exemplo do mundo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity). O conceito de agricultura sustentável é volátil, ou seja, muda de tempos em tempos, baseado em novas descobertas ou eventos. Este conceito é incerto, pois não sabemos onde a agricultura sustentável começa ou termina. Por exemplo, uma propriedade rural que produz alimentos orgânicos, mas os vende a um mercado consumidor que fica a 1000 quilômetros de distância está contribuindo para a agricultura sustentável? O conceito é complexo, pois é impactado por tantos fatores, que se torna quase impossível mapeá-los. Por fim, o conceito é ambíguo quando produz um produto sob condições de agricultura sustentável, mas que utiliza energia e máquinas não tão sustentáveis.

O conceito de agricultura sustentável deve ser pragmático, ou seja, baseado em ações que agricultores possam realizar, na medida do possível, para proteger o meio ambiente e as comunidades, mas garantindo a sustentabilidade econômica das propriedades. Além disso, a agricultura sustentável deve visar à harmonia entre as correntes que pregam a agricultura sem alteração do meio ambiente e com uso limitado dos recursos naturais e a agricultura sem cuidado algum com o meio ambiente e com uso irrestrito dos recursos naturais.

Ou a sustentabilidade ou a fome

A sustentabilidade não é mais uma discussão teórica de como impactamos o mundo. Caso não consigamos tornar as atividades humanas mais sustentáveis, não teremos condições de alimentar os 9,7 bilhões de pessoas em 2050, as quais exigirão um aumento na produção de alimentos em 60%. Em relação a esta porcentagem, o Brasil será responsável por contribuir com 40%, colocando o país como o principal contribuinte para alimentar o mundo em 2050. Essa estimativa é baseada no histórico de aumento de produtividade que tem dominado a agricultura brasileira nos últimos 40 anos, viabilizado pelos recursos naturais, clima, adoção de tecnologia, políticas governamentais, organização da cadeia produtiva e empreendedorismo do agricultor brasileiro. Mais informações e detalhes sobre essas estimativas podem ser encontrados no artigo “Global Demand for Food Is Rising. Can We Meet It?” por M. Elferink e F. Schierhorn (Harvard Business Review, 2016) e no livro “The economics and organization of Brazilian agriculture: Recent evolution and productivity gains” por F. Chaddad em 2016.

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Por fim, devemos refletir se o modelo de produção de alimentos dos últimos 40 anos. Esse modelo continuará tendo sucesso na agricultura brasileira durante as próximas décadas? Ou precisamos mudar este mesmo modelo para que tenhamos mais certeza de que estamos no caminho correto. A agricultura evoluiu muito nas últimas décadas, deixando de ser vista como uma atividade atrasada e com pouca utilização de tecnologias, para uma atividade com uso das mesmas tecnologias utilizadas em outras indústrias mais sofisticadas historicamente, como as de transporte aéreo, telefonia e imagem e som.

No entanto, a grande maioria dos agricultores no mundo continua a usar ferramentas manuais ou de tração animal nas operações de suas propriedades. Neste sentido, se não conseguirmos distribuir as inovações tecnológicas mais recentes para todos, o que vamos fazer com os mais de um bilhão de trabalhadores rurais nos países em desenvolvimento e nos países mais pobres? E se substituirmos todos estes trabalhadores por máquinas, onde eles trabalharão?

O objetivo deste texto foi descrever a evolução do conceito de sustentabilidade e deixar aos leitores algumas perguntas e reflexões sobre a complexidade do tema. Com isso, espero que possamos discutir de forma mais estrutura e com informações sobre como tornar a agricultura mais sustentável independente das condições de cada propriedade rural.

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Sobre o autor

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.