O papel quase inesperado das comunidades rurais na salvação do planeta

Uma comunidade rural socialmente sustentável assegura o bem-estar e desenvolvimento pessoal e profissional dos seus membros. Oferece condições para lazer, esporte, saúde e educação, além de assegurar a liberdade e a segurança, assim como a conservação do meio ambiente. A comunidade também é uma fonte de mão de obra para trabalhar diretamente nas propriedades rurais. De forma indireta, a comunidade oferece trabalhadores que fornecem serviços de manutenção de máquinas, treinamento, construção, elétrica, saúde, segurança, educação, lazer, religião, entre outros.

A satisfação pessoal dos agricultores, seus familiares e funcionários depende da existência de uma comunidade que atenda a demanda das necessidades básicas destas pessoas. No Brasil, temos visto casos regionais de sucesso no desenvolvimento de comunidades rurais, tanto baseados em pequenas propriedades como em grandes propriedades.

No entanto, este desenvolvimento agrário bem-sucedido do ponto de vista econômico, em alguns lugares tem gerado impactos negativos na sustentabilidade social. Assim, o desenvolvimento social precisa estar alinhado e balanceado com a sustentabilidade econômica e ambiental das regiões produtoras de alimentos.

O propósito de uma comunidade rural

O propósito de uma comunidade inclui vários aspectos da vida humana. Recentemente o economista indiano Raghuram Rajan, em seu livro “The third pillar: how markets and the state leave the community behind”, descreve a influência e o poder que as comunidades exercem em nossas vidas. De acordo com Rajan, a maior parte da evolução da nossa espécie está ligada e se relaciona com a evolução das comunidades. Do ponto de vista de sobrevivência, os mais experientes treinam os jovens tanto nas questões técnicas, profissionais como sociais.

Pessoas que vivem em comunidades possuem mais acesso a capital sem recorrer a serviços técnicos ou até mesmo recomendações sobre escolhas profissionais ou econômicas. No entanto, nas últimas décadas, esta importância da comunidade tem sido substituída pela presença cada vez maior do mercado e do Estado na vida das pessoas. Assim, precisamos resgatar a importância e o valor da vida em comunidade. Isso é valido para todas as esferas da sociedade, mas é ainda mais importante no meio rural, já que normalmente as pessoas vivem isoladas neste ambiente.

A política da autossuficiência e independência econômica

Com os agricultores tendo condições de suportar economicamente suas propriedades, eles geram um ambiente propício e necessário para a sustentabilidade social e podem fortalecer novamente as comunidades. Desta forma, os produtores rurais precisam assegurar a sustentabilidade econômica de suas propriedades e, ao mesmo tempo, ter condições de criar uma comunidade para atender as demandas da região.

Em alguns casos, os agricultores possuem condições de, sozinhos, acessarem capital, tecnologia e mercado. No entanto, para a maioria dos agricultores, isso não é possível de ser feito sozinho e precisam da orientação de alguém para uma análise criteriosa das opções de investimento do seu tempo e de seus recursos escassos. A falta do conhecimento e de informações mais idôneas dificulta ou impede o desenvolvimento do agricultor, tanto no contexto econômico como no contexto técnico.

Os desafios do acesso ao credito

No contexto econômico, as pequenas propriedades agrícolas possuem dificuldades de acesso a crédito para financiar os insumos, equipamentos e, em alguns casos, mão de obra fixa ou temporária. Esta dificuldade se deve à falta de conhecimento do processo de empréstimos e por não terem condições de assegurar algo em garantia no banco.

Mesmo no programa do governo específico para a pequena propriedade, o PRONAF, a burocracia afasta o agricultor, assim como as exigências de garantias patrimoniais. O PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) é uma opção de acesso a recursos financeiros para agricultores de pequena propriedade. Os desafios de programas de créditos não se restringem a disponibilidade de recursos financeiros. Carlos E. Guanziroli na publicação “PRONAF dez anos depois: resultados e perspectivas para o desenvolvimento rural” releva com detalhes as conquistas e desafios do programa. Outras obras como o “Impactos do PRONAF: análise de indicadores” por Lauro Mattei também contribui muito bem com esses e outros desafios de pequenos agricultores.

Um exemplo de como a falta de informação entre agricultores oriundos de comunidades rurais menos favorecidas é o maior acesso aos recursos do PRONAF por parte de agricultores com maior nível educacional. Ou seja, o fator nível de conhecimento impacta o acesso ao crédito. Além disso, a dificuldade aumenta para aqueles que não possuem terras ou não conseguem comprová-las. O artigo “Determinantes do uso do crédito rural do Pronaf em 2014” traz esses e outros fatores que impactam a disponibilidade de recursos para as comunidades rurais.

No contexto técnico do sistema de produção, mesmo após conseguir o financiamento, percebe-se que a falta de conhecimento pode tornar a operação agrícola da propriedade inviável, devido às decisões erradas no manejo da cultura ou dos animais. Isso é comprovado pelo fato de que, em alguns casos, o crédito oferecido pelo Pronaf não auxiliou no aumento da renda das propriedades rurais familiares, apesar do aumento das produtividades, devido a maior adoção de tecnologias.

Infelizmente também se observou nas mesmas análises um aumento considerável da contaminação ambiental pelo maior uso de agroquímicos. Ou seja, não basta apenas oferecer o crédito ao agricultor, ele precisa ter o conhecimento e as informações para tomar as melhores decisões com relação aos investimentos e uso das tecnologias, como os defensivos químicos. Assim, para uma política bem-sucedida de melhoria social de uma comunidade, se faz necessário dar assistência técnica e administrativa aos produtores rurais, além do acesso aos recursos financeiros.

Knowledge agro-worker

Tanto no contexto econômico como técnico, a falta de conhecimento dificulta o acesso ao capital e a aplicação das tecnologias, resultando em grandes entraves para o desenvolvimento social das comunidades. A agricultura moderna impacta a sustentabilidade social de forma positiva e negativa. Assim, a cadeia de produção de alimentos deve garantir que a inovação tecnológica e a informação trabalhe para sustentabilidade social. Isso pode ocorrer através da melhoria do conhecimento e da transformação do trabalhador rural atual em um “knowledge agro-worker”, ou trabalhador do conhecimento rural, assim como ocorre nos segmentos de serviços e indústria.

Como desafios podem ser transformados em oportunidades, fica aqui o pedido para empreendedores individuais, startups, pequenas, médias e grandes empresas pensarem mais sobre os sistemas nas comunidades rurais. Elas são a base da sustentabilidade social, um dos três pilares do sustentabilidade, e estamos perdendo oportunidades para melhorar o planeta sem o suporte a estas comunidades.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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