O acesso ao capital é crucial para a garantia da sustentabilidade econômica de uma propriedade. Esta dificuldade do acesso ao capital não é limitada ao produtor rural somente; toda a cadeia de produção de alimentos tem o mesmo problema, ou seja, todos os elos envolvidos na produção de alimentos, incluindo produtores e trabalhadores rurais, empresas de insumos e máquinas agrícolas, governos, organizações não governamentais (ONGs), tradings, processadores de alimentos e a indústria do varejo.

O capital é crucial para a operacionalização da propriedade rural, sem o qual o agricultor não tem como financiar suas atividades agrícolas, isto é, custear as máquinas e equipamentos, adubação, correção e manejo do solo, insumos como sementes e defensivos químicos e biológicos, armazenamento e logística, tudo isso assumindo que as terras que o agricultor está utilizando são próprias; caso contrário, ele precisa de recursos para arrendar as terras também.

Além disso, existem o custo da mão de obra, da assistência técnica e o custo de oportunidade do próprio agricultor e de sua família. Isso porque, em alguns casos, o agricultor não possui um fluxo de caixa mensal devido à característica de sua atividade. Por exemplo, um agricultor de soja ou milho planta uma ou duas safras por ano, e até vender seus produtos ele precisa financiar o custo das despesas pessoais e familiares, incluindo alimentação, educação, plano de saúde, entre outros. Para tanto, ele também precisa recorrer a recursos financeiros adicionais.

O capital, como definido neste texto, é o conjunto de todos os recursos financeiros necessários para garantir a sustentabilidade da propriedade agrícola e da agricultura em geral. Isso inclui as políticas públicas de investimentos, tanto do lado da oferta, como o financiamento do custeio agrícola, como do lado da demanda, exemplificado pelas políticas de subsídios para a indústria de etanol de milho nos EUA. Também inclui as diversas formas de financiamento do agricultor, tanto da agricultura corporativa como da familiar, através de bancos, empresas de insumos e máquinas, cooperativas, tradings e outros agentes financeiros, como a bolsa de mercadoria e fundos de investimentos.

Venda antecipada da safra

Antes do plantio ou até mesmo da decisão do que e do quanto plantar, produtores rurais procuram se proteger das incertezas sobre os preços no momento da colheita. Uma opção é “vender” parte, entre 30 e 70% de sua safra esperada para os compradores tradicionais de sua produção; entre eles estão as tradings e os processadores de commodities agrícolas com maior liquidez no mercado como soja, milho, trigo, açúcar, entre outras. Para o mercado de hortaliças e frutas esta opção também existe, mas apresenta mais limitações. Para o mercado de proteína animal, principalmente para os produtores rurais que estão em um sistema de integração, a possibilidade de venda antecipada também existe em diferentes níveis.

Enfim, o financiamento da safra ou das operações da propriedade por um período, através do comprador, é uma boa opção, mas apresenta restrições quanto ao tipo de produtor rural que pode ser beneficiado e também quanto às condições sob as quais o “financiamento” é feito.

De qualquer maneira, para os produtores que podem vender sua produção antes mesmo de plantar ou colher, estão garantindo uma renda mínima para pagar os custos de produção. No entanto, os processadores de alimentos e as tradings não gostam de comprar commodity muito tempo antes da entrega do produto físico. Isso porque estas empresas fazem transações gigantescas a toda hora e não gostam de ficar com muito investimento nas commodities seis meses antes de recebê-las. Condições do clima, conflito bélico ou mudanças nos acordos comerciais podem causar grandes impactos nos preços em bem menos de seis meses e os compradores podem ter que absorver perdas consideráveis.

É claro que o agricultor também corre riscos de não colher o suficiente para entregar o que já está vendido ou de os preços das commodities estarem mais altos no momento da entrega e, assim, correr o risco de ele ter deixado de ganhar mais dinheiro. Tudo isso faz parte das análises de risco que produtores rurais e compradores fazem a todo o momento para tomar as decisões mais assertivas.

O especulador

Desta forma, para balancear os objetivos do produtor com os objetivos dos processadores, surgiu a figura do “especulador”. Um especulador é um indivíduo ou empresa que tem uma aceitação maior com relação ao risco e atua comprando no mercado futuro dos produtores e vendendo no mercado de entrega da produção para os processadores de alimentos. Os especuladores, assim, estão assumindo riscos que, de outra forma, seriam assumidos pelos produtores rurais ou pelos processadores de alimentos. A recompensa por assumir esse risco é o lucro do especulador. Se produtores rurais ou processadores de alimentos não gostam dos especuladores, a vida de ambos seria muito mais difícil sem a figura desse negociador. As tradings também utilizam os especuladores para se protegerem de riscos, assim como agricultores e processadores de alimentos.

O mercado futuro

A venda no mercado futuro ou de contrato ocorre para as commodities que possuem alta liquidez no mercado. Soja e milho são bons exemplos disso. Para propriedades que não produzem culturas como soja e milho, as opções do mercado de contrato são menores. Muitas hortaliças e frutas, leite, cana-de-açúcar e produtos com demandas locais, por exemplo, vivem de um mercado físico. Importante mencionar que, em alguns casos, os produtos derivados destas culturas podem possuir um mercado futuro, mas não a cultura em si. O açúcar e o etanol de cana são exemplos para a cana-de-açúcar.

Na prática, o mercado futuro refere-se a um contrato que o agricultor faz antes do plantio com um comprador de sua produção, no qual ambos concordam com um preço da commodity no futuro, normalmente depois da colheita, para entrega do produto. No entanto, o produto não precisa necessariamente ser entregue. Em alguns casos, o comprador negocia o contrato com outros negociadores e eles podem ter a opção ou não de receber o valor em dinheiro ou o produto negociado. Enfim, este mecanismo de venda futura é uma garantia de preço ao agricultor, que precisa assegurar a entrega do produto, mas não precisa se preocupar com o preço.

Assim, o desafio para a maioria dos produtores rurais do mundo, que não participam deste mercado de venda antecipada e de contrato, é encontrar alternativas para financiar sua safra ou as operações dos próximos meses. As opções tradicionais através de empréstimos de bancos e fornecedores dos insumos são caras e, muitas vezes, exigem garantias que os produtores rurais não têm e, dessa forma, inviabilizam o financiamento. Às vezes, o agricultor coloca as próprias terras e benfeitorias que possui como garantia destes financiamentos. O problema é quando a safra não rende um lucro suficiente para pagar esta dívida. Neste caso, o produtor perde a propriedade ou os outros bens que foram dados como garantia.

Fonte de referencia para mais informações

Kingsman, J. 2017. Commodity conversations: An introduction to trading in agricultural commodities. ISBN-13: 9781976211546.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.