O Dia da Terra deveria ser o Dia da Colaboração

Celebramos em 22 de abril o Dia da Terra, mas deveríamos celebrar o Dia da Colaboração. Por mais que nosso planeta mereça um dia somente para ele, deveríamos considerar algo mais além da celebração. E entre todas as ações que possamos imaginar para salvar o planeta, a colaboração é a mais importante de todas.

Todos os segmentos da economia, seja a agricultura, indústria, energia, entre outros, devem colaborar mais entre seus elos para tornar o mundo mais sustentável. Isso deve ocorrer de forma constante, orgânica e abrangente. Vamos pensar na agricultura, por exemplo.

A expansão de uma agricultura mais sustentável no mundo e a produção de alimentos mais saudáveis não irão acontecer com ações isoladas de programas governamentais, ou inovações tecnológicas, ou empresas, ou mídia social, ou imprensa, ou protestos e exigências dos consumidores. A única forma de produzirmos alimentos saudáveis sem destruir o planeta é através da colaboração entre todos estes grupos. No entanto, sabemos que a simples unificação de todos não será algo fácil. Desta forma, precisamos encontrar algo que conecte todos estes grupos. Este algo é o consumidor. Afinal de contas, todos devem, ou deveriam, ter as demandas do consumidor como prioridade.

Colaboração é a solução

Assim, se o consumidor começa a exigir uma agricultura mais sustentável, a cadeia de produção de alimentos terá que atender seu principal cliente. As formas com que o consumidor pode exigir e os aspectos da cadeia de alimentos que ele irá focar são variados. De qualquer maneira, desde que o consumidor tenha acesso às informações baseadas em fatos e sem vieses de ideologias, empresas ou celebridades, ele tomará as melhores decisões.

Do lado do agricultor, o seu grande desafio é o acesso ao capital para adquirir tecnologias e conhecimento. Neste sentido, precisamos desenvolver programas, leis e iniciativas para aumentar a renda do agricultor que já esteja produzindo alimentos em condições mais sustentáveis ou que pretende mudar seu sistema de produção neste sentido. Assim, a sociedade em geral deve fazer trade-offs (trocas) para garantir a sustentabilidade da humanidade e do planeta.

Devemos e precisamos utilizar o conhecimento e as tecnologias atuais, mas precisamos mudar a forma com que valorizamos a agricultura e seus impactos na sustentabilidade. O mundo VUCA não vai deixar de existir. Aliás, com as mudanças climáticas, aumento populacional e, consequentemente, pressão sobre os produtores rurais para produzir mais alimentos, as forças do VUCA tendem a se intensificar.

Assim, acesso ao capital e tecnologias serão indispensáveis para garantirmos a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Ao mesmo tempo, consumidores precisam ter acesso às informações sobre os sistemas de produção de alimentos e sobre os produtores rurais, e os agricultores precisam ter acesso ao conhecimento para desenvolverem um sistema de produção sustentável.

A Economia Verde

Desta forma, precisamos aumentar a renda dos produtores rurais e isto deve ser feito desenvolvendo-se uma proposta de valor para a propriedade rural como um todo e não mais para os produtos individuais como é feito hoje. A proposta de valor da propriedade deve incluir os benefícios que o produtor rural possa estar gerando para as pessoas que vivem na propriedade, para as comunidades que estão inseridas nela e para o planeta. Esta proposta mais abrangente pode ser definida como uma propriedade baseada na economia verde.

A economia verde é inclusiva, de baixo carbono, limpa e eficiente. Está baseada em conceitos além dos financeiros, incluindo a colaboração, solidariedade, resiliência, oportunidade, entre outros requisitos que colocam a sustentabilidade social e ambiental em níveis similares aos da sustentabilidade econômica. As políticas de expansão da economia verde são focadas em iniciativas fiscais com proteção social e desenvolvimento sustentável. Criação de green jobs (empregos da economia verde), busca pela redução da desigualdade social e das mudanças climáticas, e melhoria do conhecimento e da capacitação da população são alguns exemplos de iniciativas promovidas pela economia verde.

A ONU publica relatórios anuais sobre a economia verde. Um deles é o PAGE-UN ou Partnership for Action on Green Economy, United Nations. Algumas das informações neste texto podem ser encontradas com mais detalhes através do link https://www.un-page.org/2018-page-annual-report/.

Cinco sugestões para o Dia da Terra

O desafio é este: como pagar pelo aumento da renda do agricultor que está comprometido com a economia verde para que ele ou ela possam ter acesso à tecnologia e conhecimento? Neste sentido, vamos descrever cinco sugestões como exemplos que podem, unilateralmente ou em combinação, fornecer uma renda superior ao produtor rural que pratica uma agricultura mais sustentável dentro da economia verde. Estas sugestões são: preço sustentável, incentivos à Bioeconomia, imposto sobre as externalidades negativas, stakeholders antes dos shareholders e leis para o longo prazo.

Não estou assumindo que estas sugestões são as únicas ou que deveriam ser implementadas. Meu objetivo em descrevê-las é exemplificar opções que podemos analisar e desenvolver para aumentar a renda do produtor rural comprometido com a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Imaginando que estas cinco sugestões fossem colocadas em prática, elas impactariam o bolso dos consumidores, dos produtores rurais e de outros integrantes da cadeia de produção de alimentos e das empresas. Ou seja, todos seríamos impactados de uma forma ou de outra. Deixei o poder público de fora porque os governos não possuem mais recursos extras para subsídios ou assistencialismos. Seria um risco muito grande deixarmos a transformação do modelo atual de produção de alimentos somente nas mãos dos governos. Objetivos de curto prazo e segmentados para os grupos que governam os países impendem que estes sejam responsáveis por nos conduzir a uma economia verde.

Assim, nós, consumidores, produtores rurais, contribuintes e empresas precisamos alocar uma parte maior de nossas rendas para viabilizar uma agricultura mais sustentável, caso contrário, a conta que teremos para o futuro será muito maior, pois teremos que suportar um sistema de saúde com mais pessoas doentes e desnutridas e mitigar os problemas climáticos crescentes que impactam, inclusive, a sobrevivência da espécie humana. Ou começamos a pagar um pouco mais agora, ou não vamos conseguir pagar a conta depois. Ou seja, precisamos ajustar o sistema do prato meio cheio da agricultura atual, agora, para reduzir seus impactos negativos do prato meio vazio agora. O desafio é que, a cada dia que passa, o ajuste terá que ser maior. Para os governos, fica a responsabilidade de viabilizar e modernizar as leis, para que a sociedade possa migrar para um mundo mais sustentável.

A maior pegada, paga mais

Por fim, este aumento na proporção da renda destinada à alimentação acabará recaindo sobre as populações dos países ricos e populações mais ricas dos países em desenvolvimento. Isto porque a maior parte dos custos extras para financiar uma agricultura mais sustentável será sobre aqueles que produzem mais carbono, consomem mais água e destroem mais a biodiversidade.

E os cidadãos do mundo sujeitos a maiores impactos no meio ambiente são os que usam mais os carros, possuem as maiores casas, viajam mais, consomem mais proteína animal e utilizam mais bens e serviços. Ou seja, cada cidadão irá pagar pela sua pegada do carbono, da água, da biodiversidade, do ar e assim por diante. Desta forma, as classes mais ricas do mundo pagarão mais pelos impactos que causam ao planeta.

Por outro lado, pessoas que vivem em países em desenvolvimento ou pobres, ou as populações com menor renda dos países ricos não possuem casas grandes, não consomem tanta energia ou água, não viajam tanto e nem possuem uma dieta rica em proteína animal.

No próximo texto deste blog, vamos detalhar as cinco sugestões preço sustentável, incentivos à Bioeconomia, imposto sobre as externalidades negativas, stakeholders antes dos shareholders e leis para o longo prazo.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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