O comercio local de alimentos é crítico para a sustentabilidade social

Um dos grandes desafios dos proprietários de pequenas propriedades é o acesso às informações técnicas e comerciais para tornar suas propriedades sustentáveis econômica e ambientalmente. A questão da transferência de conhecimento para estes pequenos agricultores sem viés ideológico ou político é essencial para a sobrevivência deles.

O governo não tem mais condições de ser o único responsável por esta transferência de conhecimento, mas deve continuar e talvez expandir algumas das iniciativas que, no passado, deram certo como as agências estaduais de extensão rural. Além disso, os trabalhos feitos por associações de agricultores com, ou sem o suporte de ONGs e empresas, também têm sido críticos para assegurar a sustentabilidade de suas propriedades. Exemplos como o da Rede Ecovida e das CSAs (Community Supported Agriculture) nos EUA e no Brasil devem ser expandidos e incentivados.

Tanto a Rede Ecovida como a CSA dependem muito do envolvimento dos consumidores nestes programas, sejam eles consumidores finais ou propriedades de mercados ou restaurantes locais. De qualquer maneira, estes programas não conseguem sobreviver sem o engajamento dos consumidores.

No momento atual de revolução da Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC), abrem-se grandes oportunidades para startups desenvolverem ferramentas ou modelos de negócios que auxiliem na expansão de redes como a Ecovida e o CSA e criação de muitas mais, mesmo em um nível local. Aqui precisamos fazer um apelo também a empresas e ONGs que incentivem e criem mecanismos para que os pequenos agricultores se tornem melhores na gestão econômica e ambiental de suas propriedades com educação financeira e tecnológica.

O papel social do agro

As pequenas propriedades rurais têm um papel crucial para a manutenção e desenvolvimento das comunidades rurais e para a alimentação da humanidade. Assim, todos os produtores rurais precisam evoluir em seus sistemas de produção e comercialização para atingir os objetivos de sustentabilidade econômica da propriedade e, com isso, viabilizar a sustentabilidade social e, por fim, a ambiental. As pequenas propriedades geram emprego e renda, produzindo uma grande diversidade de alimentos. Por isso, a manutenção destas pequenas propriedades é tão essencial quanto os incentivos às grandes propriedades e sua proteção.

Na Ásia e na África existem em torno de 500 milhões de pequenas propriedades com menos de 2 hectares fornecendo condições de vida para 2 bilhões de pessoas, mais ou menos. A atividade agrícola em geral representa quase um terço do PIB e dois terços da fonte de renda nos países em desenvolvimento. Para continuar gerando esta riqueza no campo de uma forma sustentável e garantido alimentação a bilhões de pessoas no mundo, estes agricultores precisam investir em inovação e conhecimento, além de ter acesso ao capital, principalmente por meios do mercado, e não esperar que o governo resolva estes problemas.

A forma com que as comunidades buscam a sustentabilidade econômica de seus membros é utilizando modelos de venda direta aos consumidores, em feiras ou cooperativas. Neste sentido, as CSAs e a Rede Ecovida são bons exemplos deste modelo de comercialização. A Rede Ecovida é um exemplo de programa articulado por agricultores junto com cooperativas e ONGs para a produção, processamento, comercialização e consumo de alimentos ecológicos.

As exigências para comercialização de produtos nesta rede são a produção sustentável com o selo da Rede Ecovida, incentivos às trocas ou comércio dentro da rede e a precificação dos produtos feita para recompensar o adicional dos agricultores ao produzirem em condições sustentáveis, mas sem elitizar a compra dos produtos com preços muito altos para o consumidor.

Já as CSAs são comunidades de produtores rurais e consumidores locais que se comprometem em manter um relacionamento comercial por um determinado período de tempo, sendo este renovado em acordo de ambas as partes. O foco destas comunidades vai além da simples transação comercial entre produtor e consumidor. As CSAs buscam educar consumidores e a comunidade em geral sobre os processos de produção de alimentos, por meio de uma política de transparência, em que consumidores têm acesso às propriedades rurais.

Por outro lado, consumidores também têm a oportunidade de influenciar os processos produtivos das propriedades rurais e aprender mais sobre os sistemas de produção de alimentos em geral. Por fim, ambos os produtores e consumidores acreditam que a produção e comercialização de alimentos devem ser locais e todos buscam formas de proteção desse mercado contra produtos oriundos de fora das comunidades.

Fair trading = mercado justo

CSAs e a Rede Ecovida são bons exemplos de mudanças na cultura da alimentação saudável e sustentável por reunirem iniciativas de sustentabilidade econômica, social e ambiental mais completas do que simplesmente focar em sistemas de produção. Do ponto de vista econômico e social, ambos os programas incentivam o “fair trading”, ou seja, a comercialização justa entre produtores e consumidores. O comércio justo é definido como uma relação comercial baseada na comunicação e confiança entre os negociadores, visando a uma equidade no negócio. O comércio justo ajuda no desenvolvimento sustentável por promover a sustentabilidade econômica e social.

Do ponto de vista ambiental, além da busca por produção de alimentos de forma mais sustentável, os CSAs e a Rede também incentivam o consumo local, ou o “local food movement”. O movimento de consumo de alimentos produzidos localmente vem crescendo em vários países e é baseado na premissa de quanto menor for a distância entre o local de produção até o local de consumo de um alimento, mais sustentável ambientalmente é este alimento. Não existe um consenso para a definição da distância máxima para ser considerado sustentável. Esta distância pode ser considerada como 100 milhas ou 160 km, ou ainda ser variável, ou seja, ter um valor de quanto maior, torna-se pior.

Assim, pode-se definir o nível de sustentabilidade de um alimento pelo seu “food miles” ou distância do alimento. Este conceito pode ser um indicador da pegada do carbono de um alimento, ou seja, de quanto gás de efeito estufa (GEE) foi emitido para o alimento percorrer do campo à mesa. Todavia, mesmo que a menor distância indique um alimento mais sustentável, isso não pode ser assegurado, já que o sistema de produção do mesmo também precisa ser avaliado.

As comunidades rurais garantem o convívio de bilhões de pessoas no mundo, além de propiciar as condições para que pequenos agricultores continuem a alimentar grande parte da humanidade. Estas comunidades são responsáveis pela conservação da cultura em muitas regiões do mundo, além de dar condições econômicas para produtores rurais fazerem a gestão de suas propriedades em tempos de flutuação de preços e mudanças nos cenários do mercado internacional, assim como nos hábitos alimentares.

Desta forma, precisamos continuar os esforços para a manutenção das comunidades rurais como estes do CSA e Ecovida e pensar em outras opções, tanto através de empresas consolidadas, como startups, cooperativas e ONGs, quanto por meio de indivíduos que vivem em comunidades rurais no mundo todo. No entanto, sem o suporte dos consumidores, todos estes esforços não serão o suficiente.

Referências

Ciolos, D., Piebalgs, A. 2012. Uma agricultura sustentável para o futuro a que aspiramos. Comissão Europeia para o Desenvolvimento e Cooperação, Comissão Europeia para Agricultura e Desenvolvimento Rural.

Coelho, F.C., Coelho, E.M., Egerer, M. 2018. Local food: benefits and failings due to modern agriculture. Sci. Agric. v.75, n.1, p.84-94, January/February 2018.

Henderson, E. 2007. Sharing the harvest: A citizen´s guide to Community Supported Agriculture. Chelsea Green Publishing Company. White River Junction, Vermont, USA.

Magnanti, N.J. 2008. Circuito Sul de circulação de alimentos da Rede Ecovida de Agroecologia. Revista Agriculturas: experiências em agroecologia: AS-PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa, v. 5, n. 2, p. 26-29, jun. 2008. – Citado em Santos et al. 2009.

Meirelles, L. 2004. Soberania alimentar, agroecologia e mercados locais. Revista Agriculturas: experiências em agroecologia: AS-PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa, v. 1, n. 0, p. 11-14, set. 2004. WFTO. 2009. World Fair Trade Organization. What is Fair Trade?

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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