O mundo terá em torno de 9,7 bilhões de pessoas em 2050 e será preciso aumentar a produção mundial de alimentos em torno de 60% para alimentar satisfatoriamente a todos. A população em 2019 é de 7,7 bilhões e a diferença para 9,7 bilhões é de pouco mais de 30%. Estes números levantam duas questões críticas sobre a alimentação humana. A primeira é: por que precisamos aumentar em 60% a produção de alimentos até 2050, sendo que a população vai aumentar em 30% apenas? A segunda é: como vamos produzir 60% a mais de alimentos, comparado com o que produzimos hoje? As respostas de ambas as perguntas estão relacionadas e geram outras questões sobre a produção e consumo de alimentos hoje e no futuro.

Então, por que teremos que aumentar em 60% a produção de alimentos e não em apenas 30%? Por um lado, isto se deve à provável melhoria da renda geral da população mundial nas próximas décadas, principalmente dos países em desenvolvimento. Maior renda resultará em dieta de melhor qualidade com maior consumo de proteína animal, melhores condições de saneamento básico e saúde, tratamentos mais eficazes contra doenças graves como câncer e demência, resultando, assim, num aumento da expectativa de vida da população mundial.

A fome é um problema que não podemos ignorar

Por outro lado, atualmente 40% da população mundial sofrem de alguma forma de desnutrição e, assim, parte do aumento da produção de alimentos é para saciar a fome ou melhorar a qualidade na alimentação de milhões de pessoas nas próximas décadas. Hoje já existem 821 milhões de pessoas passando fome, 1,9 bilhão estão com sobrepeso e dois bilhões de pessoas com deficiência em vitaminas e micronutrientes. Estas três formas de desnutrição (fome, sobrepeso e deficiência de nutrientes) atingem em torno de três bilhões de pessoas, já que a mesma pessoa pode ter uma ou mais formas de desnutrição.

Ou seja, em torno de quatro em dez habitantes do mundo sofrem de alguma forma de desnutrição. Se hoje somos incapazes de nutrir satisfatoriamente 100% da população mundial, como esperamos alimentar com qualidade mais dois bilhões em 2050? Desta forma, precisaremos aumentar a produção de alimentos em 60%, devido à melhoria de renda da população em geral e para diminuir ou acabar com os altos índices de desnutrição que atingem parte considerável da humanidade.

A cadeia de produção de alimentos no mundo produz 2.904 kcal por dia por habitante. Ou seja, cada um dos 7,7 bilhões de habitantes no mundo poderia estar recebendo quase 50% a mais das 2.000 kcal necessárias por dia. Com relação à fome, é importante lembrar que, apesar de produzirmos alimentos suficientes para todos, em muitas regiões do mundo este alimento não chega devido a problemas econômicos, sociais, políticos, étnicos, bélicos, entre outros. Além disso, muitos alimentos são perecíveis e a conservação e transporte dos mesmos é um problema, principalmente em países em desenvolvimento.

A causa está no acesso e não na produção

Assim, o sistema atual de produção de alimentos consegue produzir quantidades para alimentar toda a humanidade, mas a causa de ainda existir fome no mundo está na dificuldade de acesso aos alimentos por parte da população. No entanto, mesmo produzindo quantidades suficientes de alimentos, isto é, o prato meio cheio, o sistema atual tem causado grandes impactos na sustentabilidade da humanidade e do planeta, isto é, o prato meio vazio.

Desta forma, precisamos mudar alguns aspectos do modelo atual de produção de alimentos para continuar a aumentar as quantidades, mas de forma mais sustentável. E, assim, conseguiremos prover alimentos para dois bilhões de pessoas a mais nas próximas três décadas e assegurar a continuidade da humanidade e do planeta.

Produção sustentável e alimentos saudáveis

O desafio de nossa geração é assegurar uma alimentação saudável a todos através de uma cadeia de produção mais sustentável. Precisamos melhorar o acesso e a qualidade da alimentação atual. Ao mesmo tempo, precisamos mudar a cadeia de produção de alimentos para que seja mais sustentável econômica, social e ambientalmente. Atualmente, o modelo de produção de alimentos causa impacto econômico negativo nas propriedades com restrição a capital e tecnologias.

A consequência disto são impactos sociais nas comunidades, pelo êxodo rural e baixa qualidade dos serviços básicos disponíveis. Por fim, o modelo atual de produção de alimentos também causa impactos ambientais no planeta, pelo abuso no consumo de recursos naturais não renováveis, destruição da biodiversidade e contaminação de vários sistemas naturais. Desta forma, o sistema de produção e consumo de alimentos atuais precisa melhorar para tornar a produção de alimentos mais sustentável e a alimentação mais saudável. Esta é a parte do prato meio vazio que a nossa geração precisa encher!

Fontes de informações para o artigo

Beaudreault, A.M., 2019. Nutrition and Prosperity at Center for Strategic and International Studies. https://www.csis.org/features/nutrition-prosperity Acesso em 12/08/2019.

Coltro L, Karaski, T.U. 2014. Interdependência: alimentos e sustentabilidade. In: Sustentabilidade e sustentação da produção de alimentos no Brasil: Consumo de alimentos: implicações para a produção agropecuária – Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, v.3.

Elferink, M., Schierhorn, F., 2016. Global Demand for Food Is Rising. Can We Meet It? Harvard Business Review.

FAO 2018. World food and agriculture – statistical pocketbook 2018. Rome. 254 pp. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.

OECD/FAO 2019. OECD-FAO Agricultural Outlook 2019-2028, OECD Publishing, Paris/Food and Agriculture Organization of the United Nations, Rome.

Searchinger, T. Waite, R., Hanson, C., Ranganathan, J. 2018. Creating a sustainable food future. World Resources Institute. Washington, DC, USA. UN 2019B. World Population Prospects 2019: Highlights. United Nations, Department of Economic and Social Affairs. Publicado em 17/06/2019.  https://www.un.org/development/desa/publications/world-population-prospects-2019-highlights.html. Acesso em 24/01/2020.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.