Assim como a existência do mercado de futuro de commodities e a figura do especulador não são bem-entendidas pelo público em geral, também existe muito questionamento sobre a necessidade de um mercado regional, nacional ou até mesmo internacional de alimentos.

O mercado nacional ou internacional de commodities agrícolas existe para ajustar os desequilíbrios entre regiões ou países produtores que possuem uma commodity específica em excesso e as regiões ou países consumidores que não conseguem produzir o suficiente desta commodity. No caso de soja, existem três países (EUA, Brasil e Argentina) produtores que são grandes exportadores para atender a demanda crescente da China, por exemplo, que, apesar de também ser um grande produtor de soja, é hoje o maior importador desta leguminosa ou de seus derivados. Assim, o mercado procura balancear estes desequilíbrios inerentes a certas commodities e a certas regiões.

Os benefícios do mercado internacional

Além de dar condições aos habitantes dos países compradores de usufruírem dos benefícios das commodities que seus países não produzem o suficiente ou não têm, o mercado também proporciona condições para que cada país ou região aprimore suas competências no que consegue fazer de melhor. Isso quer dizer que os países produtores conseguem, com o tempo, se tornar mais eficientes, proporcionando a venda das commodities mais baratas em alguns casos, ou oferecendo volumes maiores em outros, ou ambos. O benefício do mercado internacional para o país comprador é de não perder recursos financeiros ou humanos para tentar produzir ou ser autossuficiente em algo que o ambiente, clima, solo, ou posição geográfica no globo não o favorecem.

E, assim, este país ou região pode focar naquilo que é muito bom e/ou que a natureza lhe deu em abundância. De certa forma, o mercado atua como um acelerador do que cada país sabe fazer de melhor. Alguns exemplos deste fluxo de mercadorias de países produtores para consumidores incluem o trigo do Canadá e Rússia sendo exportado para a Ásia, o açúcar do Brasil sendo exportado para a Europa, vinhos argentinos ou chilenos sendo exportados para outros países das Américas, carne bovina e suco de laranja brasileiros sendo exportados para o Oriente Médio e Ásia.

As tradings

E a pergunta seguinte é: quem coordena este mercado? O mercado em si é coordenado pelo preço das commodities, o qual é impactado por condições de clima, oferta e demanda, e acordos comerciais entre países e blocos de países. Os agentes que implementam o mercado são conhecidos como tradings. Essas empresas compram os produtos dos mercados produtores, transportam via navio, trens, caminhões e aviões, e vendem nos mercados compradores.

O grande desafio das tradings é evitar que o produto chegue ao país consumidor em condições de preço inferior ao que a trading pagou no mercado produtor. Para se proteger contra isso, as tradings procuram ao máximo que podem vender seu produto no mercado consumidor, ao mesmo tempo em que compram no mercado produtor.

Os brokers

Em certas circunstâncias, especialmente para mercados municipais ou regionais onde não temos contratos futuros e as negociações são regidas por entregas físicas de produtos, as tradings não são tão importantes. Nestes casos, temos a figura do broker, um agente que coloca um vendedor e um comprador em contato e, quando o negócio é fechado e concretizado, o broker recebe uma comissão. A figura do broker também não é essencial se o produtor/vendedor já conhece ou comercializa com um consumidor/comprador.

Assim, tanto as tradings quanto os brokers são importantes para a comercialização e movimentação dos alimentos entre países produtores e consumidores, além do armazenamento, que seria impossível para os agricultores fazerem por seus meios. O mercado internacional de alimentos fortalece regiões produtoras com alta eficiência produtiva, enquanto suporta a sobrevivência das populações de países com baixa eficiência na produção de alguns alimentos.

Neste sentido, Canadá, Argentina e Austrália conseguem exportar mais de 50% das calorias produzidas, enquanto a Arábia Saudita, Iraque e Venezuela produzem menos de 50% das calorias que consomem. Ou seja, sem o mercado internacional de alimentos, estes e vários outros países no mundo teriam sérios problemas de segurança alimentar.

Fontes de informação do artigo

Kingsman, J. 2017. Commodity conversations: An introduction to trading in agricultural commodities. ISBN-13: 9781976211546.

Nogueira, P. 2018. O paradoxo da fome. Scientific American Brasil – Dossiê Alimentos. 2: Pg 10-13.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.