Inovação tecnológica para impulsionar a agricultura sustentável

A remedição e/ou mitigação dos impactos do capital e da tecnologia na sustentabilidade econômica de uma propriedade rural pode estar no aumento da qualidade dos alimentos produzidos especialmente em propriedades rurais menores. Este aumento de qualidade pode ser alcançado através da exploração de mercados de nicho, como o gourmet, orgânicos, local, certificados de origem, turismo rural, entre outros, e com venda direta ao consumidor.

No caso da maior especialização e qualificação da mão de obra, as propriedades rurais precisam explorar mais os conceitos de uma agricultura mais sustentável focados principalmente na diversificação da atividade agrícola. Com tudo isso e com a ajuda das novas tecnologias da revolução de TIC, além da tendência de um consumidor mais consciente sobre sua alimentação, espera-se que os produtores rurais consigam aumentar a renda de suas propriedades e diminuir, parar ou até mesmo reverter parte da concentração de renda que está em curso no campo.

Nos últimos dois artigos deste blog, vimos como a produção de alimentos pode impactar a sustentabilidade econômica. Agora vamos entender nas próximas três publicações como produtores e consumidores de alimentos podem minimizar esses impactos. Para isso, vamos focar nas formas que todas as propriedades rurais – pequenas ou grandes, de commodities ou produtos gourmet, turismo rural ou conservacionismo, próximas ou distantes dos centros consumidores –, poderiam utilizar para aumentar as chances de serem sustentáveis economicamente.

Estas propostas incluem inovação tecnológica para impulsionar a agricultura sustentável, organização entre agricultores para assegurar demanda por seus produtos, oferta de preço sustentável, como o preço mínimo e aumento da transparência para o consumidor final. Acredito que existem muitas outras formas de aumentar o valor agregado das propriedades rurais, mas todas elas passam por algum tipo de aproximação do consumidor final com a realidade do produtor rural.

As tecnologias como aliadas da sustentabilidade

As tecnologias em geral podem e devem auxiliar a produção de alimentos não escaláveis e não somente de alimentos escaláveis. Entre estas tecnologias, estamos falando de algo mais do que os tradicionais fertilizantes e defensivos químicos, sementes com genética superior e ou Biotecnologia, máquinas e equipamentos modernos. Tecnologias, aqui, incluem produção de energias renováveis, principalmente solar e eólica; agricultura de precisão para aumentar a eficiência dos recursos naturais e insumos, e todos os componentes da revolução TIC, além das novas ferramentas da Engenharia Genética como a CRISPR e RNAi. E os proprietários de todos os tamanhos de propriedades devem buscar, entender, e, se possível, viabilizar a adoção destas tecnologias. Todos precisam estar cientes de que a produção de alimentos de forma mais sustentável não significa um retorno romântico a tecnologias “primitivas”.

Uma propriedade rural com sistema orgânico ou qualquer outro sistema alternativo de produção de alimentos deve investir em conhecimento e tecnologias. Apesar de os agricultores e defensores da agricultura orgânica, por exemplo, pregarem que as práticas desse sistema de produção de alimentos são mais benéficas para a sustentabilidade em geral do que as práticas da agricultura convencional, em alguns componentes de produção agrícola não percebemos estas vantagens.

As condições dos solos, por exemplo, podem ser piores sob a agricultura orgânica do que sob a convencional. O motivo é que o manejo dos solos nos sistemas orgânicos é feito com a produção vegetal do próprio solo e da adição de esterco e outras fontes de matéria orgânica encontradas na propriedade rural. No entanto, em muitas propriedades, existe limitação de fontes vegetais e não vegetais de matéria orgânica e, essa limitação, aliada a um estado natural de pobreza de nutrientes do solo, principalmente em condições tropicais, pode resultar em contínuas baixas produtividades.

Lembrem-se, as plantas extraem nutrientes para crescer, produzir matéria vegetal, flores e frutos. Ou seja, de uma forma ou de outra, existe a necessidade de contínua reposição de nutrientes no solo. Assim, uma adoção maior de tecnologias para aumento da fertilidade do solo na produção orgânica poderia expandir o leque de oportunidades, para que este sistema aumentasse sua contribuição na alimentação da humanidade.

Cada região produtora tem suas particularidades

As condições de manejo de pragas, doenças, plantas daninhas, estrutura de solo e conservação de água, assim como as espécies de plantas ou animais que os agricultores gostariam de produzir dependem muito das condições ambientais e climáticas de cada região. Estas condições impactam a viabilidade econômica de um sistema alternativo de produção de alimentos.

Por exemplo, a produção orgânica em climas secos, como o da Califórnia, regiões do Mediterrâneo e Austrália é mais favorável por exigir menos defensivos químicos, já que não existem tantas pragas como em regiões de clima mais úmido. Por sua vez, em condições não tão propícias, a agricultura orgânica também traz benefícios, mas sua implantação é mais complexa. Na região de Karnataka, na Índia, o sistema orgânico melhorou a renda dos agricultores, reduziu a probabilidade de perdas sob condições adversas e os impactos ambientais. No entanto, as práticas do sistema de produção orgânico deixam a desejar na conservação ou aumento dos níveis de fertilidade de nitrogênio. Esse, aliás, é um dos principais desafios para a expansão e aumento de produtividade desse sistema de produção: a baixa fertilidade do solo.

Por esta dependência das condições ambientais e limitações no uso de tecnologias, a agricultura orgânica ocupa apenas 1% dos 1,5 bilhão de hectares no mundo destinados à produção de alimentos. Isso quer dizer que a importância da agricultura orgânica reside muito mais na sua característica de sustentabilidade do que na sua capacidade de impactar a alimentação da humanidade, comparada à agricultura convencional. Isso, com certeza, não significa que a agricultura orgânica não pode impactar mais ainda a cadeia de produção de alimentos, mas é importante deixar claro que hoje ela atinge apenas uma pequeníssima parcela de consumidores, que, em sua quase totalidade, estão nos países mais ricos ou são as classes mais ricas dos países em desenvolvimento e mais pobres.

A agricultura sustentável depende de tecnologias

Assim, a adoção de técnicas e gestão de agricultura mais sustentável é a principal alternativa para a sustentabilidade econômica de pequenas e médias propriedades rurais, desde que combinadas com inovação tecnológica. Por outro lado, a agricultura sustentável também está sendo adotada em grandes propriedades rurais. Neste caso, são as novas tecnologias da agricultura de precisão que têm mostrado para os proprietários de grandes propriedades que pilares da agricultura sustentável trazem tanto lucro e sustentabilidade para seus negócios quanto a utilização de insumos tradicionais como agroquímicos e fertilizantes ou máquinas e equipamentos.

Ou seja, as tecnologias podem ser usadas para impulsionar a produção e aumentar as chances de pequenas e médias propriedades de agricultura orgânica se tornarem sustentáveis economicamente, ao mesmo tempo em que estas mesmas tecnologias mostram para os grandes proprietários que a agricultura sustentável pode ser lucrativa.

Na realidade, as inovações tecnológicas têm potencial de ajudar as propriedades com sistemas mais agroecológicos tanto quanto as convencionais. Isso porque os sistemas agroecológicos são mais complexos do que um sistema de monocultura, por exemplo. Assim, impedir ou minimizar a importância das tecnologias em sistemas de produção alternativos, como o orgânico, é uma das causas de este sistema contribuir com tão pouco para a alimentação da humanidade. Isso é ainda mais crítico no momento de transição do sistema de monocultura para um sistema mais diverso de produção agroecológica, tendo em vista que, durante esta transição, a propriedade pode ter redução de produtividade e renda. Desta forma, o período de transição para cada nível mais complexo de produção sustentável pode se alongar por anos, ou indefinidamente, se os proprietários não conseguirem assegurar uma renda extra para a transição.

A volta as origens salvou o chocolate

Um exemplo de cultura que migrou para um sistema de produção mais agroecológico com melhorias na sustentabilidade ambiental, mas possui grandes desafios na sustentabilidade econômica das propriedades é o cacau no Sul da Bahia. Neste caso, a produção agrícola através de sistemas mais sustentáveis é o único meio para a produção de alimentos. A produção de cacau no Sul da Bahia, em sistemas convencionais, durou até o início dos anos 1990, sendo a principal fonte de renda da região. No entanto, após a chegada da vassoura de bruxa, queda do preço internacional do cacau e uma sequência de estiagens, o sistema vigente faliu e a maioria das propriedades rurais entrou em decadência.

Para viabilizar a produção de cacau novamente e recuperar a economia regional, um novo sistema de produção de cacau foi desenvolvido para a região, baseado nas condições mais próximas possíveis dos sistemas de produção naturais da região amazônica, ponto de origem do cacau. A este sistema de produção deu-se o nome de “cabruca”, que vem de cabrocar, o qual significa ceifar ou roçar. Na prática, o cultivo de cacau ocorre sob a floresta, e os produtores rurais aprendem a desenvolver o sistema para evitar perdas pela vassoura de bruxa e estiagens e, ao mesmo tempo, aumentar a produção ao máximo.

Estive visitando a região Sul da Bahia, ao redor de Ilhéus, para conhecer melhor o sistema de produção do cacau em geral, a manufatura do chocolate, a economia e a sociedade local. O sistema cabruca tem diminuído consideravelmente os problemas da vassoura de bruxa e retomado parcialmente os níveis de produção pré-crise, mas a região ainda não se recuperou completamente na área econômica.

Um dos principais motivos é a baixa produtividade do cacau sob o sistema cabruca, quase inviabilizando economicamente as pequenas propriedades. Desta forma, grandes produtores conseguem sobreviver e expandir suas operações diante do sistema atual de produção devido à escala, mas os pequenos e médios possuem muitas dificuldades. Para estes últimos, resta agregar outras fontes de renda à propriedade como produção de outros alimentos, manufatura de chocolate na propriedade ou até mesmo turismo rural.

Assim, conheci alguns proprietários rurais que conseguem sobreviver, mas precisam explorar ao máximo todas as oportunidades na cadeia do chocolate, desde a produção do cacau, cursos e até a venda do chocolate pronto para turistas na própria propriedade. Até agora a melhoria agroecológica tem beneficiado mais os grandes produtores. Assim, será que uma adoção maior de tecnologia também não viabilizaria a sustentabilidade econômica das pequenas propriedades?

A limitação ao acesso as tecnologias pode ser politica

E por que temos tanta dificuldade de simplesmente adotar tecnologias para viabilizar a sustentabilidade econômica de uma propriedade, sem comprometer o caráter agroecológico da mesma? As tecnologias e os insumos agrícolas mudaram muito desde o início da revolução verde no pós-guerra, mas por que as exigências continuam as mesmas? Por exemplo, até que ponto a questão de produção sem tecnologias está associada a questões ideológicas de alguns defensores da agroecologia?

O uso da política na agricultura e alimentação não é algo novo. Por séculos a alimentação e a posse dos meios de produção têm sido alvo de disputas internas e externas entre países. Ultimamente, uma das maiores questões envolvendo interesses políticos e adoção de tecnologias tem sido vista na África. O continente passa por várias crises de insegurança alimentar em diversos países, mas nem isso é suficiente para sensibilizar os europeus, que ainda possuem uma forte influência na África e continuam dificultando a adoção de tecnologias neste continente.

Exemplo disso é a quase ausência de Biotecnologia no sistema de produção agrícola da África, o que é influenciado pela mesma política restritiva que os europeus usam em seu próprio continente. A diferença entre os dois continentes, no entanto, é óbvia. A população europeia não vive em constante ameaça de insegurança alimentar como a africana, a qual seria muito beneficiada se já houvesse adotado as mais avançadas tecnologias para produção de alimentos.

Dados para esse artigo e outras informações sobre alternativas para minimizar os impactos da agricultura na produção de alimentos pode ser encontrados nas fontes abaixo:

  1. Lambin. E.F., Meyfroidt, P. 2011. Global land use change, economic globalization, and the looming land scarcity. PNAS, vol. 108, no 9.
  2. Leifeld, J. 2012. How sustainable is organic farming? Agriculture, Ecosystems & Environment Volume 150, 15 March 2012, Pages 121-122.
  3. Mascarenhas, G. C. C. et al. 1999. O cluster do cacau no Sul da Bahia. In HAD- DAD, P. R. A competitividade do agronegócio e o desenvolvimento regional no Brasil: estudos de clusters. Brasília, CNPq, 1999, 265 p.
  4. Paarlberg, R. 2008. Starved for Science: how biotechnology is being kept out of Africa. Harvard University Press, Cambridge, MA, USA.
  5. Patil, S., Reidsma, P., Shah, P., Purushothaman, S., Wolf, J. 2014. Comparing conventional and organic agriculture in Karnataka, India: Where and when can organic farming be sustainable? Land Use Policy. Volume 37, March 2014, Pages 40-51.
  6. Seufert, V., Ramankutty, N., Mayerhofer, T., 2017. What is this thing called organic? – How organic farming is codified in regulations. Food Policy. Volume 68, April 2017, Pages 10-20.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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