Impactos da agricultura na sustentabilidade econômica

A agricultura moderna tem alimentado a humanidade e proporcionado a expansão da população. No entanto, isso não tem sido alcançado sem impactos econômicos, sociais e ambientas. O grande desafio da geração atual é continuar aumentando a produção de alimentos ao mesmo tempo que precisa preservar, ou até regenerar, o planeta. Desta forma, vamos deixar um planeta viável para as próximas gerações e sendo, realmente, sustentáveis.

Nos próximos artigos, vamos descrever alguns dos impactos da agricultura na sustentabilidade econômica e as alternativas para melhorar os efeitos da produção de alimentos na realidade econômica dos agricultores.

A sustentabilidade econômica de uma propriedade é crítica para que os filhos dos agricultores atuais tenham a oportunidade de viver plenamente na mesma propriedade, podendo criar seus filhos e outros membros das futuras gerações. Isso significa que a propriedade deve oferecer as condições básicas para que os proprietários atuais e seus filhos possam satisfazer suas necessidades como alimentos, água, abrigo e segurança.

Além disso, a propriedade deve gerar renda financeira o suficiente para fornecer acesso a educação, saúde e a condições de satisfação pessoal, como convívio social, desenvolvimento pessoal e profissional. Dependendo do tamanho operacional da propriedade, ela precisa satisfazer as necessidades acima citadas dos funcionários que nela vivem e/ou trabalham também.

Desta forma, seja a propriedade pequena, média ou grande, ela precisa crescer, otimizar seus recursos e melhorar a eficiência. A falta de entendimento deste fato faz com que milhares de produtores rurais percam suas propriedades anualmente no mundo. Assim, a busca pela sustentabilidade econômica de uma propriedade é a base para uma agricultura sustentável, sem vieses ideológicos.

No entanto, a agricultura moderna baseada no capital e tecnologias tem causado vários impactos na sustentabilidade econômica de uma propriedade rural. Entre esses estão o aumento da produtividade e produção, aumento do tamanho da propriedade, intensificação do uso de tecnologias, redução e especialização da mão de obra, redução no preço das commodities pagos aos produtores rurais e, por fim, aumento da concentração de renda no campo.

Neste artigo e no próximo vamos analisar apenas três destes impactos, por questão de complexidade de cada assunto. Acredito que estes três tópicos, aumento da produtividade e produção, redução de preços e concentração de renda no campo, estão entre os impactos mais marcantes da agricultura moderna na sobrevivência de uma propriedade rural.

Aumento da produtividade e produção de alimentos

A adoção das melhores tecnologias em vários níveis da produção é fundamental para o aumento da produtividade. Na verdade, a taxa de aumento da produção de alimentos tem sido maior do que a taxa do aumento da população global. Por exemplo, desde 1960 a população global dobrou de tamanho, enquanto a produção de alimentos triplicou. E mais importante, mesmo aumentando a produção de alimentos em 300% nas últimas sete décadas, o aumento de terras incorporadas à produção de alimentos foi de apenas 10%. E a expectativa para os próximos 10 anos é de um aumento de 14% na produção de alimentos, sem incorporação significativa de novas áreas para agricultura no mesmo período. No Brasil, o aumento da produção de grãos foi ainda mais impressionante, em torno de oito vezes entre 1970 e 2013.

O desafio do aumento da produtividade como visto nos capítulos anteriores refere-se aos recursos financeiros para adquirir estas novas tecnologias. No Brasil, a maior disponibilidade de capital para o financiamento das safras e das melhorias tecnológicas das propriedades teve início a partir da onda de desregulamentação do mercado brasileiro, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

O Brasil acompanhava um movimento similar nos EUA e Reino Unido e, desta forma, a agricultura começou um período de financeirização do crédito agrícola. Bancos, tradings, fundos de pensão, fundos de investimentos, hedge funds e empresas de insumos e máquinas começaram a fomentar o mercado de derivativos agrícolas, chegando a mais de duas dezenas de vezes o valor físico do mercado de commodities agrícolas. Apesar de a financeirização ter aumentado a oferta de capital e liquidez na agricultura, ela também aumentou a volatilidade, já que o mercado de commodities começa a ficar mais relacionado com o mercado financeiro geral. Ou seja, a cada movimentação positiva ou negativa do mercado financeiro, o mercado agrícola também acompanha esta oscilação, mesmo não fazendo sentido do ponto de vista do mercado físico.

Redução nos preços das commodities pagos aos produtores rurais

Os preços de commodities agrícolas vêm diminuindo nas últimas décadas como resultado do aumento contínuo da produção de alimentos no mundo. Apesar de termos presenciado um aumento considerável dos preços alimentos este ano, muito influenciado pela aspectos econômicos da pandemia do novo Corona virus, os preços têm caído ao longo das décadas. Nos últimos cinco anos do período pré-pandemia, os preços dos alimentos chegaram a cair 50%. Além disso, apesar de a demanda por commodities seguir aumentando nos próximos anos, seu preço médio tende a continuar caindo. A média esperada de queda é entre 1% e 2% ao ano nos próximos 10 anos. No Brasil, uma família gastava 34% de sua renda em alimentos em 1975, mas esta porcentagem diminuiu para 16% em 2009. Esta tendência se repete na maior parte do mundo.

Esta estabilidade nos preços das commodities ocorre principalmente pelo sucesso do aumento da produtividade em geral e pela estabilização das taxas de aumento da demanda de alimentos. O milho, o cereal mais produzido e consumido no mundo, é um bom exemplo deste cenário previsível de preços para os próximos anos. Sua produção passou os 1,1 bilhão de toneladas por ano e deve chegar a 1,3 ao final desta década. Ou seja, veremos um aumento de quase 20% neste período, enquanto o consumo não deve aumentar mais do que isso, ocasionando um balanço na oferta e demanda.

Como existem vários países produtores e exportadores de milho, existe um grande potencial de aumento da produção latente que pode ser iniciado, assim que houver cenários de aumento de demanda por quaisquer motivos. Desta forma, no caso do milho, sempre teremos um cenário de estabilidade de preços, com pequenos picos ocasionados por quebras inesperadas de produção devido às condições climáticas. Isso ocorre porque uma das características dos preços agrícolas é a baixa elasticidade no longo prazo, principalmente quando comparados aos produtos manufaturados.

Outro fator que impacta os preços agrícolas é a disponibilidade de mão de obra. Nas regiões ou países em desenvolvimento existe uma abundância de mão de obra e o aumento dos preços de commodities agrícolas, nestes lugares, não aumenta a renda dos trabalhadores rurais. Já em países desenvolvidos, onde, geralmente, existe uma escassez de mão de obra, o aumento dos preços de commodities resulta em melhoria da renda do trabalhador rural, muitas vezes em condições similares às do trabalhador urbano. Por isso, trabalhadores rurais no Canadá recebem diretamente os benefícios de aumento de preços de commodities ao contrário do que ocorre com os trabalhadores rurais na África, sendo que os africanos precisarão pagar a mais pelos seus alimentos.

Apesar de algumas dúvidas sobre o impacto do aumento de preço pago ao produtor rural, em geral, isso representa maior renda para a propriedade rural. No entanto, preços altos dos alimentos significam menor poder de compra para os consumidores. Este problema para os consumidores é maior no curto prazo, pois no médio e longo prazo os preços altos dos alimentos podem gerar efeitos dinâmicos na economia, com aumento geral de renda da população e, tanto produtores como consumidores, ganham com isso.

Esta relação produtor-consumidor é bem mais saudável e sustentável para a propriedade rural do que as políticas públicas de subsídio ou de manutenção artificial dos preços de alimentos acima do valor de mercado. Estes programas públicos trazem benefícios ao produtor de alimentos no curto prazo, mas os programas não são sustentáveis no médio e longo prazos, pois os agricultores tendem a produzir menos e a população em geral, que suporta financeiramente estes programas, através de imposto, tende a ter que pagar cada vez mais por isso.

Além da lei da oferta e demanda, os preços dos alimentos são impactados por outros fatores também, como o nível de processamento de alimentos, programas de biocombustíveis, custos e disponibilidade de fatores de produção como insumos, mão de obra, entre outros, políticas de impostos, crédito agrícola e taxas de importação ou exportação de alimentos. Por exemplo, durante a crise de alimentos de 2007-08, os preços dos alimentos foram impactados por outros fatores, além da lei de oferta e demanda, como os preços do petróleo e biocombustíveis, taxas de juros no mercado internacional e políticas monetárias de países-chave na exportação ou importação de alimentos e, por fim, especulação financeira.

Assim, após a crise de 2007-08, novas propostas emergiram no cenário internacional, para evitar ou mitigar crises de alimentos decorrentes desses fatores não tradicionais. Estas novas propostas incluem maior sinergia de pesquisa e troca de informações entre as nações, facilitação do comércio internacional de alimentos, análise de reservas e incentivos, criação de instrumentos financeiros para evitar a especulação e revisão dos sistemas regulatórios. Já para as causas tradicionais de crise alimentar, a melhoria do sistema de comunicação de informações e dos sistemas de armazenamento e distribuição pode ajudar a evitar novas crises.

Parte dos dados e informações sobre os impactos da agricultura na sustentabilidade econômica de uma propriedade rural neste artigo foram obtidos do texto “Embrapa Visão 2014-2034: o futuro do desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira” de 2014 e do texto “OECD-FAO Agricultural Outlook 2019-2028”. Também consultei o excelente livro por Fabio Chaddad, “Economia e Organização da Agricultura Brasileira”.

As informações sobre os preços dos alimentos foram obtidos das obras “O mundo rural no Brasil do século 21: a formação de um novo padrão agrário e agrícola Embrapa, 2014”, “Commodity prices and growth in Africa” no Journal of Economic Perspectives e “Segurança alimentar e volatilidade de preços: uma discussão com base no projeto Foodsecure” na Revista de Política Agrícola.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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