Do lado da demanda de alimentos, existe outro fator crítico que impacta o mercado agrícola em geral, que é a porcentagem que as pessoas gastam em alimentos relativos a seus salários. Em países mais desenvolvidos como União Europeia, Japão e EUA, a população gasta em torno de 10% da renda total em alimentos. Enquanto isso, nos países em desenvolvimento do Sudeste Asiático, África e América Latina, o gasto em alimentos fica entre 25 e 50% ou mais da renda total anual de cada habitante.

Apesar da diferença em porcentagem nos gastos em alimentos da renda total, o valor financeiro nominal gasto nos países desenvolvidos é 10 vezes maior do que o valor gasto em países em desenvolvimento. Em resumo, a questão alimentar é muito mais sensível em países em desenvolvimento do que em países desenvolvidos. Crises de alimentos como a que ocorreu em 2008-2009 afetaram muito as populações do Sudeste Asiático e da África, mas passaram despercebidas na Europa Ocidental e nos EUA.

A renda e a fome

E esse cenário é provável que ocorra nos próximos anos ou décadas novamente e que impacte mais fortemente os países em desenvolvimento, onde o custo da alimentação consome uma fatia considerável da renda anual da população e onde a população tende a continuar crescendo nas próximas décadas.

Para a grande maioria da população que vive em países em desenvolvimento e países mais pobres, a sofisticação da produção de alimentos orgânicos, sustentáveis e rastreáveis é secundária. O principal objetivo da maioria dos seres humanos é a simples satisfação alimentar, independentemente de onde e como o alimento é produzido.

Esta é uma realidade que a elite dos países em desenvolvimento e a maior parte da população dos países desenvolvidos desconsideram quando falam sobre tecnologias digitais, agricultura urbana, produção orgânica ou impacto mínimo no meio ambiente. Para a maioria da população mundial, simplesmente alimentar-se é o grande objetivo diário.

Os exemplos dos desafios da agricultura que temos visto são generalistas e é claro que temos várias exceções no meio rural. Além dos mercados de nicho, como o gourmet, orgânico, frutas e hortaliças com alto valor, as propriedades rurais próximas aos grandes centros, localizadas nos chamados cinturões verdes, também possuem benefícios ou convivem em circunstâncias que diferem de um produtor de soja ou milho. Da mesma forma são as propriedades rurais focadas em produção de proteína animal que, dependendo da localização e estrutura, também conseguem se proteger das regras dos preços internacionais, focando em produtos ou mercados específicos.

No entanto, atualmente, até mesmo para um produtor de commodity agrícola tradicional, como a soja e o milho, vêm surgindo oportunidades para explorar novos mercados e agregar valor ao seu produto final. Por exemplo, muitos produtores têm desenvolvido infraestrutura em suas propriedades ou em colaboração com outros agricultores em cooperativas ou com empresas privadas, para a produção e comercialização de óleos específicos de soja e milho, aminoácidos, complexos proteicos ou alimentares, ou ainda subprodutos animais ou vegetais.

Já no caso das propriedades que produzem proteína animal, como suínos e frangos, ou frutas e hortaliças, os avanços na logística, rastreabilidade e controle de qualidade têm agregado imenso valor à sua cadeia de produção e também garantido uma proteção ao mundo cheio de volatilidade, incertezas, complexidade e ambuiguidade da agricultura, principalmente volatilidade de preços e incertezas de clima.

Enfim, agricultores têm se reinventado e testado várias opções para diversificação de suas atividades, com o objetivo de aumentar o valor agregado de sua propriedade. Tudo isso, porém, exige que o agricultor tenha tempo para testar, conhecimento para explorar seus benefícios e capital para adquirir os produtos e tecnologias.

Este cenário de incertezas e necessidade de investimentos nas novas tecnologias reforça o ambiente de divisão de chances de sucesso entre agricultores capitalizados e sem capital, mais uma vez. Assim, este é outro exemplo do prato meio cheio da agricultura para os que possuem acesso ao capital e conhecimento e meio vazio para quem não tem estes recursos.

Fontes de informação para o artigo

Kingsman, J. 2017. Commodity conversations: Na introduction to trading in agricultural commodities. ISBN-13: 9781976211546.

Boehlje, M. 2002. Risk in U.S. agricultures: new challenges and new approaches. Staff paper #02-07, Department of Agricultural Economics, Purdue University, Indiana, USA.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.