Conectando os pontos entre a agricultura e a sustentabilidade social

O papel da agricultura é alimentar a humanidade. No entanto, isso acontece com várias interações com o planeta, a natureza e as comunidades. A agricultura e seus impactos na concentração de recursos no campo foram descritos no texto “Além da vontade: como a falta de recursos limita a sustentabilidade” publicado neste blog. Neste texto, vamos descrever outras interações como a pobreza no campo, desafios da agricultura de escala, Espécie Negligenciada e Subutilizada e êxodo rural.

Para os leitores curiosos e atentos, os próximos textos do blog irão tratar de como a agricultura pode contribuir com a sustentabilidade social das comunidades rurais.

Pobreza no campo

A maior parte da população abaixo da linha da pobreza vive na zona rural. De acordo com o World Bank, em 2013, 767 milhões de pessoas estavam vivendo em condições de extrema pobreza, ou seja, com até 1,90 dólares por dia. Destes, 80% vivem na zona rural, principalmente na África e Ásia. O valor de 1,90 dólares por dia significa uma pessoa vivendo com 300 reais por mês! Ou em torno de um quarto do salário mínimo no Brasil.

Segundo a FAO (Organização para Agricultura e Alimentação), quando consideramos outros fatores para definição de pobreza, como um nível maior de renda, por exemplo, 3,2 dólares por dia. Esse valor deixa o indivíduo em um nível de pobreza, ou restrição de acesso a saúde, segurança e educação, a proporção de pessoas vivendo na pobreza aumenta consideravelmente para em torno de 25% da humanidade. A erradicação da pobreza é seguida pela erradicação da fome e pela melhoria da gestão e utilização sustentável dos recursos naturais, sabendo-se, ainda, que a maior parte da população pobre e desnutrida vive no meio rural.

O desafio da agricultura de escala

Precisamos urgentemente direcionar a agricultura com suas ferramentas tecnológicas e técnicas inovadoras para contribuir com estas metas de erradicação da pobreza e fome através do desenvolvimento sustentável. Em algumas regiões dos países em desenvolvimento, o impacto desta concentração de renda e recursos é ainda maior. Como exemplo, apenas 2% do 1.3 bilhão de agricultores trabalham com tratores. Ou seja, a imensa maioria dos trabalhadores rurais ainda utiliza ferramentas manuais, assim como seus ancestrais vêm utilizando por séculos.

Com redução ou estagnação na renda das propriedades agrícolas nos EUA, vem o aumento pela procura de informações sobre como negociar dívidas e encontrar formas alternativas de créditos. O cenário de consolidação no campo incentivado pelas políticas governamentais, principalmente a partir dos anos 1970, com o dito “get big or get out” (“torne-se grande ou saia do mercado” em uma tradução livre) vem funcionando, mas deixando um rastro de tristeza no campo, fazendo com que muitos agricultores repensem a esse respeito.

O sistema tem sido moldado para a escala em outro termo também muito comum, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial – o “fence-to-fence”–, ou seja, agricultores procuram produzir o máximo que puderem, pois o governo irá mediar o balanço entre oferta e demanda através de crédito, subsídios e políticas de demanda de alimentos. A queda geral no preço dos alimentos pagos aos agricultores reforça ainda mais a concentração de renda. Esta tendência dos EUA está se expandindo para outros países mais avançados na agricultura, como Austrália, Argentina e Brasil e, com menor grau, nos países menos desenvolvidos também.

Espécie Negligenciada e Subutilizada

Mesmo para commodities não tradicionais, como quinoa, os impactos do aumento da demanda e da produção podem ser variados. O consumo global de quinoa vem aumentando drasticamente nas últimas décadas. O motivo da alta demanda é o valor nutricional deste cereal que, até poucas décadas atrás, era considerado uma NUS, sigla em inglês para Neglected and Underutilized Species, ou Espécie Negligenciada e Subutilizada em português.

No entanto, este aumento de demanda tem impactos negativos no uso da terra nas regiões andina e amazônica do Peru e Bolívia e para a dieta das populações nativas destes países. A situação é mais crítica no Peru, cujo território já é considerado muito vulnerável a mudanças climáticas, desastres naturais e insegurança alimentar, pela sua geografia montanhosa, desertos e vastas áreas da selva amazônica. Estas e outras informações sobre a questão de quinoa no Peru estão na publicação “Quinoa Expansion in Peru and Its Implications for Land Use Management. Sustainability” de 2018.

Um fato interessante neste contexto da quinoa é que seu consumo não era grande nem mesmo no Peru até umas décadas atrás, sendo seu consumo restrito às regiões produtoras. No final dos anos 1990 teve início uma política de diminuição da pobreza através da distribuição de alimentos no Peru, em cujo programa a quinoa foi um dos principais produtos. Seu consumo pela população peruana mais do que dobrou de 2000 a 2014. Devido ao seu valor nutricional, a quinoa logo se tornou conhecida internacionalmente, dando início, então, ao aumento acelerado de sua demanda. Entre 2008 e 2014, a exportação de quinoa aumentou 18 vezes, sendo os EUA o principal destino do produto. Para atender esta demanda, agricultores começaram a plantar quinoa em novas áreas e a aumentar a produção nas áreas já existentes.

Apesar de o consumo de quinoa ser um benefício à dieta geral da humanidade, sua cadeia de produção está sendo fortemente afetada e colocando em risco a sustentabilidade econômica, social e ambiental das regiões produtoras. Isso é um exemplo de como a introdução ou expansão de uso de NUS pode gerar problemas mais graves do que os benefícios que o próprio consumo deste alimento pode trazer.

Quando se pensa em introduzir ou aumentar o consumo de espécies de plantas pouco conhecidas, é necessário fazer uma análise completa da sua cadeia atual de produção e consumo e dos possíveis caminhos que o aumento considerável na demanda pode trazer.

Êxodo rural

Uma comunidade precisa de pessoas. Com poucos membros, a comunidade perde força e, à medida que as pessoas deixam a região, a comunidade deixa de existir. Assim, a sustentabilidade social no meio rural é baseada nas relações entre os membros de uma comunidade e, sem pessoas para compor a comunidade, não existe sustentabilidade social.

Portanto, o principal fator que afeta a destruição das comunidades rurais é o êxodo rural e isso tem ocorrido desde o início da agricultura, há 10 mil anos. No entanto, a taxa de migração do campo para a cidade acelerou fortemente com a Revolução Industrial no século XIX e elevou-se no pós-guerra, nos anos 1950, acompanhando ou impulsionando a Revolução Verde. O pós-guerra provavelmente motivou pesquisadores, institutos de pesquisa, agricultores e empresas a desenvolver a Revolução Verde, uma vez que todo mundo passou a migrar para a cidade, a qualquer custo, nos países desenvolvidos. E desta forma, para continuar alimentando as pessoas que moravam nas cidades ou migravam para elas, esvaziando o campo, fazia-se necessária, nos países desenvolvidos, uma nova revolução na agricultura e, assim, desenvolveu-se a Revolução Verde.

De qualquer maneira, o êxodo rural foi intensificado com as grandes produções de alimentos depois da Revolução Verde, pela redução de demanda de mão de obra no campo e pelo aumento da especialização da mão de obra que permaneceu. E este fator da especialização, do aumento da exigência por conhecimento do manejo agrícola e pecuário está sendo crítico para definição da cadeia de produção de alimentos.

Knowledge agro-worker

Na prática, temos a chegada do trabalhador do conhecimento na agricultura, ou, o “knowledge agro-worker”, que já dominava os segmentos de serviços e da indústria. O modelo de produção agrícola focado em especialização e concentração da produção, principalmente das culturas escaláveis como cana-de-açúcar e soja, vem oferecendo cada vez menos empregos e realçando as diferenças sociais no meio rural. Trabalhadores com menor qualificação técnica e pequenos produtores não estão recebendo os benefícios do desenvolvimento agrícola moderno.

No Brasil, esta tendência do esvaziamento da população rural tem resultado em uma reestruturação das comunidades rurais, causando incertezas e preocupações para muitos. Por exemplo, em apenas 20 anos, de 1991 a 2010, a população rural apresentou uma redução de seis milhões de pessoas, caindo de 35,7 milhões em 1991 para 29,6 milhões em 2010. Neste período, esta redução representou uma diminuição da população rural brasileira de 24,4% para 15,6%.

Além da quantidade, também temos um desafio na qualidade da mão de obra do campo. Enquanto a população urbana tinha apenas pouco mais de 8% de pessoas sem escolaridade em 2010, a população rural tinha mais de 21%. Enquanto mais de 13% da população urbana tinha nível superior de escolaridade em 2010, em torno de 2% da população rural tinha o mesmo nível. Ou seja, à medida que a agricultura nas grandes propriedades se torna mais exigente em qualidade de mão de obra e estas grandes propriedades adquirem as propriedades menores, as oportunidades para trabalhadores rurais com pouca qualificação se tornam cada vez mais escassas no campo. Assim, a melhoria do nível de conhecimento e capacitação da população rural é uma das principais soluções para aumentar a permanência de pessoas no campo e assegurar a sustentabilidade social nas comunidades rurais.

Estas e outras informações sobre o êxodo rural e vários assuntos sobre a agricultura brasileira estão na publicação “O esvaziamento demográfico rural” no livro “O mundo rural no Brasil do século 21: a formação de um novo padrão agrário e agrícola” publicado em 2014.

Por fim, conectar os pontos da agricultura e sustentabilidade social exige um olhar mais abrangente e complexo. Os impactos da agricultura na sustentabilidade social precisam ser endereçados por todos os membros da cadeia de produção de alimentos. Existem oportunidades de redução desses impactos ou de melhorias dos processos para aumentar a renda das comunidades rurais. Nos próximos textos do blog, vamos estar detalhando exemplos e experiências para aumentar a sustentabilidade social dos agricultores.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *