Colaboração entre produtores e consumidores de alimentos

A necessidade de maior integração e colaboração entre produtores e consumidores de alimentos é a terceira iniciativa para diminuir os impactos da agricultura na sustentabilidade econômica de uma propriedade rural. As duas iniciativas já apresentadas nesse blog são o preço sustentável e a inovação tecnológica.

Organização entre agricultores para assegurar demanda por seus produtos

Além de procurar adotar inovações tecnológicas para tornar a propriedade mais sustentável economicamente, os agricultores também utilizam associações e/ou cooperativas para suportar a sustentabilidade econômica da propriedade rural. Eles fazem isso visando tanto ao mercado internacional, no caso do algodão, como ao mercado local, no caso de produtores de alimentos orgânicos.

Os produtores de algodão do Brasil vêm se organizando através de instituições independentes e muito engajadas, que têm sido fundamentais para o sucesso do agronegócio do algodão. Estas instituições são cooperativas e associações de produtores que trabalham para abrir novos mercados, do lado da demanda, e investimentos em pesquisa e desenvolvimento para aumento da produção e melhoria da qualidade dos produtos, do lado da oferta.

Além disso, as organizações representam todos os elos da cadeia de produção de algodão, da produção de sementes, do cultivo, processamento e comercialização do algodão. Do lado da melhoria da oferta, as organizações estão próximas de institutos de pesquisas públicos e privados, visando atender a demanda e qualidade dos produtos exigidos pelo mercado nacional e internacional. Do lado da demanda, estas organizações trabalham em harmonia com os principais clientes, atendendo suas exigências de qualidade de produto, legalidade do negócio e produção sustentável.

Este exemplo dos produtores de algodão é motivador para outras cadeias de produção, no sentido de que estas se organizando, seguindo as leis e atendendo as exigências do mercado consumidor, podem se destacar em qualquer mercado de produção de commodities. Neste caso, é interessante a atenção das instituições representantes dos produtores de algodão, com relação à certificação de sementes que eles utilizam, pelo fato de que os produtores e suas organizações acreditam que somente recompensando as empresas produtoras de insumos, como pagamento de sementes certificadas e royalties, é que eles podem se tornar altamente competitivos no mercado bastante complexo como o de produção de sementes. Além disso, eles também acreditam nos fatos, na avaliação do valor de novas tecnologias. Por este motivo, os produtores apoiam a utilização de sementes transgênicas que auxiliam tanto pequenos e médios como grandes produtores de algodão.

Cooperar para sobreviver

Outro exemplo de organização entre agricultores para atender a demanda do consumidor vem da Rede Ecovida de Agroecologia no Sul do Brasil. A rede está presente nos três estados e é formada por 180 grupos de agricultores que representam mais de duas mil famílias de agricultores, envolvem 10 cooperativas de consumidores e 25 ONGs. Esta rede tem por objetivo entregar produtos utilizando as técnicas mais sustentáveis de produção de alimentos diretamente aos consumidores, sem passar por mercados elitizados ou processos de certificação caros, complexos e demorados. Por fim, o objetivo é expandir o acesso a estes produtos para todas as classes sociais.

A Feira Agroecológica de Mossoró, criada em 2007, é outro exemplo interessante que também busca aproximar produtores rurais e consumidores de alimentos para melhorar a cadeia de produção em geral. Os agricultores membros da referida feira produzem os alimentos com o foco na manutenção dos fatores de produção naturais como solo e biodiversidade, além da preocupação com as questões econômicas e sociais da comunidade rural.

Assim, ambos os exemplos do algodão e dos produtos orgânicos sem certificação mostram que a organização dos agricultores com a sociedade e as instituições públicas podem contribuir mais com a sustentabilidade econômica das propriedades do que programas “milagrosos” do governo. Neste sentido, a agricultura e a cadeia de produção de alimentos podem contribuir ainda mais com o PIB brasileiro. Exemplos como o Chile e a Austrália, que investem mais em pesquisa, desenvolvimento e promoção de seus produtos do que em subsídio, deveriam ser seguidos por outros governos. Maiores investimentos em inovações tecnológicas do setor de serviços na agricultura e cadeia de alimentos, assim como na agroindústria, deveriam ser priorizados, comparados com o aumento de incentivos ou subsídios.

Aumento da transparência para o consumidor final

O produtor rural precisa lidar com mais 60 riscos todos os anos, os quais são agrupados em riscos de produção, mercado e ambiente institucional e regulatório. Os riscos de produção estão relacionados com eventos climáticos extremos e incêndios, sanidade animal e vegetal, gestão de recursos naturais e gestão de propriedade. Os riscos de mercado estão relacionados com mercado e comercialização, crédito e comércio internacional. Já os riscos de ambiente institucional e regulatório estão relacionados com infraestrutura e logística e marco regulatório.

O consumidor final não faz ideia deste mundo de decisões constantes no dia a dia do produtor rural. No entanto, se o consumidor tivesse mais detalhes deste mundo do agricultor, talvez ele fizesse melhores escolhas de seus alimentos e estaria mais propenso a pagar o preço sustentável do produto.

Acredito que se o produtor rural conseguir mostrar mais seu mundo de volatilidade, incertezas, complexidade e ambiguidade além de abrir sua propriedade para os consumidores, eles estarão mais dispostos a entender o custo de produção de alimentos. Hoje, no entanto, esse consumidor está bem distante da realidade da propriedade e, assim, não tem como se esperar que tome decisões racionais sobre o consumo de alimentos.

Por exemplo, a maioria dos usuários das redes sociais que participaram de um programa de monitoramento de opiniões sobre alimentos afirmou que os alimentos orgânicos são muito caros e eles não entendem o porquê. Ao mesmo tempo, 56% dos usuários possuem uma imagem negativa dos transgênicos e 23% afirmaram que os transgênicos podem causar doenças. No entanto, nenhuma agência de pesquisa governamental tem encontrado quaisquer efeitos deletérios dos alimentos transgênicos à saúde humana. Além disso, 77% dos usuários consomem alimentos orgânicos por acreditarem que fazem bem à saúde, mas desconhecem os benefícios ambientais dos mesmos.

No caso de empresas tradicionais, o capital econômico, que determina o valor de mercado destas empresas, inclui os ativos e dívidas das empresas além, é claro, do seu lucro, ou seja, faturamento menos despesas. Empresas com compromissos de sustentabilidade já incluem em seu valor o capital natural e o capital social. Já a maioria das propriedades rurais não teria condições de incorporar estes conceitos no valor de sua empresa ou produtos. Esse nível de sofisticação corporativa ocorre em poucas propriedades rurais e não teria como ser utilizado na grande maioria das propriedades rurais.

Neste sentido, a “auditoria” deverá ser conduzida pelos próprios consumidores, com a ajuda das ferramentas de transparência atuais como Internet, redes sociais e aplicativos. Por outro lado, esse desafio para milhões de pequenas propriedades rurais brasileiras é uma grande oportunidade para startups e empresas tradicionais aproximarem cada vez mais os consumidores das propriedades rurais.

Os consumidores também deveriam estimular e apoiar a criação de fundos de investimentos e até mesmo de sistemas monetários que valorizem a produção agrícola. Uma das sugestões seria a criação de uma cripto moeda, tipo bitcoin, focada em transações entre produtores rurais e outros membros da cadeia de produção de alimentos. Isso resolveria parcialmente um dos grandes desafios das pequenas e médias propriedades: o acesso ao capital.

Como parte considerável do capital é utilizada para pagamentos de máquinas, insumos e serviços das empresas da cadeia de produção de alimentos, com a moeda virtual, o agricultor e estas empresas poderiam criar um sistema fechado de transações comerciais e financeiras. Esta moeda, a AgCoin ou AgroCoin, também seria utilizada por grandes propriedades rurais. Enfim, uma sugestão que consumidores poderiam incentivar assim que alguém oferecer tal produto.

Finalmente, do lado do incentivo para a sustentabilidade, a sociedade precisa discutir se a exigência cada vez maior por redução de preços dos alimentos em geral é sustentável para a humanidade e para o planeta, uma vez que, como vimos ao longo deste capítulo, para se obter a contínua redução de preços dos alimentos para o consumidor final, estamos incentivando a produção em grande escala e a concentração da produção de alimentos nas mãos de poucas empresas. Não deveríamos pensar algo diferente como incentivos de preços mais altos para pequenos e médios agricultores?  Esta opção poderia ser a incorporação do preço sustentável que comentamos neste capítulo. Poderíamos desenvolver um sistema por meio do qual as pessoas teriam a opção de adicionar uma porcentagem ao preço que estão pagando, baseando-se na pegada de carbono, hídrica ou ecológica daquele produto?

Dados para esse artigo e outras informações sobre alternativas para minimizar os impactos da agricultura na produção de alimentos podem ser encontrados nas fontes abaixo:

Vieira, A.C.P., Lunas, D.A.L., Garcia, R.J., 2016. Ambiente institucional na dinâmica da cotonicultura brasileira.  Revista Política Agrícola. Ano XXV – N 2- Abr./Maio/Jun. 2016.

Meirelles, L. 2004. Soberania alimentar, agroecologia e mercados locais. Revista Agriculturas: experiências em agroecologia: AS-PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa, v. 1, n. 0, p. 11-14, set. 2004.

Santos, C.F., Siqueira, E.S., Araujo, I.T., Maia, Z.M.G. 2014.  A agroecologia como perspectiva de sustentabilidade familiar. Ambiente e Sociedade. V. XVII, n. 2, p. 33-52.

Gazzola, R., Pereira, V.F., Da Silva e Souza, G., Guiducci, R.C.N. 2016. Riscos agropecuários Eventos com alta perda econômica. Revista Política Agrícola. Ano XXV – N 2- Abr./Maio/Jun. 2016.

Crimson Hexagon 2015. Organic food: Unbranded Conversation to Inform Brand Strategy. https://pages.crimsonhexagon.com/WC2015-06-15-CS-OrganicFoodBrandStrategy_Registration.html

Elkington, J. 2012. Sustentabilidade, canibais com garfo e faca. M. Books do Brasil Editora Ltda, São Paulo, SP, Brasil.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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