Cinco alternativas para aumentar a renda do agricultor – I

Os agricultores possuem duas missões: alimentar a humanidade e salvar o planeta. Para isso, eles precisam investir em tecnologias e formas mais sustentáveis para produção de alimentos. No entanto, esses agricultores precisam de capital financeiro que devem ser viabilizados por todos os membros da cadeia de produção e consumo de alimentos.

Assim, o grande desafio é como aumentar a renda do agricultor que está comprometido em tornar a agricultura mais sustentável? Aqui, vamos descrever cinco sugestões como exemplos que podem, unilateralmente ou em combinação, fornecer uma renda superior ao produtor rural que pratica uma agricultura mais sustentável dentro da economia verde. Estas sugestões são: preço sustentável, incentivos à Bioeconomia, imposto sobre as externalidades negativas, stakeholders antes dos shareholders e leis para o longo prazo.

Essas cinco sugestões são uma sequência do último post desse blog. Hoje serão descritas apenas duas: preço sustentável e incentivos a bioeconomia. No próximo post, vamos descrever as outras três.

Consumidor – Preço sustentável

No começo, os produtores produziam alimentos demandados por consumidores diretamente. Esta relação entre produtores e consumidores iniciou-se com a revolução agrícola há 10 mil anos, mas começou a diminuir no mundo ocidental, principalmente, com a Revolução Industrial do século XIX. O modelo inicial durou por quase 10 mil anos, mas então surgiu a cadeia de produção de alimentos com a Revolução Industrial e, desde então, empresas têm se especializado e se concentrado cada vez mais.

Os benefícios que a profissionalização da cadeia de produção de alimentos fez para a humanidade são louváveis por viabilizarem a alimentação da humanidade. Desde 1900, os preços dos alimentos têm caído ano a ano, com poucas exceções, devido à maior oferta do que demanda de alimentos no mundo. No entanto, os efeitos negativos da cadeia de valor de alimentos no meio ambiente, na economia dos agricultores e na humanidade não podem ser negligenciados.

Assim, produtores e consumidores precisam retomar o controle de como e do que produzir, assim como interagir mais com a cadeia de produção de alimentos, de forma a maximizar seus benefícios e minimizar ou extinguir seus malefícios. Vimos em quase todos os capítulos a importância da aproximação de produtores e consumidores, a qual pode ser intensificada com o crescimento da economia colaborativa no mundo.

Economia colaborativa

A economia colaborativa ou compartilhada caracteriza-se por um novo conceito de trocas de serviços e produtos na qual o fornecedor não é mais uma entidade empresarial, mas sim um indivíduo que pode nem mesmo ter esta atividade econômica como sua principal fonte de renda. A economia colaborativa impacta mais do que apenas as relações modernas de trocas: impacta também a condição social do envolvido e a expansão e uso da tecnologia de informação e internet.

Assim, este novo comportamento de interessados em trocas de produtos ou serviços associado à revolução de Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC) aumenta um senso de comunidade nas pessoas envolvidas nessas atividades, desperta um espírito de envolvimento maior nas questões sociais e ambientais e, por fim, aumenta a disponibilidade de pontos de trocas e oportunidades de aumento de receitas financeiras dos produtores rurais.

E como a economia colaborativa pode impactar a produção rural? Ela é crucial em trocas de informações entre produtores rurais, produtores rurais e consumidores, e entre ambos e os outros membros da cadeia de produção de alimentos. As informações podem ser técnicas, financeiras, comerciais, pessoais, entre outras.

Para isso, como já vimos, o desenvolvimento e popularização de aparelhos móveis, tecnologia de informação e da internet tiveram um grande impacto na volta da economia colaborativa e em expansão para diversas áreas, incluindo a produção rural. Com a ajuda das tecnologias digitais, o produtor rural pode realizar pool de compras e vendas, buscar ou oferecer serviços e produtos, encontrar formas ou pontos de vendas, armazenamento e transporte de seus produtos, entre outros.

Um dos principais usos seria para o produtor rural mostrar aos consumidores como os alimentos são produzidos em sua propriedade através das diversas ferramentas da revolução TIC. Desta forma, esta transparência seria a “certificação” de origem sustentável de seus produtos e, desta forma, os produtores rurais poderiam cobrar por um preço maior, desde que comprovassem que utilizam sistemas de produção mais sustentáveis. O preço sustentável incluiria o valor de redução da emissão de gases de efeito estufa, do uso racional de água e da preservação da biodiversidade.

Produtor rural e a cadeia de produção de alimentos – Incentivar a Bioeconomia

Incentivos financeiros para o produtor rural e outros membros da cadeia de produção focados na expansão da agricultura sustentável e da Bioeconomia estão relacionados com as metas de desenvolvimento sustentável da ONU, como erradicar a pobreza e a fome, e conservar e proteger os recursos naturais. Enquanto a agricultura sustentável é focada na utilização mais racional de insumos em geral, a Bioeconomia é focada na produção, utilização e conservação dos recursos biológicos, utilizando tecnologias, conhecimento, informações e inovações entre todos os setores econômicos.

De qualquer maneira, o desafio é como incentivar a cadeia de produção de alimentos a fim de migrar seus sistemas de produção para sistemas mais sustentáveis e, possivelmente, gerando valor na Bioeconomia. Existem vários modelos, mas vou descrever um exemplo que iniciou a revolução da energia solar no mundo, literalmente, pela ambição de uma pessoa, o alemão Hans-Josef Fell, no início dos anos 1990. Já vimos a história de Fell em detalhes no post de 14 de março de 2021 sobre bioeconomia.

Em resumo, Fell desenvolveu um sistema de incentivos financeiros cruciais para o começo da implantação de painéis solares que resultou na revolução da energia solar no mundo nas últimas décadas.

Feed-in tariff ou taxa de financiamento

A este processo de incentivos deu-se o nome de Feed-in Tariff, ou seja, usuários de energia em geral pagam a mais (tariff) para que este recurso adicional financie as instalações de painéis solares (feed-in). O sistema como um todo é mediado e controlado pelo governo. À medida que mais pessoas decidem pelos painéis solares, estes se tornam mais baratos devido à economia de escala. No entanto, existe uma pressão financeira sobre os usuários que não querem ou não podem instalar os painéis, porque, com o tempo, aumenta-se o número de usuários com painéis e diminui-se, consequentemente, o número de usuários sem energia solar que pagam taxas cada vez maiores.

Além disso, também se iniciou um programa de subsídios para algumas empresas que não podiam pagar as taxas mais altas de energia. Resultado disso, a Alemanha possui as taxas de energia mais caras da Europa. Apesar disso, a maioria dos alemães aprova o programa. Ainda assim, o programa de feed-in tariff espalhou-se pela Alemanha, Europa e pelo mundo, e foi crucial na transição da matriz enérgica à base de fontes não renováveis para fontes renováveis, principalmente na Europa.

Assim, poderíamos desenvolver um sistema de incentivos para os produtores rurais e outros membros da cadeia de produção baseado no feed-in tariff. O Estado e/ou a iniciativa privada pagaria um preço maior pelo CO2 sequestrado, produção ou conservação de água ou da biodiversidade e outros benefícios que agricultores estariam fazendo e impactando as comunidades e planeta em geral. Da mesma forma que ocorreu na Alemanha com a energia solar, o programa seria mais caro no início, mas com o aumento do número de agricultores que estariam adotando práticas mais sustentáveis, este custo poderia ser reduzido com o tempo.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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