Biodiversidade, aquecimento global e a agricultura

A produção de alimentos não ocorre sem impactos na biodiversidade e no planeta. Entender quais são esses impactos é essencial para que a agricultura se transforme e reduza as mudanças na biodiversidade, na concentração dos gases e na temperatura da atmosfera.

Redução da biodiversidade

Biodiversidade refere-se à quantidade de espécies de plantas, animais e microrganismos em uma região, ou ambiente, ou país. A biodiversidade é importante não somente por representar a riqueza de espécies de uma região, mas também por suas funções, como no ciclo de nutrientes, manutenção do balanço entre as espécies, evitando que algumas espécies se tornem predominantes mais do que o ecologicamente ideal, e polinização. A biodiversidade também contribui para conservação do meio ambiente, principalmente do solo, da qualidade do ar e da água.

Um ambiente de produção agrícola que preserve a biodiversidade é mais sustentável já que o manejo de pragas, doenças e plantas daninhas é ajudado pelo controle biológico presente no ambiente e pela influência das várias espécies que contribuem na manutenção do balanço das espécies. Além dos impactos ambientais, a biodiversidade tem muita influência na sustentabilidade econômica e social das comunidades. Quanto maior o nível de diversidade de espécies em uma região, maior o potencial econômico da mesma.

A biodiversidade oferece condições para extração de substâncias farmacológicas, de cosméticos, higiene, e várias outras finalidades. Além disso, diminui a necessidade de defensivos agrícolas no manejo de pragas, doenças e plantas daninhas.

Destruição dos habitats naturais

A biodiversidade é ameaçada pelo desmatamento, destruição e contaminação dos habitats, presença de espécies exóticas, extinção de espécies essenciais para a cadeia alimentar, áreas extensas de monoculturas, poluição ambiental e mudanças climáticas. Por fim, a extinção de espécies causa muitos impactos na produção de alimentos em geral. Por exemplo, a diversidade de espécies de feijões tem diminuído no Brasil, em decorrência da maior demanda do consumidor por feijão carioca ou preto. Feijões roxinho, bico-de-ouro, pardo, mulatinho, dentre outros, eram amplamente cultivados até três décadas atrás, mas hoje são mais raros.

A redução da biodiversidade ocorre a uma taxa alarmante. Acredita-se que mais de 100 espécies são extintas por ano. Isto é 10 vezes mais do que a taxa-limite de perda da biodiversidade e 100 vezes mais que as taxas da pré-Revolução Industrial. A ONU liberou um relatório recentemente, apontando que um milhão de espécies estão atualmente ameaçadas de extinção com consequências ainda inimagináveis.

Assim, recomendações para que a cadeia de produção crie rótulos, certificações ou condições de os consumidores serem informados do custo na biodiversidade de cada produto devem ser estimuladas principalmente pelos consumidores dos países desenvolvidos e acionistas das empresas responsáveis por este comércio. Ou seja, deveríamos incentivar a criação da “pegada ecológica” assim como temos a pegada do carbono e a hídrica.

Aquecimento da atmosfera

A produção agrícola, incluindo a produção de alimentos, fibras e biocombustíveis responde por 24% do total das emissões de gases de efeito estufa (GEE) por atividades humanas. No entanto, a agricultura e outras atividades relacionadas ao uso da terra não são as atividades humanas mais impactantes para o aquecimento global. A principal atividade de emissão de GEE é o setor energético (35%), seguido da agricultura e outras atividades de uso da terra (24%), indústria (21%), transporte (14%) e construções e habitação (6%).

No entanto, a agricultura e pecuária foram as únicas atividades humanas que não aumentaram a emissão de GEE entre 2000 e 2010, principalmente devido à redução do desmatamento que ocorreu pelo aumento da produtividade geral de alimentos. Ou seja, o maior uso de tecnologias tem elevado a produtividade e reduzido os impactos de produção de alimentos por hectare no aquecimento global.

Dióxido de carbono (CO2)

O dióxido de carbono (CO2) é o principal gás causador do efeito estufa no mundo. O CO2 é liberado principalmente pela queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás natural e carvão mineral para movimentação de veículos, aquecimento e geração de energia em casas, prédios e fábricas. Depois do CO2, temos entre os principais gases de efeito estufa o vapor de água (H2O), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O).

Com relação às atividades humanas, o gás metano é produzido por atividades urbanas como aterros sanitários e tratamento de afluentes, atividades de extração e refino de petróleo, assim como por atividades agrícolas. No caso da agricultura, a produção do metano ocorre principalmente na criação de ruminantes (gado, caprinos etc.), nos campos de arroz irrigado e nas queimadas. O óxido nitroso também tem origem em atividades urbanas como tratamento de esgoto, em atividades industriais, como na produção de alumínio, e em atividades agrícolas, como na aplicação de fertilizantes e processos biológicos de nitrificação.

É importante deixar claro que todos esses gases citados ocorrem naturalmente e, portanto, têm um papel essencial nos processos atmosféricos que impactam, entre outras coisas, a temperatura do planeta. Caso esses gases não existissem, toda energia emitida pelo Sol que chegaria à Terra seria refletida e o planeta seria tão frio que não comportaria formas de vidas como conhecemos hoje. Estes gases contribuem para que parte da energia solar fique dentro da atmosfera terrestre, aquecendo, assim, o planeta. O problema é que depois da Revolução Industrial e evolução das atividades humanas, a concentração de muitos destes gases está bem acima do normal, ocasionando, assim, aumento de temperatura da atmosfera e o tão falado aquecimento global.

Um compromisso da humanidade

Atualmente a concentração de CO2 está em 387 ppm na atmosfera, um valor 10% mais alto do que o limite estabelecido por cientistas e organizações globais, baseado nos impactos que concentrações acima de 350ppm já vêm causando no clima. Como referência, a concentração de CO2 na era pré-Revolução Industrial estava em 280ppm. Esses níveis de CO2 têm resultado em um aumento médio de 0,7 graus C na temperatura da atmosfera global desde a Revolução Industrial. À medida que esta temperatura aumenta, temos mais mudanças climáticas, como aumentos dos níveis dos oceanos e poluição atmosférica. Portanto, existe um acordo entre os países para procurar limitar o aumento da temperatura global em até 1,5 grau C até 2050, para que, desta forma, possamos iniciar um processo de volta às condições da pré-Revolução Industrial.

Estimativas mostram que se não diminuirmos as emissões de gases e deixarmos chegar ao dobro do limite de 350ppm, podemos ter um aumento geral de temperatura do planeta entre 2 e 4,5 C. Neste cenário, os possíveis impactos serão a redução do gelo dos oceanos congelados do Ártico, das massas de gelo da Groenlândia e Antártida e das geleiras nas montanhas. Tudo isso causando elevação do nível do mar, que irá obrigar milhões de pessoas a se deslocarem para regiões mais altas.

Os impactos na agricultura

Os impactos do aumento de temperatura na agricultura serão imensos. O primeiro e mais obvio é o impacto do descongelamento acelerado do gelo nos polos e geleiras. Boa parte da agricultura global depende da água fornecida por estas fontes e qualquer mudança nas quantidades, para mais ou para menos e, na época de disponibilidade, impactarão o manejo da cultura e, em alguns casos, a cultura se tornará inviável. Outro aspecto do degelo é o aumento do nível do mar e a consequente inundação de áreas baixas onde são produzidos alimentos. Com certeza, teremos perdas de terras férteis para as inundações. Um terceiro impacto das temperaturas na disponibilidade de água é com relação ao regime de chuvas, por este regime já ser impactado pela movimentação das massas de ar na atmosfera.

Estamos apenas começando a aprender sobre os impactos do aumento da temperatura na quantidade e qualidade da produção de alimentos. Um exemplo destes impactos na fisiologia e características das plantas vem da indústria do vinho, na França. Viticultores e enólogos da região de Bordeaux estão percebendo uma diferença na produção e qualidade das uvas nos últimos anos, com o aumento de temperatura na região (aumento 2C na região desde 1950). Por fim, o vinho tem perdido algumas das características intrínsecas do Bordeaux. Isto pode impactar a indústria de vinho como um todo, na região que está estimada em mais de dois bilhões de dólares, com mais de 700 milhões de garrafas.

Outro exemplo é a mudança nos ciclos de vida, dinâmica populacional e severidade de pragas, doenças e plantas daninhas. Geralmente condições de altas temperaturas e poucas chuvas favorecem a incidência de insetos e pragas e prejudicam a efetividade de produtos químicos para controle de insetos, doenças e plantas daninhas.

Pegada de carbono

Para ajudar no monitoramento e controle das emissões de CO2, desenvolveu-se o conceito de pegada de carbono. Esse índice indica o nível de aquecimento global baseado nas emissões deste gás. Isso é aceito pelas organizações e pesquisadores ao redor do mundo, devido à forte relação que existe entre os níveis de CO2 na atmosfera e o aumento da temperatura do planeta. A pegada de carbono também é utilizada por empresas, ONGs e instituições governamentais, como um fator de avaliação do quão bem ou mal uma empresa, por exemplo, está administrando as emissões de gases. Em outras palavras, a pegada de carbono é utilizada para definir o nível de sustentabilidade ambiental de uma empresa.

Enfim, estamos presenciando e vamos ver ainda mais impactos das mudanças climáticas na produção de alimentos no mundo. A maior parte destes impactos resulta em diminuição da oferta e qualidade dos alimentos, ou aumento dos custos de produção. No entanto, efeitos positivos também podem vir a ser observados, mas ainda não estão claros estes impactos.

De qualquer forma, o mundo com incertezas e complexidade das mudanças climáticas impacta a agricultura de diversas formas e, para isso, a cadeia de produção precisará estar preparada para lidar com este ambiente complexo e desconhecido das mudanças climáticas na agricultura.

Fontes de informação

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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