As boas práticas agrícolas

As boas práticas agrícolas (BPAs) são críticas para garantir uma alimentação mais saudável e uma produção mais sustentável, pois são focadas na expansão da sustentabilidade econômica, social e ambiental. A maior adoção destas BPAs contribuiria com a preservação da biodiversidade da fauna e flora brasileiras que representa 12% da biodiversidade do planeta.

Além da maior proteção a esta biodiversidade, as BPAs também têm um papel crítico na redução da emissão dos gases de efeito estufa, ou pegada do carbono na produção de alimentos. Além disso, as BPAs também podem contribuir com a redução do desperdício de água, ou pegada hídrica da produção de alimentos.

Os produtores rurais que utilizam estas BPAs devem ser recompensados por isso, pois, afinal, estão produzindo alimentos mais saudáveis a todos e contribuindo com a preservação do planeta. Para isso, a cadeia produtiva, incluindo empresas, agricultores e entidades públicas e privadas sem fins lucrativos estão aumentando suas sinergias e cooperação para expansão da certificação de propriedades que adotam as BPAs e os alimentos produzidos nelas.

Manejo Integrado de Pragas (MIP)

Para auxiliar no uso mais racional dos defensivos agrícolas, produtores rurais, agrônomos e cientistas adotam as BPAs para diminuir o abuso no uso destes defensivos. Entre estas BPAs, está o manejo integrado de pragas (MIP), que é baseado em três conceitos: nível de dano econômico, amostragem e utilização de todas as ferramentas disponíveis.

Assim, o MIP procura restringir o uso abusivo dos inseticidas que vinham causando impactos na sustentabilidade econômica e ambiental. Isto porque o agricultor somente aplicaria o inseticida caso o nível populacional da praga estivesse causando algum impacto econômico na produção de alimentos, isto é, atingisse um nível de dano econômico. Este conceito mostra que a simples presença de insetos se alimentando de plantas ou partes das plantas em uma lavoura não significa que estes insetos estão causando danos econômicos ao agricultor. A planta pode suportar certo nível de dano e apenas quando este dano for muito grande existe a necessidade de aplicação de um inseticida.

Embrapa

Para determinar quando a população de insetos atingiria este nível de dano, o agricultor terá que obrigatoriamente fazer uma amostragem em sua lavoura. Ou seja, ele precisa determinar, de alguma forma, qual é o nível populacional da praga para ele tomar a decisão de aplicar ou não um inseticida. Este é um dos componentes mais difíceis do MIP, pois o custo da amostragem pode, às vezes, ser maior do que o custo do controle.

Por este motivo, muitos agricultores preferem aplicar os produtos em vez de fazer a amostragem. No entanto, ela é também uma grande oportunidade de desenvolvimento de novas metodologias para simplificar e reduzir seus custos. Empresas, instituições públicas e startups deveriam investir mais nisso, principalmente com o auxílio das novas tecnologias de imagens e internet das coisas, ciências dos dados e sensoriamento.

Por fim, o terceiro conceito do MIP refere-se a utilizar todas as ferramentas de manejo de pragas disponíveis antes de tomar a decisão de aplicar inseticidas. Estas ferramentas incluem o conhecimento da biologia e dinâmica populacional das pragas, os inimigos naturais das mesmas, interação das pragas com outras plantas, métodos de controle com feromônios e a resistência ou tolerância das plantas a estas pragas.

Ao conhecer a biologia e a dinâmica populacional da praga, o agricultor pode alterar a data de plantio de sua cultura. Da mesma forma, quando o agricultor conhece os principais inimigos naturais das pragas, ele pode modificar o ambiente para aumentar a incidência destes inimigos naturais e, assim, diminuir a população das pragas. Uma iniciativa, para isso, é ter espécies de plantas que atraem os inimigos naturais. Outro exemplo é aplicar inseticidas, quando houver necessidade, que não causam ou causam pouco impacto negativo a populações de inimigos naturais. A utilização de feromônios vem sendo cada vez mais empregada e, junto com as outras táticas de controle de insetos, pode reduzir a necessidade de inseticidas.

Controle biológico de insetos

Além destas técnicas, temos ainda o controle biológico, pesticidas derivados de plantas, compostagem, adubação verde, cobertura morta e armadilhas com plantas atrativas. No controle biológico de insetos, plantas daninhas e doenças, inimigos naturais atuam para manter estas pragas a níveis populacionais baixos e sem causar danos econômicos à cultura. Estes inimigos naturais podem ser insetos como joaninhas, formigas, vespas, fungos, vírus e bactérias. Além de existir um exército de inimigos naturais em uma lavoura, que impedem várias pragas de causarem danos às plantas, o agricultor também pode liberar intencionalmente inimigos naturais para o controle de certas pragas.

O caso mais conhecido na agricultura brasileira é o programa de manejo da broca do colmo da cana, lagarta da mariposa Diatraea saccharallis e o que é feito pelas vespas Trichogramma galloi e Cotesia flavipes. Juntas, estas vespas são liberadas em torno de 50% da área de cana-de-açúcar no Brasil sendo sua aplicação, em muitos causos, mais eficiente do que a aplicação de inseticidas

Defensivos derivados de plantas

Os defensivos derivados de plantas eram muito utilizados na agricultura antiga, mas foram substituídos pelos defensivos químicos e agora estão voltando para auxiliar no controle de algumas espécies de insetos, ácaros, nematoides, fungos ou bactérias. Estes extratos são feitos com a maceração das folhas das plantas, por exemplo, e a adição de álcool para a extração dos compostos solúveis neste solvente. Alguns dos exemplos mais utilizados incluem os extratos feitos de rotenona e folhas de fumo.

No entanto, a origem natural destes defensivos agrícolas não significa que estes produtos são seguros para mamíferos, incluindo seres humanos. A rotenona, por exemplo, tem sido associada com incidência da Doença de Parkinson.

Outro mecanismo para manejo de insetos de forma mais natural é a utilização de mecanismos que impactam o comportamento dos insetos. Isto pode ser feito através de armadilhas e plantas que atraem ou repelem insetos. Neste caso, algumas espécies de plantas são utilizadas para atrair inimigos naturais como vespas e joaninhas, e outras plantas são utilizadas para repelir espécies de insetos pragas. Este sistema tem sido difundido em países da África e Sudeste Asiático, onde agricultores não possuem condições econômicas de comprar os defensivos químicos.

Manejo de resistência de insetos a inseticidas e Bts

Além dos benefícios para o meio ambiente, as boas práticas agrícolas também diminuem o desenvolvimento de resistência por parte de pragas, plantas daninhas e doenças pelo uso mais racional dos defensivos agrícolas. A resistência se desenvolve quando o emprego intensivo e sem critérios de defensivos agrícolas faz com que as pragas alvo destes produtos contra-ataquem e se tornem resistentes à ação destas moléculas.

O desenvolvimento de resistência a defensivos químicos existe há séculos; acredita-se que existam mais de 500 espécies de insetos resistentes a inseticidas. Isto quer dizer que produtos químicos que demoram anos para serem desenvolvidos a um custo de milhões de dólares passam a ser inúteis para a proteção das plantas e animais dos produtores rurais. A única forma de reduzir as perdas de produtos tão críticos para os agricultores é a adoção de práticas mais sustentáveis, como o manejo integrado de pragas, rotação de produtos, alternância de modos de ação e refúgio.

Caso continuemos a seguir com o uso e abuso desses produtos químicos, corremos o risco de terminarmos em uma “tragédia dos comuns”, como a descrita pelo economista inglês William Forster Lloyd, em 1833. Segundo ele, a tragédia dos comuns ocorre quando usuários de um recurso finito não planejam a utilização sustentável do mesmo e acabam utilizando tudo, sem pensar nas consequências de viver sem estes recursos. Lloyd exemplificou esta situação com a produção de ovelhas em áreas de pastagens divididas por vários pastores. Neste caso, se os pastores tomarem decisões racionais de forma individual, eles estarão aumentando seus rebanhos cada vez mais e explorando ao máximo as pastagens, levando à destruição completa do recurso.

A tragédia dos comuns ocorre quando um grupo considerável de usuários de um recurso ou o grupo como um todo utiliza este recurso até o fim. Assim, os agricultores precisam adotar as técnicas de manejo integrado de pragas com utilização racional destes defensivos ou estaremos destinados à contínua contaminação do meio ambiente e à própria destruição dessas tecnologias pelo desenvolvimento de resistência por parte das populações de pragas.

Fontes de informações para o artigo

Cherobin, N. 2018. Cana-de-açúcar: referência quando o assunto é controle biológico. Revista RPANews. Publicado em 01/09/2018. https://revistarpanews.com.br/especial-cana-de-acucar-referencia-quando-o-assunto-e-controle-biologico/. Acesso em 29/12/2019.

Coltro L, Karaski, T.U. 2014. Interdependência: alimentos e sustentabilidade. In: Sustentabilidade e sustentação da produção de alimentos no Brasil: Consumo de alimentos: implicações para a produção agropecuária – Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, v.3.

Cook, S.M., Khan, Z.R., Pickett, J. A. 2007. The use of puch-pull strategies in integrated pest management. Annual Review of Entomology, 53: 375-400.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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