Além da vontade: como a falta de recursos limita a sustentabilidade

O acesso das propriedades rurais aos meios de produção é uma das condições para tornar a agricultura mais sustentável. No entanto, com dezenas de milhões de propriedades rurais sem acesso a capital e tecnologias, a sustentabilidade no campo limita-se a poucas propriedades.

Apesar dos preços de commodities e alimentos estarem altos devido a pandemia do Covid 19, a tendência histórica é outra, de diminuição do valor dos alimentos. Com a contínua redução dos preços das commodities, apenas agricultores capitalizados ou com acesso a recursos financeiros conseguem investir na expansão da produção de alimentos.

Concentração dos meios de produção

Por exemplo, um agricultor com as melhores tecnologias disponíveis em 1900 gerava 10 vezes mais valor em produção do que um agricultor sem estas tecnologias. O agricultor com tecnologia possuía implementos puxados por tratores a motor, enquanto o produtor sem tecnologia possuía apenas implementos manuais, como enxada, machado, facão entre outras. A cada geração, esta melhoria na eficiência do agricultor com tecnologia aumenta e a distância para o agricultor menos favorecido é maior. Em 2000, por exemplo, o agricultor com tecnologia já gerava 2.000 vezes mais valor em produção do que o agricultor sem tecnologia.

Esses e outros detalhes da história da agricultura e como a produção de alimentos evoluiu até o modelo atual estão no livro “A history of world agriculture – from the Neolithic age to the current crisis”, publicado em 2006 pelos pesquisadores Marcel Mazoyer e Laurence Roudart. A versão em português está disponível através da UNESP. Basta digitar “História das agriculturas no mundo” no Google e o leitor pode ter acesso a esta obra cheia de detalhes históricos da agricultura.

A diferença entre os que têm e os que não têm acesso a capital e tecnologia aumentará ainda mais nas próximas décadas. Isso ocorre porque os agricultores que possuem os melhores fatores de produção tendem a aumentar cada vez mais a produtividade de alimentos em suas propriedades, gerar mais renda e adquirir novas propriedades. Financiamento, acesso a insumos e máquinas, armazenamento e logística, conhecimento e tecnologias são exemplos de fatores de produção.

Mesmo nos países desenvolvidos, apenas uma minoria das propriedades rurais consegue incorporar todos os benefícios das políticas agrícolas e tecnológicas. Desta forma, com a redução do preço dos alimentos, essas propriedades têm condições de gerenciar um menor retorno por área e, portanto, continuar produzindo e, muitas vezes, expandindo suas atividades.

O poder do capital

Por outro lado, para a grande maioria das propriedades rurais dos países desenvolvidos, as opções incluem a venda, arrendamento, ou o trabalho nas propriedades mais bem-estruturadas. Apesar destes desafios, países desenvolvidos como os EUA, União Europeia e Japão têm condições de subsidiar parte dos seus agricultores, que, geralmente, estão em melhores condições do que os seus pares nos países pobres.

Com exceção das carnes de gado e de carneiro, todas as outras commodities listadas aqui tiveram seus preços reduzidos no último século.

Para os agricultores de países em desenvolvimento a situação é bem mais desafiadora, já que estes não possuem renda complementar proveniente de políticas públicas, na maioria das vezes. As perspectivas são pouco favoráveis aos agricultores pobres, devido ao aprimoramento do sistema do comércio internacional que, além dos baixos preços de commodities, também tem sido impulsionado pelos baixos preços do frete marítimo e abertura de mercados.

Comida barata e pobreza no campo

A consequência maléfica para o agricultor é o preço pago pelas commodities produzidas por produtores com baixa utilização de tecnologias. Um agricultor do Sudão, dos Andes ou do Himalaia, que produzia 1000 kg de cereais nos anos 1950, utilizando ferramentas manuais e sem a aplicação de fertilizantes químicos e pesticidas, conseguia reter 800 kg para alimentar uma família de quatro pessoas. Os outros 200 kg eram vendidos por 100 dólares para renovar ferramentas e roupas, por exemplo.

Este mesmo agricultor, com o mesmo nível tecnológico e produção média, nos anos 2000 teria que vender 600 kg de sua produção de cereais para renovar seus utensílios, visto que o preço das commodities caiu para apenas um quinto do que se pagava nos anos 1950.

Desta forma, sobrava para este agricultor apenas 400 kg de cerais para alimentar a mesma família de quatro pessoas. Isso, por si só, já aumenta em muito a pobreza desta família que, em muitos casos, começa a chegar próximo da falta de alimentos suficientes para sua sobrevivência. Essa situação piora muito quando a mesma família aumenta seu número de uma geração para outra e tem que continuar tirando todo o sustento da mesma propriedade.

Desta forma, a queda dos preços dos alimentos ao redor do mundo, pelo aumento da produção agrícola em países exportadores, teve um efeito benéfico para a diminuição da fome no mundo, mas tem deixado milhões de agricultores em situação crítica para a sustentabilidade econômica das propriedades rurais.

Opções para aumentar o acesso aos recursos

Com a concentração de renda, várias mudanças estão ocorrendo no aspecto social do campo. Desafios de acesso às tecnologias e conhecimento, pobreza e êxodo rural são algumas destas mudanças discutidas no capítulo anterior. Para combater estas tendências, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento, o trabalhador rural, seja proprietário ou não, precisa investir mais em conhecimento e informações.

 Ou seja, a mão de obra do campo precisa estar mais preparada para lidar com o mundo cheio de incertezas, volatilidade, complexidade e ambiguidade. O knowledge worker ou trabalhador do conhecimento já chegou à agricultura e quem não se tornar um, terá dificuldades imensas de se adaptar a este mundo cada vez mais impactado pela revolução da tecnologia de informação e comunicação.

Somente com propriedades rurais independente economicamente, o mundo terá sustentabilidade na agricultura. Sem acesso aos meios de produção mais inovadores, os agricultores não podem tornar a agricultura mais sustentável. A elitização da produção de alimentos inviabiliza a salvação do planeta. Portanto, consumidores e influenciadores da cadeia de produção de alimentos precisam promover o acesso dos meios de produção a um maior numero de agricultores. Somente assim, a humanidade conseguira garantir seu futuro e das próximas gerações.

Mais informações sobre os impactos do acesso aos meios de produção na sustentabilidade econômica de propriedades rurais podem ser encontrados no livro já citado neste texto e sites da Embrapa, FAO, The Nature Conservancy, OECD e diversas fontes de fundações, instituições e ONGs que buscam melhorar a renda dos produtores rurais.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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