Agricultura é VUCA

A agricultura não é POP, ela é VUCA! Iniciamos este tema no artigo anterior neste blog onde descrevemos de forma geral os desafios do produtor rural. Além disso, também explicamos o conceito VUCA: Volatility (Volatilidade), Uncertainty (Incertezas), Complexity (Complexidade) e Ambiguity (Ambiguidade). Por fim, discutimos o significado de sua primeira letra, volatilidade.

Neste artigo, vamos completar o tema dos desafios reais do agricultor com as definições e exemplos de Incertezas, Complexidade e Ambiguidade. Por fim, entender quais são as opções que o produtor rural possui para gerencias esse mundo VUCA!

Incertezas: clima cada vez mais instável

Incerteza é a falta de previsibilidade como resultado de várias idas e vindas e interações típicas de sistemas complexos como mudanças climáticas (seca, enchentes, geada etc.) e gestão de risco (seguro agrícola, estrutura de financiamento da produção, própria ou empréstimos, venda por contrato futuro ou físico etc.).

No caso do clima, os altos investimentos estão cada vez mais em risco devido às incertezas ambientais pelas mudanças climáticas. Com relação ao crédito rural, a restrição de recursos devido ao crescente endividamento dos países dificulta a previsibilidade do quanto o agricultor terá de recursos disponíveis na próxima safra. Por fim, a mão de obra pouco qualificada para utilizar as novas tecnologias do campo e em diminuição constante, com a contínua migração da população rural para as grandes cidades, deixa o agricultor na incerteza de investir em educação para seus funcionários, em maior automação, ou em ambos.

O clima pode impactar negativamente a sustentabilidade econômica da propriedade na esfera local, regional e internacional. O impacto do clima na esfera local, dentro de sua propriedade, é o mais obvio. Afinal, se não chover, o agricultor que não tiver sistema de irrigação perde muito de sua produção e pode, em casos extremos, chegar a perder tudo. Na esfera regional, o clima pode impactar a sustentabilidade da propriedade negativamente em duas situações. A primeira delas, em uma condição de seca que afeta toda uma região. Neste caso, a seca impacta o volume de água em rios e lagos e mesmo os agricultores com sistemas de irrigação terão problemas de fornecimento de água para suas plantas e animais e, portanto, a produção será reduzida.

Um exemplo recente disso foi a seca na Califórnia entre 2012 e 2016, obrigando o estado a um racionamento generalizado que chegou até 70% do uso normal em algumas cidades. No caso da agricultura, houve uma redução de 30% da água disponível na superfície. Isso obrigou agricultores a extraírem mais água do aquífero californiano, a colocar áreas aráveis em pousio e a produzir culturas menos exigentes em água, entre outras ações.

Altas produções e prejuízos para o agricultor

Na esfera regional, períodos longos de estiagem impactam inclusive o fornecimento de energia elétrica. Isto é mais importante em países como o Brasil, que dependem muito da energia obtida das usinas hidroelétricas. A segunda situação é quando as chuvas e temperaturas foram excelentes para a produção de alimentos. Assim, a grande maioria dos agricultores terá excelentes colheitas e para os produtos consumidos na região e in-natura, o excesso de produção diminuirá o preço do alimento e, dependendo do balanço da quantidade produzida por propriedade e do preço por unidade, a propriedade pode ter problemas em obter lucros naquele ano. Esta situação é agravada quando o produto não tem escoamento para fora da região. Nesse caso de excesso de produção, que ocorre com frequência, o agricultor que sobreviver a essa crise pode realinhar seus objetivos de produção nas próximas safras e conseguir quitar suas contas.

A condição de clima na esfera internacional pode impactar a sustentabilidade da propriedade, em situações de clima bom, nos principais países produtores, onde então eles teriam colheitas com muita produção de alimentos e seriam diminuídos os preços pagos localmente. Este cenário é mais crítico para commodities importantes no mercado internacional como café, soja, milho, algodão, laranja, entre outros.

Mais informações sobre o mundo VUCA podem ser encontrados no artigo “Conservation and sustainable development in a VUCA world: the need for a systemic and ecosystem-based approach” pelos autores A. Schick, P. R. Hobson e P. L. Ibisch em 2017 na  Ecosystem Health and Sustainability. Outra fonte de informação nesse tópico é “Shifts of strategic paradigms in the VUCA world – Does “outside the box thinking” a meaningful cliché for the business world?” por A. Barman e C. Potsangbam em 2017.

Complexidade: legislação e exigências do consumidor

Complexidade refere-se a extensa rede estrutural e caminhos dinâmicos existentes nos componentes de um sistema jurídico ou regulatório, por exemplo. Além disso, sugere um estado de sistema construído nos princípios do caos e sujeitos a pontos de inflexão. A contaminação do meio ambiente (água, solo, fauna e flora), de trabalhadores, alimentos e, consequentemente, dos consumidores é resultado de um sistema complexo.

Outro fator cheio de complexidade é a utilização de produtos químicos na agricultura e pecuária, seguindo várias normas de aplicação, dose, tempo de uso e alvo de controle exigido por várias agências do governo federal (IBAMA, ANVISA, MAPA) estadual e municipal, órgãos de inspeção dos países importadores e das certificadoras. No caso da aplicação de produtos, é necessário seguir as normas trabalhistas e ambientais como horário e local de aplicação.

Além disso, temos os problemas fitossanitários, que aumentam com a expansão da movimentação de cargas com produtos agrícolas e com a expansão da fronteira agrícola para novas áreas. Não podemos deixar de lado um envolvimento e uma influência cada vez maior do consumidor final dos alimentos, que busca produtos mais saudáveis, do agricultor, que quer utilizar cada vez menos defensivos agrícolas no campo e da população em geral, que deseja maior proteção ao meio ambiente. Enfim, a complexidade na cadeia de produção de alimentos inclui desde os desejos dos consumidores até as técnicas e ferramentas disponíveis para os produtores rurais, passando por toda a estrutura de leis, regras e limites dos legisladores e fiscais que controlam a agropecuária.

Ambiguidade: informações e suas origens

Ambiguidade refere-se à dificuldade de discernimento da realidade, do que é causa ou efeito, por exemplo, do potencial de julgar algo de forma errada ou de uma ação de várias alternativas ou resultados miscigenados. O agricultor e o trabalhador rural necessitam de acesso às informações corretas sobre produtos, pragas e mercados, entre outros. No entanto, é impossível para o produtor rural verificar a veracidade da quantidade imensa de informações que recebe diariamente. Muitas vezes, as informações são até mesmo antagônicas, tornando muito difícil a decisão sobre o nível de investimento para a próxima safra ou investimento para compra de máquinas, terras, construção de galpões ou irrigação. Ou seja, o desconhecimento sobre a idoneidade da maior parte destas informações faz com que o agricultor não saiba em que confiar, tornando seu processo de decisão muito ambíguo.

Como o agricultor gerencia o mundo VUCA e suas consequências

A volatilidade dos mercados, incertezas do clima, complexidade das leis e ambiguidade das informações tornam a agricultura um mundo VUCA, onde o capital e a tecnologia têm ajudado a diminuir seus impactos. No entanto, o uso excessivo do capital e da tecnologia tem afetado o sistema de produção rural e a sustentabilidade.

A agricultura moderna, baseada em altos investimentos e tecnologias, tem concentrado os meios de produção, excluindo milhares de agricultores e impedindo o acesso à produção rural para tantos outros. Assim, apesar de a cadeia de produção de alimentos estar tirando muitos países da dependência de importação de alimentos e diminuindo a parcela da renda destinada à alimentação em todo o mundo, essa mesma cadeia de produção tem impactado negativamente agricultores, comunidades e o meio ambiente. Por esse motivo, faz-se necessário um aumento na colaboração entre os meios de produção rural, desde a pesquisa e desenvolvimento até o financiamento e acesso ao mercado.

Desde o início da agricultura, a disponibilidade do capital para adquirir tecnologias tem sido crucial na sustentabilidade econômica de uma propriedade rural. No entanto, essas duas armas essenciais na luta contra o mundo VUCA não tem chegado à maioria das propriedades rurais do mundo. Devido ao alto custo, agricultores sem condições financeiras para adquirir estas tecnologias vivem no limite dos recursos de sua propriedade ou até mesmo precisam vendê-las, por serem incapazes de mantê-las. Este é o impacto econômico na propriedade rural.

Como consequência, quando uma região possui a maior parte de suas propriedades rurais em condições financeiras difíceis, a comunidade como um todo é impactada negativamente. Este cenário tem atingido várias regiões do mundo e tem causado êxodo rural e pobreza no campo, como resultado da queda dos preços pagos aos agricultores e, consequentemente, a extinção de muitas comunidades rurais.

Por fim, quando tecnologias são usadas sem a adoção das boas práticas agrícolas, o meio ambiente é impactado negativamente também. Estes impactos negativos incluem desmatamento, perda da biodiversidade, contaminação do meio ambiente, entre outros. No entanto, essas mesmas tecnologias podem ser usadas para salvar o meio ambiente e, consequentemente, o planeta.

A colaboração contra o VUCA

Para contribuir com a sustentabilidade, a colaboração entre produtores rurais e consumidores é essencial para garantir uma alimentação mais saudável e uma cadeia de produção mais sustentável. Os consumidores são tão essenciais nesta colaboração quanto os produtores rurais. Afinal de contas, os consumidores são os clientes finais da produção de alimentos.

Assim, os clientes podem ajudar através de uma maior consciência sobre os produtos alimentícios e seus respectivos sistemas de produção, bem como exercendo maior pressão na cadeia de produção de alimentos, nos políticos e legisladores e no combate ao marketing do medo e às notícias falsas. Essa colaboração pode impulsionar a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, assim como facilitar o acesso a elas. A colaboração adicionada ao modelo atual pode garantir que tenhamos uma agricultura competitiva e com alternativas mais sustentáveis para garantir a produção de alimentos para todos.

Caso tenha mais exemplos, alternativa ou ideias para tornar a produção de alimentos mais sustentável, envie para nós. Também adoramos receber sugestões, perguntas e comentários. Ou apenas deixe seu nome e e-mail abaixo para receber notificações de novos artigos.

Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.

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