Com o período do pós-guerra iniciado em 1945, a agricultura tem uma nova revolução, desta vez pela inovação tecnológica na Biologia e na Química principalmente. Se a Revolução Industrial do século XIX trouxe o poder das máquinas para o campo, a revolução iniciada no pós-guerra trouxe o poder da Biologia através da melhoria genética das variedades de cereais, por exemplo, cuja produtividade aumentou consideravelmente, e da Química, através da utilização de insumos para o aumento da fertilidade do solo e controle de pragas em geral, como doenças de plantas, insetos e plantas daninhas.

O desenvolvimento tecnológico e a inovação na agricultura durante este período expandiram-se para os países em desenvolvimento, em um movimento que ficou conhecido como a Revolução Verde. Esta revolução agrícola trouxe aumento significativo da produção de alimentos em várias partes do mundo, através do melhoramento genético em arroz, milho, trigo e soja, aplicação de fertilizantes e defensivos químicos, investimentos em irrigação e drenagem, entre outras inovações. No entanto, a grande maioria dos pequenos e médios agricultores do mundo não tinham condições financeiras de participar desta revolução.

Assim como em outros momentos da história do desenvolvimento da agricultura, o acesso às tecnologias e inovações que contribuiriam com o aumento da produção e renda nas propriedades rurais sempre foram restritos a uma pequena parcela de proprietários. Como vamos detalhar nos próximos capítulos, apesar de o avanço tecnológico ter livrado o mundo urbano da fome e ter reduzido consideravelmente o preço dos alimentos, também removeu milhões de agricultores do meio rural por falta de condições financeiras para participar destas revoluções agrícolas.

Desta forma, a cada revolução agrícola, os sistemas de produção tendem a ficar mais simples, com menos pessoas e menos espécies de plantas e animais sendo produzidos para a alimentação humana. O prato meio cheio da inovação na agricultura e meio vazio do seu impacto social.

Além disso, poucas espécies de plantas e animais foram melhoradas geneticamente e tiveram seus sistemas de produção otimizados. Muitas espécies de plantas cultivadas em regiões pobres do mundo e utilizadas exclusivamente para alimentar as famílias de agricultores não passaram por melhorias genéticas ou seus sistemas de produção não foram melhorados. Entre estas espécies encontram-se a batata doce, a mandioca, a quinoa, o teff, entre outras. Enquanto a produtividade de milho, trigo, soja e arroz passam de dois ou três mil quilos por hectare em quase todas as condições de desenvolvimento, a produtividade destas espécies “esquecidas” pela inovação tecnológica fica em torno de mil quilos por hectare somente.

A Revolução Verde e o aumento da produção de alimentos

A revolução verde é um dos grandes exemplos do prato meio cheio, por viabilizar a segurança alimentar de milhões de pessoas no mundo e do prato meio vazio pelos problemas causados ao consumidor final, ao agricultor, ao trabalhador rural e ao meio ambiente. Entre os principais problemas causados está o excesso no uso dos defensivos agrícolas, como inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os inseticidas são substâncias usadas para controlar as populações de insetos, que se tornaram pragas econômicas nas áreas de produção de alimentos, fibras e madeira. Esses defensivos agrícolas são alvos de críticas, por causarem problemas crônicos na cadeia alimentar de vários seres vivos, incluindo o ser humano.

Em um trabalho de grande impacto na opinião pública, Rachael Carson descreve no livro “Primavera Silenciosa” os impactos imperceptíveis até então pelo abuso na aplicação de inseticidas. Entre estes, o principal alvo do livro de Carson foi o DDT, utilizado mundialmente no controle de várias pragas agrícolas e urbanas, como os mosquitos. O DDT exemplifica muito bem este período da história do desenvolvimento da agricultura e da humanidade. Este produto ajudou no controle de pragas de importância agrícola e médica, mas também deixou um rastro de impactos ambientais negativos. Esta dualidade de benefícios e malefícios caracteriza muitos produtos e processos deste período, incluindo a própria revolução verde que, por mais que tenha trazido segurança alimentar para milhões de pessoas no mundo, também causou muitos impactos negativos como desmatamento, contaminação de solos e rios e ameaças de extinção de várias espécies.

Por uma questão de confiança quase irrestrita e abuso em alguns casos na utilização das tecnologias, surgiram vários movimentos científicos, sociais e ambientais, pedindo para que se diminuísse o uso de fertilizantes químicos e defensivos agrícolas e até mesmo para que se repensasse o modelo de produção agrícola promovido pela revolução verde e suas variantes.

A ascensão da agricultura sustentável

Apesar de a “Primavera Silenciosa” ser o exemplo bibliográfico mais marcante deste período, vários movimentos tiveram grande impacto sobre o modo de pensar na produção de alimentos e na agricultura em geral. Entre estes estão agricultura orgânica, uso racional de defensivos agrícolas (manejo integrado de pragas, plantas daninhas e doenças), fertilizantes (adubação verde) e manejo do solo (plantio direto). Estes movimentos relacionados à agricultura se uniram e se confundiram com outros movimentos mais populares sobre sustentabilidade geral do planeta, que alcançaram a mídia em geral e instituições internacionais, culminando com a realização da ECO-92 no Rio de Janeiro em 1992 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento) para discutir a sustentabilidade no mundo e como preservar o planeta para as gerações futuras.

Este movimento a favor de um desenvolvimento econômico mais sustentável continua evoluindo e hoje se manifesta de uma forma muita mais pulverizada e, até mesmo, individual. Isto porque a internet e os telefones celulares tornaram a comunicação mais acessível e simples e todos podem manifestar suas demandas ou exigir seus direitos através das redes sociais. Esta revolução da tecnologia de informação e comunicação (TIC) facilitou a vida dos consumidores mais preocupados com sua alimentação e conscientes sobre a forma de produção dos alimentos. Com mais transparência das informações, os consumidores mais conscientes pressionam governos e empresas a serem mais sustentáveis. Assim, a tecnologia também está contribuindo com a contínua evolução do movimento de sustentabilidade iniciado no pós-guerra.

Mas um questionamento se faz necessário: como, com toda esta evolução nos meios de produção agrícola, desde a domesticação de sementes e animais, passando pelo advento das máquinas na Revolução Industrial, melhoria genética e controle de deficiências e pragas, ainda temos desafios imensos na produção de alimentos atual? E ainda: como garantir a produção de alimentos para todos em 2050? Estes desafios serão ainda maiores nos países em desenvolvimento e em países pobres.

Até 2050, teremos que aumentar em 60% a produção mundial de alimentos em geral no mundo. No entanto, nos países em desenvolvimento, teremos que aumentar duas vezes esta produção e nos países mais necessitados da África e Ásia, o aumento ficará entre 5 e 10 vezes. Assim, o desafio não é somente o de aumentar a produção e disponibilidade de alimentos; teremos que mudar sua forma de distribuição e, consequentemente, da infraestrutura global. Em outras palavras, precisamos equilibrar a distribuição de investimentos e renda para poder fornecer alimentos para todos de forma mais saudável e mais sustentável.

Isto ocorre principalmente porque a produção de alimentos vive um contexto de forças que um agricultor sozinho não tem como controlar ou prever, apesar de toda a tecnologia e informação disponíveis no mundo.

Fontes de informações no artigo

Carson, R.L., 1962. Silent Spring. Houghton Mifflin Company.

Conkin, P.K. 2008. A revolution down on the farm – the transformation of American agricultura since 1929. The University Press of Kentucky, Lexington, USA.

Mazoyer, M., Roudart, L. 2006. A history of world agriculture – from the Neolithic age to the current crisis. Monthly Review Press, New York, USA.

Senge, P., Smith, B. Kruschwitz, N. Laur, J., Schley, S. 2008. The necessary revolution: How individuals and organizations are working together to create a sustainable world. Doubleday, New York.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.