A história da agricultura é a história de como a sociedade que conhecemos hoje se desenvolveu. Sem o surgimento da agricultura entre 10 e 12 mil anos atrás, teríamos uma humanidade bem menor, vivendo de caça e pesca, e provavelmente sem os benefícios que a sociedade atual tem em mãos. Isso porque a agricultura permitiu que parte considerável da humanidade deixasse de se preocupar e de se ocupar com a produção de alimentos para dedicar-se a outras profissões. Dessa forma, a agricultura permitiu que homens e mulheres tivessem tempo para explorar e desenvolver outras habilidades e para que a produção de alimentos ficasse nas mãos dos profissionais da produção de alimentos, ou seja, os agricultores.

Por fim, a história da agricultura irá nos levar a entender como as revoluções tecnológicas fizeram com que poucos agricultores fossem capazes de produzir alimentos para a maioria da população a um baixo custo financeiro, mas com vários impactos nas propriedades agrícolas, comunidades rurais e no meio ambiente.

A agricultura desenvolveu-se como uma alternativa ao modelo de caça-pesca-coleta existente até 10.000 anos atrás, mais ou menos. Ela surgiu em momentos, condições e lugares diferentes. Seu início ocorreu provavelmente no Crescente Fértil, por volta de 10.000 atrás, devido à diversidade de fauna, flora e clima da região. O Crescente Fértil compreende a região atual do Egito até os países ao redor do Golfo Pérsico. Nesta região, como no resto do mundo, as sociedades sobreviviam da caça e pesca e da coleta de frutas, raízes, sementes, grãos e folhas. Aliás, estima-se que se esse sistema de caça e coleta fosse ainda predominante, a humanidade não teria mais de 500 milhões de pessoas hoje.

Ou seja, o desenvolvimento da agricultura proporcionou as condições para que o mundo chegasse aos 7,7 bilhões de pessoas atualmente e ainda tenha condições de produzir mais alimentos para 9,7 bilhões em 2050. O desenvolvimento do planeta, desde o início, foi marcado por interferência humana na sociedade, na fauna e flora, com a domesticação de plantas e animais e interferências nos ecossistemas com o desmatamento e a redução da biodiversidade. No entanto, sem essas ações, a humanidade que conhecemos hoje não seria possível.

A natureza diversa e abundante da região do Crescente Fértil proporcionou uma evolução da sociedade sob o regime de caça e coleta e também deu condições para o desenvolvimento da domesticação de algumas espécies de plantas e animais que possuíam características críticas para isso. A agricultura surgiu mais ou menos na mesma época, na Nova Guiné. Em outros lugares do mundo, como China e Américas, o desenvolvimento da agricultura ocorreu em momentos e circunstâncias bem diferentes dos ocorridos na Crescente Fértil. Na China, a domesticação ocorreu há 8.500 anos. Já nas Américas, a agricultura teve início na região atual do México, há 9.000 anos, depois nos Andes peruanos e equatorianos, há 6.000 anos e, por fim, na bacia do Mississippi, na América do Norte, há 4.000 anos. Em geral, a transição do sistema de caça e coleta foi lenta e diversa, com diferentes níveis de aperfeiçoamento nos lugares em que ocorreu.

Estas condições de produção iniciadas pela domesticação de plantas e animais não mudaram muito através dos séculos, sendo que a produtividade alcançada no início da agricultura não se alterou muito até a Revolução Industrial no século XIX. Ou seja, por quase 10 mil anos, a agricultura se manteve a mesma com relação à produtividade. Com a domesticação de plantas e animais no início da agricultura, o sistema de cultivo baseado em desmatamento e queimada foi adotado na maioria das civilizações, de uma forma ou de outra. Após o corte e queimada da área, cultivava-se a mesma por três anos no máximo. Depois disso, deixava-se a área em pousio por alguns anos até ela voltar às características originais e, então, cortava-se e queimava-se novamente. Cada período de restauração poderia durar de 10 a 50 anos. Ou seja, este sistema era bem pouco produtivo, comparado com os padrões atuais, porque para cada hectare em processo de produção de alimentos, deixavam-se até 50 hectares em recuperação, num sistema de rotação.

Nas sociedades agrícolas mais evoluídas, este período foi marcado por uma evolução muito grande em várias áreas do conhecimento e de organização social. Como havia uma fonte confiável de produção de alimentos exercida pelos agricultores, a classe especializada para isso – parte da sociedade – pôde se dedicar a outras funções. Assim, surgiram cidades, profissões, o poder público, exércitos, Artes, Ciências e Filosofia. Enfim, a humanidade começou a se organizar em torno de algo mais parecido com as instituições e padrões que conhecemos hoje. Na Europa e na Ásia, principalmente ao redor do Crescente Fértil, surgem os primeiros impérios em torno de 2.000 anos a.c. Exemplos destes impérios são o de Creta, Mecenas, Fenícia, Tiro e o Império Grego consolidado por Alexandre, O Grande, e depois pelo Império Romano.

Além disso, temos a diferenciação de classes, já que a agricultura, desde seu início, exigia conhecimento e ferramentas especializadas. Somente famílias ou grupos de famílias que se unificaram para aumentar a produção conseguiram se destacar do restante da sociedade, tendo em suas mãos os bens de maior valor na época, o alimento. Isto resultou desde o início da agricultura na busca por mão de obra barata pelas famílias ou cidades mais poderosas. Ou seja, tem início a escravidão logo após o desenvolvimento das primeiras sociedades agrícolas mais evoluídas. Desta forma, a diferença de classes que vemos hoje teve seu início pouco tempo depois da criação da agricultura.

A agricultura viabiliza a sociedade como conhecemos hoje

O impacto da agricultura na demografia também foi imenso. De uma população de cerca de 5 milhões de pessoas há 10000 anos, formaram-se 50 milhões 5000 anos atrás. Ou seja, a domesticação de plantas e animais e o desenvolvimento do sistema de cultivo de desmatamento e queimada resultaram em um salto populacional de 10 vezes em 5 mil anos. Isto é impressionante, tendo em consideração que o ser humano moderno tem habitado o mundo por mais de 100 mil anos, sendo que o crescimento da população tem sido incremental apenas até o desenvolvimento da agricultura.

Com a adição de melhorias no processo de produção de alimentos, como o sistema hidráulico, em regiões como os Andes na América do Sul e o Egito, a população mundial chegou a 100 milhões de pessoas há 3.000 anos. Quando os sistemas hidráulicos foram usados para irrigação nas plantações de arroz do Sudeste asiático e em vários cultivos pelos Astecas e Maias, a população mundial deu um novo salto para 250 milhões de habitantes, mil anos atrás. Por fim, quando os europeus começam a utilizar o pousio associado à utilização de arado puxado por animal, a população global dobra para mais de 500 milhões de pessoas no século XIII.

No entanto, no século seguinte, o mundo, especialmente a Europa, conhece as primeiras ondas de fome em massa. Isto ocorre devido a um desequilíbrio causado pelo contínuo aumento populacional e pela estagnação do aumento da produção de alimentos por meio do sistema de pousio e arado. Ou seja, o mundo precisava de mais inovações tecnológicas para continuar alimentando a crescente população e isto só foi possível com o advento de várias áreas do conhecimento que proporcionaram melhorias na fertilidade e estrutura do solo, irrigação, equipamentos, adubos verdes, entre outros. Importante lembrar que neste momento da história, entre os séculos XIII e XV, o mundo estava em transformação. O Renascimento surgia na Europa depois de séculos de estagnação cultural e científica. Além disso, a Europa tinha recém passado pela peste negra, que dizimou parte da população do continente. E o Renascimento buscava o resgate de um desenvolvimento humano e social iniciado durante o auge das civilizações gregas e romanas, mas interrompido na Idade Média (séculos V ao XV, mais ou menos).

A agricultura proporcionou às tribos a possibilidade de se organizarem em locais específicos de forma permanente, sendo os habitantes dessas tribos os precursores das cidades como conhecemos hoje. Com a criação das cidades, a sociedade se alterou por completo e se tornou mais complexa. Houve a necessidade de especialização de várias funções de iniciativa privada, como carpinteiro e ferreiro e de organizações públicas como órgãos de segurança e de administração. Ao mesmo tempo, as cidades criavam exércitos para se protegeram de invasões.

Com o aumento da especialização, sobrou tempo para os membros da sociedade pensarem mais no sentido da vida, dando origem à Arte e à Filosofia. Por fim, houve o desenvolvimento da Ciência, muito focada em entender os acontecimentos naturais e, consequentemente, o desenvolvimento da pesquisa sobre novas técnicas de produção, principalmente agrícolas. Neste contexto, os conceitos de tecnologia, sustentabilidade e colaboração variavam em importância entre eles e na relevância dos de seus elementos constitutivos.

O papel da colaboração e tecnologia no aumento da produção agrícola

Do ponto de vista da organização do meio rural, a colaboração era um elemento crítico de desenvolvimento agrário junto à tecnologia e à sustentabilidade. Através da colaboração, a sociedade evoluía, baseada na troca de trabalho e experiências, principalmente. Com isso, as pessoas conseguiam complementar-se em força e conhecimento para a elaboração de alguma tarefa como plantio e colheita. Outro componente importante na colaboração era a troca de produtos entre si: quando um tinha excedente ou especialização em uma área específica, como produção de trigo, por exemplo, poderia trocar por peles de animais oriundas de um caçador mais habilidoso ou dedicado. No início da agricultura, as trocas de ferramentas e insumos eram escassas, uma vez que estes conceitos eram rudimentares, da mesma forma que a troca de informação, conhecimento baseado em dados, ainda não existia, sendo que o único conhecimento gerado era por tentativa e erro através de experiências práticas.

A tecnologia evoluía através das técnicas de melhoramento vegetal e animal, utilização de ferramentas ainda que rudimentares, sendo muitas destas as mesmas utilizadas na caça, pesca e coleta. Nos séculos mais recentes deste período, próximos à Revolução Industrial, a utilização de insumos como fertilizantes e produtos para controle de pragas se intensificou, associada à evolução do conhecimento baseado em dados, ou seja, da informação, principalmente depois da invenção da impressão pelo alemão Johannes Gutenberg no século XV.

O desafio da sustentabilidade desde o início

Por fim, a sustentabilidade era baseada na área social, com a criação e preservação das comunidades rurais que, muitas vezes, evoluíram para status de cidades. A evolução e sofisticação destas comunidades foram críticas para o desenvolvimento inicial da agricultura, já que elas proporcionaram a especialização da mão de obra e organização da sociedade. Do ponto de vista ambiental, por mais paradoxal que pareça, a exploração agrícola não era muito sustentável. A atividade era baseada no desmatamento e queima de florestas para proporcionar espaço e nutrientes para as plantações. No entanto, devido à baixa eficiência deste sistema, derrubavam-se e queimavam-se muitas áreas para garantir o suprimento de alimentos para aquela comunidade, na ordem de um hectare produtivo para até 50 hectares em pousio.

Por esta baixa eficiência, a sustentabilidade econômica nos primórdios da agricultura também não era muito comum, já que agricultores precisavam trocar trabalho e experiências e, assim, o acúmulo de capital inicial era muito difícil. Foi somente nos séculos que antecederam a Revolução Industrial, com o advento do capitalismo e dos sistemas monetário e bancário, que a questão econômica ganhou força. No entanto, a maior parte do período foi compreendida por sistemas de trocas, inicialmente, e de poder bélico e religioso, posteriormente, como orientadores dos eventos e da vida cotidiana no período. O dinheiro e sua importância, como conhecemos hoje, só começou a se destacar na agricultura no último milênio do período.

Enfim, toda esta evolução através dos milênios que se seguiram à origem da agricultura foi colocada em prática para ajudar a própria agricultura a evoluir mais uma vez, mas em um momento crítico, quando, pela primeira vez, a agricultura estava atrás do crescimento da população. Este atraso da agricultura culminou com ondas de fome na Europa entre os séculos XIII e XIV, precedidas pelo primeiro aumento geral dos preços dos alimentos, principalmente o trigo, na história. Isto significava que a agricultura estava evoluindo mais devagar do que o crescimento populacional.

Neste sentido, a evolução em técnicas e ferramentas para o aumento da eficiência na produção de alimentos que se seguiram às ondas de fome da Europa, nos séculos XIII-XIV, ficou mais conhecida como a Primeira Revolução Agrícola dos tempos modernos. De certa forma, toda a Ciência e a Filosofia estavam retribuindo à agricultura por esta ter proporcionado tempo livre a muitos cientistas e filósofos para desenvolver suas teorias e tecnologias em prol do bem da humanidade. Além da revolução na agricultura, durante o Renascimento, a evolução em várias áreas do conhecimento como ciências, política, organizações públicas, segurança entre outras também viabilizou a Revolução Industrial.

Fonte de informações para o artigo

Mazoyer, M., Roudart, L. 2006. A history of world agriculture – from the Neolithic age to the current crisis. Monthly Review Press, New York, USA.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.