A agricultura difere de outras atividades econômicas pela gestão do balanço de oferta e demanda de produtos. Com relação à oferta, o tempo de resposta do agricultor para suprir o mercado é mais lento e o nível de investimentos necessários é mais complexo do que a maioria de outros segmentos produtivos. Com relação à demanda, as leis, normas, costumes, informações, saudabilidade e sustentabilidade têm grandes impactos que não são observados em outros segmentos.

A diversidade e o preço de produtos e serviços em um supermercado, restaurante ou loja de departamento existem para atender as necessidades e gostos de todos. O preço é a consequência da oferta e demanda e, ainda que inicialmente seja determinado pelo custo da oferta acrescido de uma margem de lucro para os diferentes elos da cadeia, ultimamente é o mercado que define o preço. E se o valor monetário inicial de venda, ou seja, custo mais lucro do fabricante e dos revendedores é muito alto, o produto não tem uma demanda pelo mercado e, consequentemente, este deixa de ser ofertado, ou sobrevive em um segmento de nicho. No entanto, vamos ver abaixo que as dinâmicas de oferta e demanda não são as únicas forças que determinam o preço de uma commodity agrícola.

A oferta sem controle

Nos casos das commodities agrícolas, a diferença é que o agricultor está vendendo um produto pouco diferençável e, por isso, é uma commodity. O café produzido pode ser orgânico, especial ou gourmet, mas a maioria do café vendido pelo agricultor no mundo é um café commodity, tanto no Brasil como em outro país da América Latina, Ásia ou África. Isso quer dizer que seu preço é determinado pela oferta e demanda do café no mundo, independentemente do seu custo de produção acrescido de sua margem de lucro, como ocorre em outras indústrias. Então, imagine um produtor de café com custo de produção de R$ 350 para uma saca de 60 quilos, produzindo 1.000 sacas de café por ano. Seu custo de produção anual será de R$ 350.000 já com os impostos, mas ele e sua família possuem outras necessidades. Eles precisam comer, comprar roupas, se locomover, cuidar da saúde, educação, aposentadoria e diversão também.

Enfim, vamos imaginar que ele e sua família possuem uma demanda anual de R$ 50.000. Desta forma, a demanda financeira deste agricultor é de R$ 400.000 por ano. Como ele e sua família produzem 1.000 sacas de café por ano, ele precisa vender a saca de café por R$ 400 cada uma. Neste exemplo, estamos assumindo que o café é normal, ou seja, não é orgânico ou gourmet ou possui qualquer outra característica especial e que a família do agricultor não possui outra fonte de renda.

No entanto, o preço de café commodity é determinado pela oferta e demanda do café no mercado mundial e não pelo custo mais a margem de lucro necessários para o nosso produtor sustentar sua propriedade e família. Assim, o agricultor vai vender seu café por um preço que o mercado estiver pagando. Ao agricultor só resta a esperança de que, quando ele estiver colhendo e disponibilizando seu café no mercado, seja para um comprador intermediário, seja para uma cooperativa ou um processador de alimentos, o preço esteja no mínimo a R$ 400 a saca ou mais. Mas é isso, a única força que ele tem é a esperança e mais nada.

O preço e o clima

Caso o ano tenha sido bom na maioria das regiões produtoras do Brasil e, o Brasil sendo um dos principais produtores e exportadores de café no mundo, o preço terá uma tendência de estabilidade ou queda. Se outros países produtores e exportadores como Colômbia ou países da África ou Ásia também tiverem boas colheitas, então a probabilidade de o preço cair é grande e muito provavelmente nosso agricultor estará vendendo seu café por um preço abaixo do que ele precisaria, ou seja, abaixo de R$ 400 a saca. Em anos muito bons para a produção e com alguns problemas de demanda por questões econômicas ou aumento da oferta de produtos substitutos como o chá, o preço pode chegar até mesmo abaixo do custo de produção de R$ 350 a saca do nosso agricultor.

Caso exista uma sequência de anos com grandes ofertas e preços abaixo do ideal ou do custo de produção, esse agricultor irá se endividar no banco ou cooperativa ou com os seus fornecedores de insumos e, se o cenário não mudar, ele poderá perder parte de sua propriedade ou toda ela para pagar as dívidas. Desta forma, o produtor de café tem seu futuro nas mãos do mercado, ou seja, na espera de colher bem e de que o preço esteja bom também.

Na verdade, esta descrição teórica do drama dos produtores de café está acontecendo hoje. Em 2019, o preço pago ao produtor de café atingiu os menores níveis em relação aos últimos dez anos. Isso se deve, ironicamente, a safras muito altas no Brasil nos últimos anos e, sendo o Brasil o maior produtor de café no mundo, a sua produção acaba influenciando os preços no mercado internacional e local. Desta forma, o lucro dos cafeicultores tem diminuído consideravelmente no mundo todo.

No Brasil, por exemplo, o lucro do produtor se reduziu pela metade nos últimos três anos, mas outras regiões, como África e América Central, têm passado por problemas ainda maiores. A ironia desta história é que o preço pago pelo consumidor final nos cafés ao redor do mundo tem aumentado nos últimos anos. Esse é um exemplo de como o consumidor pode influenciar a cadeia de produção para exigir que as lojas de varejos de alimentos sejam mais justas com os produtores de alimentos.

Quando o preço é alto

Um cenário oposto ocorre quando o preço do café aumenta consideravelmente devido à falta do produto no mercado por questões de clima ou pragas, ou a um aumento repentino na demanda devido a um novo acordo comercial entre países, a uma nova forma de consumir o café, como em cápsulas, ou à melhoria econômica de um país populoso como a China. Neste caso, os produtores têm a oportunidade de aumentar a produção devido a esta tendência de aumento na demanda. No entanto, isso pode demorar alguns anos por questões normais de produção. Uma plantação nova de café, por exemplo, irá demorar 12 meses para iniciar a produção em situações especiais, mas levará três anos para atingir o pico de produção. Em três anos, muita coisa já mudou e aquela demanda inicial por mais café talvez já passasse; e aí, o que o agricultor faz com seu excesso de produção?

Embora a resposta de ajuste de produção de produtos como soja e milho requeira menor tempo do plantio à colheita, esta resposta continua não sendo tão elástica assim. No caso de um agricultor já possuir condições de terras, máquinas e conhecimento para produzir soja e milho, ele irá precisar de, no mínimo, seis meses, no Brasil, para ajustar a sua produção. Ou seja, caso a demanda por milho ou soja aumente, em julho, por exemplo, e o agricultor plante em agosto ou setembro, dependendo da região de produção no Brasil, ele só irá colher seu milho ou soja depois de quatro a cinco meses. Se, por acaso, houver um aumento de demanda para ambas as culturas, soja e milho, então o agricultor terá que abrir novas áreas, provavelmente áreas de pastagem degradadas.

Neste caso, ele terá que investir muito dinheiro em máquinas e equipamentos que ele não possui. E, por fim, a primeira colheita bem-sucedida de soja ou milho será possível somente três anos depois. E, assim como ocorre com o café, pergunta-se o que o agricultor fará com o excesso de produção depois de três anos, se a demanda já se estabilizou por oferta dos produtos em outras regiões do país ou do mundo ou a demanda diminuiu por altos preços e produtos substitutos.

Este ciclo de alta demanda, investimentos para aumentar a oferta, altas produções e preços baixos tem ocorrido com várias commodities agrícolas nas últimas duas décadas. Aumento significativo da demanda de commodities agrícolas pela China e outros países emergentes, nos anos 2000, fez com agricultores norte-americanos investissem em máquinas, equipamentos e insumos para aumentar a produção. Ao mesmo tempo, agricultores do mundo todo também converteram mais de 72 milhões de hectares. Como resultado, agricultores dos EUA e de vários países têm batido recordes de produção bem acima da demanda e os preços das commodities têm caído consistentemente. Este cenário tem impactado vários agricultores e gerado uma crise no meio rural norte-americano.

Ao mesmo tempo, os agricultores não conseguem diminuir suas produções devido justamente aos altos investimentos que têm feito nos últimos anos para atender a demanda. Esses investimentos são de uma ou duas décadas; por exemplo, compra de terras, tratores e colheitadeiras e, uma vez que o agricultor financiou tudo ou parte disso, ele precisa plantar, colher, vender e pagar as dívidas. Assim, eles não conseguem diminuir a produção, mesmo sabendo que estão, desta forma, contribuindo para a redução dos preços de commodities. A este fenômeno economistas chamam de “irreversible supply curve” ou curva de oferta irreversível, em uma tradução livre. Ou seja, quando o investimento feito está no seu pico e o preço da commodity começa a cair, o agricultor não consegue reverter seus investimentos e continua a produzir, às vezes até aumentando a produção, para ganhar na escala.

Este cenário de inelasticidade do mercado agrícola, ou seja, de demora em responder ao aumento ou diminuição da demanda, é uma característica especial do setor de commodities em geral, como os dos setores agrícola, de energia e de minérios. O tempo para abrir uma mina de ferro, uma área de exploração de petróleo ou uma hidroelétrica é de anos ou décadas. Esta característica de inelasticidade pode causar sérios problemas na oferta de produtos, pois consumidores podem não ter opções por muito tempo e produtores podem ficar com este excesso de produção quando a demanda já diminuiu.

Fontes de mais informações

Prasad, R. 2019. How the 2019 coffee crisis might affect you. BBC News. Publicado em 19/07/2019. https://www.bbc.com/news/world-us-canada-48631129. Acesso em 11/01/2020.

Newman, J., McGroarty, P. 2017. Plowed Under: The Next American Farm Bust Is Upon Us. The Wall Street Journal. Publicado em 8/02/2017. https://www.wsj.com/articles/the-next-american-farm-bust-is-upon-us-1486572488. Acesso em 20/01/2020.

Nunn, S. 2018. U.S. farmers are producing too much food. Here’s why they can’t stop. The Wall Street Journal. Publicado em 5/02/2018. https://blogs.wsj.com/economics/2018/02/05/u-s-farmers-are-producing-too-much-food-heres-why-they-cant-stop/. Acesso em 20/01/2020.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.