Ao mesmo tempo em que os produtores rurais passam por grandes desafios no mundo cheio de volatilidade, incertezas, complexidade e ambiguidade da agricultura, o resto da cadeia de produção se organiza melhor para sobreviver e expandir. Uma das formas que as empresas utilizam para se proteger das consequências desta nova situação é a consolidação entre elas. Economistas chamam de “concentração” quando mercados nos quais quatro ou menos empresas possuem 40 a 50 % de participação.

A concentração em uma indústria é defendida por aqueles que acreditam que em muitas indústrias os custos de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos está cada vez mais alto, e a única forma de trazer inovação para certos setores é através da consolidação dos principais participantes destes setores. Além disso, as pessoas que suportam a concentração também argumentam que a economia de escala é a única solução para alguns setores, principalmente na produção de commodities como soja e milho.

Por exemplo, na indústria de insumos agrícolas, as quatro maiores empresas de sementes, inseticidas, herbicidas e fungicidas controlam em torno de dois terços do mercado global. Por sua vez, as tradings devem possuir uma grande estrutura logística, de armazenamento e de financiamento, para poder comercializar nacional e internacionalmente as commodities agrícolas. Por coincidência ou não, essas tradings representam um dos setores mais consolidados da cadeia de produção de alimentos no mundo. Apenas nos EUA, as quatro maiores detinham quase 80% do mercado de processamento de soja em 2011.

As desvantagens da consolidação

Se existem motivos e defensores para justificar a consolidação de várias indústrias, também existem razões e pessoas contrárias a este modelo. O problema da concentração está na dificuldade de novas empresas entrarem no mercado – inibindo a inovação em produtos, serviços e modelos de negócios – e na influência nos preços, já que não existem competidores na área. Ou seja, quanto maior a concentração de empresas em uma indústria, menor a competividade dela, resultando em duas consequências graves para os clientes em geral: preços altos e falta de alternativas de produtos.

Apesar destes pontos negativos para o público em geral e de os governos estabelecerem certas condições para as aquisições e combinações de empresas, a consolidação de muitas indústrias é uma tendência geral do capitalismo motivado, ou forçado para alguns, pela necessidade do aumento da escala de produção para que se tenha lucro.

O papel do mercado financeiro

Por fim, o mercado financeiro que participa na cadeia de produção de alimentos também contribui com a concentração desta indústria. Por exemplo, na África, após a crise de 2008, iniciou-se uma corrida para aquisição de terras potencialmente aráveis por parte de grandes investidores estrangeiros em sua maioria. A intensidade também é significativa, já que se estima que as aquisições representem quase 10% das terras aráveis na África Subsaariana. Segmentos mais exclusivos e com maiores retornos como o orgânico também estão na mira do mercado financeiro. As empresas de venture capital e private equity têm investido na indústria de produção de alimentos orgânicos, alcançando retornos impressionantes como 25 a 100% anuais.

Por outro lado, o mercado financeiro também atua na promoção da sustentabilidade ambiental e social. Um exemplo é o FAIRR, sigla em inglês para Farm Animal Investment Risk & Return, ou Retorno e Risco em Investimento para Produção de Animais. O objetivo do fundo é ressaltar as questões ambientais, sociais e de governança que medem o comportamento das empresas produtoras de alimentos de origem de proteína animal.

Neste sentido, um exemplo é a startup Beyond Meat, que produz hambúrgueres à base de plantas, consumidos em mais de 1.300 restaurantes. Outro exemplo é o fundo Livelihoods que tem como objetivo melhorar a vida de dois milhões de pessoas habitantes de comunidades agrícolas. Indiretamente, com os programas financiados pelo fundo, espera-se impedir a emissão de até 25 milhões de toneladas de CO2 nos próximos 20 anos. Os programas do fundo têm objetivos voltados para a parte ambiental e social das comunidades agrícolas e esperam dar condições para que agricultores de pequenas propriedades consigam atingir a sustentabilidade econômica independente de programas governamentais, por exemplo.

Estes fundos de investimentos de impacto social e ambiental deveriam se aproximar mais dos produtores rurais para, juntos, atraírem consumidores-investidores preocupados em tornar a cadeia de produção mais sustentável. Essa é uma das formas pela qual o mercado pode ajudar a aumentar a sustentabilidade da agricultura e a produção de alimentos ao mesmo tempo.

Fontes de informações para o artigo

Howard, P.H. 2016. Concentration and Power in the Food System: Who controls what we eat? Bloomsburry Publishing Plc. New Yor, USA.

Jayne, T.S., Chamberlin, J., Headey, D.D. 2014. Land pressures, the evolution of farming systems, and development strategies in Africa: A synthesis. Food Policy 48 (2014) 1–17.

Tullis, P. 2018. A Private Equity Veteran Wants to End Animal Factory Farming. Bloomberg BusinessWeek. October 15 2018. https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-10-15/a-private-equity-veteran-wants-to-end-animal-factory-farming). Acesso em 08/09/2019.

Dinheiro Vivo. 2018. Livelihoods. Há um novo fundo de investimento para tornar o mundo mais verde. Dinheiro Vivo. 11 de janeiro de 2018. https://www.dinheirovivo.pt/internacional/livelihoods-ha-um-novo-fundo-de-investimento-para-tornar-o-mundo-mais-verde/. Acesso em 08/09/2019.

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Sobre o autor

Tederson é Engenheiro Agrônomo, PhD e MBA. Tem mais de 20 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de tecnologias aplicadas à agricultura. Também trabalhou nas áreas de estratégia e gerenciamento de produtos em multinacionais nos EUA, Brasil e Argentina. Além disso, atua como investidor-anjo de startups brasileiras. Atualmente, é diretor de P&D de uma startup que desenvolve tecnologias mais sustentáveis para o manejo de pragas na agricultura. Recentemente publicou o livro “Prato Meio Cheio, Meio Vazio: conquistas, desafios e alternativas para alimentar a humanidade sem destruir o planeta”.